TIRADENTES: A CRIAÇÃO DE UM MITO

Por Juliana Muscovick - 21 abr 2021 - 10 min

Dia 21 de abril é o feriado nacional que homenageia Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, um dos participantes do movimento da Inconfidência Mineira, ocorrido no século 18. Única pessoa do país homenageada com um feriado na data de sua morte, sua imagem habita o imaginário brasileiro, estampa a moeda de 5 centavos de real, é nome de cidade, de rua, de praças e de metrô. 

E por que Tiradentes se tornou um mito e uma espécie de herói nacional? Por cerca de duzentos anos, a Inconfidência transitou entre narrativas diversas e adquiriu um caráter épico, uma epopeia formada por notáveis, tendo Tiradentes como principal líder do movimento. Após a Proclamação da República, em 1889, torna-se um mártir cívico quando os republicanos decidem resgatar sua imagem e transformá-la em símbolo de luta pela liberdade. O assimilaram até a Jesus Cristo. Mas por que isso aconteceu? 

Para falar em Tiradentes, é preciso mencionar a Conjuração Mineira, ou Inconfidência, ocorrida entre 1788 e 1789 em Vila Rica – atual Ouro Preto –, na capitania de Minas Gerais. Esse foi um dos primeiros movimentos organizados a contestar o poder que a Coroa portuguesa exercia no Brasil, e era composto por membros da elite socioeconômica, incluindo médicos, religiosos, poetas, cônegos, engenheiros, médicos, militares, comerciantes, entre outros. 

Normalmente, associa-se a revolta à luta contra os altos impostos da Coroa portuguesa e à libertação do país do julgo português. No século 18, Minas Gerais era bastante próspera, fruto da atividade mineradora que trazia riqueza e desenvolvimento para a região. Em 1788, Visconde de Barbacena assume o cargo de governador com a ordem de realizar a derrama, operação fiscal promovida pela Coroa portuguesa para cobrar os impostos atrasados. Segundo boa parte da historiografia, esse foi o principal motivo que uniu os inconfidentes. O “quinto” correspondia à cobrança de 1/5 sobre a quantidade de ouro extraído anualmente e, quando não era pago, os valores iam se acumulando. Assim, a Metrópole se valia da derrama para cobrar os impostos, utilizando-se também do confisco dos bens dos devedores. Em razão dessas dívidas, membros da elite de Vila Rica teriam sido motivados a integrar o movimento. 

O historiador inglês Kenneth Maxwell, no livro A devassa da devassa (1977), traça um panorama mais abrangente a esse respeito, ao passo que analisa a trama partir de vários eventos entrelaçados, como a crise do sistema colonial português e a crescente dependência do país em relação à Inglaterra. Segundo Maxwell, a revolta não se materializa, mas aponta o fato de que a elite mineira, na qual o governo português deveria confiar para exercer o poder local, se atreveu a pensar que poderia se tornar uma república independente de Portugal. Vale ressaltar também que, assim como outros movimentos, a Inconfidência é fruto de uma série de ambiguidades e contradições próprias do período.

A respeito da independência do país, não raro livros didáticos e museus históricos tratam a Inconfidência Mineira e Tiradentes como precursores do movimento de Independência do Brasil (1822). Contudo, é importante frisar que o grupo não prezava pela libertação do país, mas sim pela emancipação de Minas Gerais e em algum grau da capitania do Rio de Janeiro. Ou seja, tratou-se de um movimento regional e seus participantes não tinham noção de que 33 anos depois isso poderia ocorrer em nível nacional. Além disso, o conceito de “nação brasileira” só seria discutido e criado pela elite socioeconômica nos idos de 1889, após a Proclamação da República. A ideia de Brasil era algo oficial, mas da administração régia, não era a base territorial com a qual se identificavam os protagonistas da Inconfidência. 

A construção do mártir

Nascido em 1746, na capitania de Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier vem de uma origem humilde e na vida adulta passa a trabalhar como cirurgião-dentista – por isso o apelido “Tiradentes”. Tempos depois, alista-se na Cavalaria da Capitania de Minas Gerais como alferes e lá permanece até 1787. Nesse período passa a ter contato com os ideais iluministas e liberais em evidência naquele momento. Descontente por não ter sido promovido de posto e com o domínio colonial, passa a integrar algumas reuniões secretas promovidas entre a elite mineradora, que define o início do motim para fevereiro de 1789 – data em que ocorreria a derrama. Segundo Schwarcz e Starling, no livro Brasil: uma biografia (2015), Tiradentes foi ativo propagandista das ideias que sustentaram o projeto político da Inconfidência e responsável por colocá-las em circulação em uma rede formada por diferentes grupos sociais.

A conspiração, contudo, não chegou a se concretizar, pois os inconfidentes foram denunciados por Joaquim Silvério dos Reis. Após a delação, a Coroa portuguesa prende todos os envolvidos, incluindo Tiradentes, e a partir daí inicia-se o processo de julgamento ao longo de três anos. A sentença saiu no dia 18 de abril de 1792 e, entre os julgados, alguns foram condenados ao degredo e outros, à morte. No entanto, somente Tiradentes teve sua execução mantida. Foi enforcado no dia 21 de abril do mesmo ano e, em seguida, decapitado – sua cabeça foi colocada em um poste em um local público da cidade de Ouro Preto. O corpo foi esquartejado e cada parte colocada em diferentes trechos do Caminho Novo. Por fim, a casa do alferes foi destruída e o solo foi salgado. 

