Tela de papel: livros impressos interativos

Por Simone Oliveira - 02 out 2020 - 6 min

Quando um bebê nasce, sua apreensão do mundo perpassa-lhe os sentidos e o corpo, meio que possibilita a compreensão da realidade ao redor. O corpo configura-se como plataforma ativa para o aprendizado, e assim permanece, em maior ou menor grau, por toda a infância.

Desse modo, desde a mais tenra idade, o corpo impõe-se também como grande aliado no processo de formação de leitores. Bebês e crianças pequenas são (ou deveriam ser) estimulados a ter acesso à leitura e aos livros, seja mediante a narração em voz alta, realizada por aqueles que deles cuidam, seja diretamente pelo livre manuseio de publicações.  Estudiosos como os colombianos Évelio Cabrejo-Parra e Yolanda Reyes destacam o benefício da leitura em voz alta para bebês até mesmo antes do nascimento, como prática de afeto e vínculo entre aquele que lê e aquele que escuta. Já a exploração do objeto livro, por sua vez, consolida a familiaridade com um dos mais importantes suportes de armazenamento e transmissão do conhecimento humano

No entanto, se nos detivermos na relação com esse objeto, constataremos que a livre interação de bebês e crianças pequenas com livros permanece um tabu. Pais, professores e cuidadores restringem o acesso desses leitores a livros variados, priorizando os mais resistentes ao manuseio – como é o caso dos cartonados, de plástico ou tecido. Eles receiam que os bebês e as crianças amassem, manchem, comam e/ou rasguem o sacralizado objeto livro.

Mas como reivindicar a transformação das crianças em leitores plenos com esse tipo de restrição? Como aprenderão os diversos usos da “tecnologia” do livro impresso se não podem experimentá-lo sem interditos?

Sirva de exemplo de estímulo à bibliodiversidade o contato desimpedido das crianças com livros impressos interativos.

Sem esquecer que toda leitura é sempre interativa, pois os leitores não são herdeiros passivos da palavra do autor, e formulam questões, contextualizam o que leem, imaginam cenas e personagens, sonorizam o texto, confrontam autores e obras etc., a interação nos chamados livros impressos interativos se dá inicialmente no plano físico, pela própria configuração concreta desses objetos. Há, por exemplo, obras com abas e texturas, recortes e dobras, botões e sons. Em sua maioria, elas se aproximam do que costumamos chamar de livro-brinquedo.

É evidente que esses livros incentivam uma intensa exploração por parte dos pequenos, mas, ainda assim, podemos nos perguntar: até que ponto tais obras, com seus recursos gráficos extras, potencializam o interesse leitor na primeira infância? Qual a relação da leitura apoiada nesses “extras” com a leitura mais contemplativa de livros “convencionais”, que a criança encontrará mais tarde, ao longo da vida escolar?

Em 2011, publicado pela editora Ática, chegou ao Brasil o livro infantil Aperte aqui, do autor francês Hervé Tullet. Originalmente intitulado Un livre e traduzido para dezenas de idiomas, ele figurou na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times por anos. A obra, em formato tradicional, sem botões, dobras, buracos nem texturas, condensa em suas páginas o que podemos classificar como uma ideia genial bem realizada: ao executarmos os comandos do narrador, temos a ilusão de, a cada virada de página, modificarmos a narrativa gráfica apresentada. Aqui, a superfície analógica da folha transforma-se em uma tela touch, e passamos a ter a impressão virtual de que nossa ação sobre o livro, nosso toque sobre o papel, transforma as bolinhas coloridas de uma página a outra.

Se a leitura em voz alta implica expressão de afeto e abre passagens ao mundo simbólico e representativo da literatura, o contato com livros impressos interativos, em termos físicos ou virtuais, fornece àquele que ainda não decifra a escrita a oportunidade de se tornar um leitor autônomo, agente da narrativa sobre o papel. O toque e os movimentos de interação corpórea com o objeto livro revelam, pouco a pouco, a narrativa. Assim a criança vive a ilusão de que é a sua ação, o seu toque, o seu movimento sobre a folha que conta a história. Sem tal interação – muito similar à que fazemos hoje nas tantas telas que nos rodeiam –, a narrativa não avança.

Como Tullet, há outros autores que se dedicam a publicar livros impressos interativos, como é o caso, por exemplo, de Isabel Minhós Martins, Madalena Matoso, Silvia Borando, Richard Byrne, Christie Matheson e Bill Cotter (alguns ainda não traduzidos para o português). São livros com histórias que propõem ações como tocar, apontar, bater palmas, assoprar, virar o livro, acariciar a página, chacoalhar as folhas etc.

Logo, esse tipo de publicação impressa interativa, embora sem botões ou abas – um livro comum, um códice pura e simplesmente –, transforma-se em um “brinquedo narrativo”: ao mesmo tempo que brinca e interage, a criança protagoniza a leitura da obra e investiga as fronteiras do objeto.

Disponibilizar para a primeira infância obras como a de Tullet é estabelecer convergências entre o brincar e a performance leitora. Depois que o adulto apresenta esse tipo de livro à criança e ela capta como a narrativa “funciona”, a necessidade de mediação torna-se secundária: a criança consegue “ler” o livro sozinha, recordando-se da história e empreendendo suas ações sobre o papel. O corpo, aqui, reafirma-se como o instrumento leitor por excelência da criança ainda não alfabetizada.

Tal “leitura” autônoma faz também compreender o limite das páginas, que podem ser viradas em direção ao fim da história ou ao seu começo, para retomar o que já foi lido; que cada virada de página demanda certo tempo de observação etc. Todos esses comportamentos leitores diante do objeto livro serão também exigidos na leitura extensiva de uma obra sem imagens, por exemplo.

É fundamental oferecer à primeira infância a oportunidade de manusear e conviver com livros de temas, configurações e formatos diversos, garantindo livre acesso às obras para o despertar plural do interesse pela leitura.

Mesmo ainda sem a capacidade de decodificar a escrita, com os livros impressos interativos os pequenos tornam-se leitores protagonistas, que leem com o corpo, os gestos e o movimento – tornam-se, literalmente, “leitores digitais”, pois leem com a ponta dos dedos.


Conheça abaixo o livro de Hervé Tullet citado no artigo.

Aperte aqui, de Hervé Tullet

A brincadeira começa com uma bola amarela no centro de uma página branca e um convite: aperte a bola e vire a página… Como num passe de mágica, surgem duas bolas na página seguinte. A partir daí, novos convites e novas surpresas aparecem a cada página, nesta obra que faz uma implícita alusão ao universo eletrônico dos tablets.

Este livro possui Guia do Professor.


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Simone Oliveira

Simone Oliveira tem 34 anos e é editora, formada em Letras e em Editoração pela Universidade de São Paulo (USP) e apaixonada por Literatura Infantil. Já foi professora na rede pública de ensino e, atualmente, é pós-graduanda em literatura para crianças e jovens no Instituto Vera Cruz.

E-mail: simoniveira@gmail.com

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