Uma mesa para a escrita

Por Jad Silva - 24 jul 2020 - 3 min

Há um tempo, li em algum lugar que o escritor Haruki Murakami escreveu seu primeiro, e premiado, romance sentado à mesa de sua cozinha e que foi todo escrito à mão em um caderno simples de caligrafia. Embora o texto falasse outras coisas sobre o processo de escrita de grandes autores, foi essa a informação que mais me prendeu, não só porque é também a minha mesa da cozinha que apoia minha escrita, mas a ideia de que o ato de escrever, é, muitas vezes, tão cotidiano, simples e essencial quanto se sentar à mesa da cozinha.

Clarice Lispector disse que escrevia como se estivesse salvando alguém[1] e, para mim, essa é uma boa metáfora sobre a literatura e a escrita. Já fui salva por muitos livros e de muitas maneiras diferentes, já escrevi sobre o meu lugar no mundo muitas vezes, já tentei narrar o próprio mundo de muitas formas e, embora escreva há vários anos, nunca pensei em mim mesma como “escritora”.

Recentemente, um poema meu foi escolhido, dentre muitos candidatos, num edital de Arte que tinha como proposta refletir sobre o difícil cenário atual[2]. Após o choque inicial de ter sido selecionada, tive de iniciar o processo burocrático da participação no edital e, como é na concretude do cotidiano que a atenção fica (a minha ao menos), o que mais me provocou foi quando precisei responder a um e-mail específico para a responsável pela organização do cronograma de apresentação dos trabalhos. Entre envios de documentos e autorizações, uma pergunta me fez sentar à minha mesa da cozinha e olhar para o nada (com algum pânico): O que devemos colocar na biografia da autora?

Acredito que existe uma certa coragem para colocar no mundo sua escrita, quase todos os livros que li estão repletos de coragem. Uma vez participei de um curso que em toda aula era preciso ler para os outros alunos um texto de sua autoria. Eu, desde o primeiro dia de aula, me sentei atrás de um gigante pilar que havia na sala para conseguir ler em voz alta o que eu escrevia, e apesar de ter ganhado dos colegas o apelido “Pilar”, ouvi certa vez de meu professor que meus textos eram agridoces – “Há neles coragem e medo. Como a vida”. Na aula seguinte, eu me sentei em outro lugar, o pilar não fazia mais sentido. Escrever sobre sua própria história, sobre as coisas no mundo, sobre seu lugar nele requer muita coragem.

Então, hoje, data em que comemoramos o Dia do Escritor eu só consigo agradecer a todas e todos que me salvaram com suas palavras, que tiveram medo e coragem. E agradeço pela minha mesa da cozinha em que muitas vezes pude me salvar por meio da escrita. Ao e-mail sobre a biografia da autora, eu respondi: – “Coloca assim: escreve para tentar se salvar. Todos os dias.”


[1] LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

[2] Arte como Respiro: Múltiplos Editais de Emergência – Literatura: Categoria Poesia Falada. Itaú Cultural, 2020.

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Jad Silva

Escreve para tentar se salvar. Todos os dias.

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