Os requintes de crueldade na execução do alferes tinham como objetivo incutir medo na população, a fim de evitar que novas conspirações se formassem. Existem diversas interpretações a respeito da escolha de Tiradentes para ser penalizado. Uma delas é a de que foi o único a não ter influência na Coroa para reverter a sua pena; outra é a de que foi o único a assumir seu envolvimento com o grupo; ou que até mesmo optou por livrar seus colegas. 

Sua imagem ficou esquecida até meados da segunda metade do século 19, quando os ideais republicanos começaram a efervescer no país. Ali começaram as primeiras associações de Tiradentes à figura de Jesus Cristo. Segundo Mariana de Carvalho Dolci, na dissertação Personagem imortal: a construção da memória de Tiradentes no Museu Paulista e no Museu da Inconfidência (2014), essa aproximação foi levada a cabo por Castro Alves, que em 1866 chama Tiradentes de “Cristo da multidão”. Já em 1882, Luís Gama publica um artigo intitulado “À forca o Cristo da multidão”, em referência direta ao poema de Castro Alves, e mantém o paralelo entre Tiradentes e Cristo. Nesse, a forca foi equiparada à cruz, o Rio de Janeiro a Jerusalém, o Calvário ao Rocio. A causa do sacrifício de Tiradentes, por outro lado, foi a justiça e a liberdade.

Mas a grande retomada de sua imagem foi feita a partir da Proclamação da República, em 1889, quando o regime republicano recupera as circunstâncias dramáticas da execução de Tiradentes e sua atitude assumida durante a devassa para a construção de um mártir de caráter político. Esse projeto é ainda mais bem sucedido por conta de ele ter vindo de uma camada mais pobre da população. Assim, sua origem dita popular o aproximaria da ideia de um herói das massas. Além disso, o fato de ter sido alferes legitima a intenção dos republicanos – movimento de caráter militar – de relacionar o militarismo no Brasil daquele período com a ideia de libertação e emancipação do Brasil da Coroa portuguesa. 

É nesse momento que a elite intelectual da época e artistas de todas as sortes passam a trabalhar em cima da figura de Tiradentes na edificação de um imaginário coletivo – parte integrante de legitimação de qualquer regime político. Por meio da construção de um imaginário nacional, criam-se habilmente identidades, mitos, parceiros, inimigos e organizam passado, presente e futuro das sociedades. 

Data dessa época o célebre quadro de Pedro Américo, Tiradentes esquartejado (1893), em que o pintor recria o cenário da morte de Tiradentes, com seu corpo em pedaços. É notável a forma como o inconfidente é retratado à semelhança de Cristo, especificamente o de Michelangelo, na escultura Pietá (1499). Dessa forma, passa a ser registrado com cabelos e barbas longas, de forma semelhante à qual Cristo costuma ser retratado. Nos quadros, geralmente está olhando para cima, assim como Jesus em seu martírio. 

Os museus históricos também costumavam (e costumam) exaltar a imagem de Tiradentes e dos inconfidentes e tratá-los como precursores do movimento de Independência do Brasil. Na década de 1930, época em que o resgate da memória brasileira começava a se tornar prioridade para o governo e para a elite intelectual da época, a inauguração do Museu da Inconfidência em Ouro Preto (MG), em 1938, é um marco que edifica essa ideia. Foi nesse momento também que o então presidente Getúlio Vargas determina que os restos mortais dos participantes da Inconfidência degredados para a África fossem trazidos de volta ao Brasil. 

Muitas são as formas de se apropriar do passado e muitos são mártires eleitos para compor o imaginário coletivo e patriótico do país. E Tiradentes não ficou de fora dessa. E o que é a literatura senão uma forma de revisitar essas narrativas, com pitadas criativas, imaginativas e lúdicas? A seguir, indicamos duas obras do nosso catálogo que tratam de Tiradentes e da Inconfidência Mineira:

As revoltas do vampiro, de Ivan Jaf 

Como lidar com um adolescente rebelde? Nosso personagem vampiro ainda está fazendo análise. Agora, o assunto das sessões é a relação com Vicente, seu filho adolescente, nos idos do século XVIII. Com a rebeldia típica dos jovens, Vicente foge de Portugal para o Brasil em busca de seu irmão gêmeo. Aqui, em sua busca por um ideal e por uma “galera”, acaba se metendo nas maiores confusões e até imprimindo sua marca na história do país ao participar da Inconfidência Mineira e da Conjuração Baiana. Será que vivenciar tantos motins vai deixar o adolescente mais calmo e centrado?

O outro apaixonado por Marília de Dirceu, de Jair Vitória

Pedro Sião Alcantil, o Pedroco, um rico domador de cavalos, nutria um amor platônico por Maria Doroteia e planejava se declarar. Mas a chegada de um ouvidor e poeta português, o doutor Gonzaga, a Vila Rica atrapalhou todos os seus planos. A moça não resistiu e se apaixonou por aquele que fazia versos, que em sua poesia a chamava de Marília, enquanto ele era o seu Dirceu. Desesperado, sem conseguir tirar Maria Doroteia da cabeça, o que era amor virou obsessão. Pedroco queria vingança. Nesta obra, Jair Vitória reconstrói a história imortalizada pelo poeta árcade Tomás Antônio Gonzaga, misturando à ficção acontecimentos, costumes e personagens da história do Brasil. Assim, viajamos à Ouro Preto da Inconfidência Mineira, da exploração do ouro, das igrejas e obras de Aleijadinho, das encenações teatrais e da poesia.

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Juliana Muscovick

Juliana Muscovick é editora do Departamento de Literatura Infantojuvenil da SOMOS Educação. Formada em Letras, História e com especialização em jornalismo, trabalha na área editorial desde 2010 e sempre se aventurou pelos caminhos das letras, da cultura, da educação e das artes.

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