Sobre o chamado “politicamente correto” - Coletivo Leitor

Sobre o chamado “politicamente correto”

Por Ricardo Azevedo - 28 nov 2018 - 6 min

Há menos de dois meses recebi mensagem de uma professora contando que a orientadora de sua escola tinha criticado (creio que até vetado) a leitura de meu livro História de bobos, bocós, burraldos e paspalhões, Ática. Para quem não conhece, trata-se de um conjunto de seis contos populares recontados por mim cujo o ponto comum é o herói tolo.

Eis um trecho do posfácio do livro:

Muitos contos populares apresentam heróis valentes e invencíveis que, desafiando forças mágicas e superiores, invadem castelos inexpugnáveis, enfrentam dragões, bruxas e gigantes e acabam encontrando o tesouro, casando com a princesa e subindo ao trono.

Alguns poucos contos, porém, trazem heróis tolos, bobos, burraldos, bocoiós, distraídos, que se confundem, são ingênuos, fracassam, fazem mil coisas erradas, mas no fim, meio sem querer, sempre ou quase sempre acabam se dando bem.

Olhando bem, esses heróis atrapalhados são mais humanos e, na sua fragilidade, muito mais parecidos com todos nós.

A primeira edição do livro foi publicada em 2001 e o livro, desde então tem sido lido e relido por muitos leitores.

O argumento da professora orientadora: com ele os pequenos aprenderiam novas palavras como burraldos e paspalhões e poderiam passar a usá-las como bullying (!).

Posso imaginar que essa professora orientadora tenha pavor de dicionários e lute para manter seus alunos longe deles. Dicionários, como sabemos, estão cheios de injúrias, ofensas e palavrões.

Posso dar outro exemplo recente de críticas do mesmo tipo com relação a outros livros meus. No livro Dezenove poemas desengonçados, Ática (Prêmio Jabuti, 1999), há um poema — “Disparate” — que começa assim:

 

No alto de uma montanha
longe de lá e daqui
existia uma cidade
cujo nome eu esqueci.

Na cidade havia um jovem
leal, fiel e galante
que fugia de barata
mas enfrentava gigante

Tinha uma moça formosa
cautelosa e curiosa
amorosa e luminosa
rosa cheirosa e gostosa.

E um funcionário velho
que nunca andava sozinho
de dia tocava cello
de noite tomava vinho.

E uma velha corcunda
fremebunda e furibunda
gemebunda e iracunda
pudibunda e vagabunda.

 

(e por aí vai)

 

Uma escola recebeu críticas de alguns pais dizendo que o poema recorria a palavras de “baixo calão” (!). Trata-se, como fica claro, da onda “politicamente correta” que tem inundado e sufocado nossas vidas e nossa cultura.

No caso da literatura, o “politicamente correto” representa, na minha visão, o medo de trazer ao leitor questões da vida concreta. Medo de palavras usadas no dia a dia. Medo de sentimentos humanos. Medo de ideias que contradigam a cultura oficial. Medo da liberdade de sentir, pensar e criar.

Levar o “politicamente correto” a sério representaria a morte da literatura pois ela é uma forma de experimentar a verdade humana por meio da ficção e da poesia.

Graças à literatura, sentados numa poltrona e sem sair de casa, podemos entrar em contato com paixões e contradições; com as buscas do autoconhecimento e da identidade; com as ambiguidades e paradoxos da vida concreta; com sentimentos como amor, ódio, orgulho, inveja, solidariedade e humilhação; com alguém que anda construindo a própria voz; com a criação de utopias pessoais etc. isso sem falar entrar em contato com o humor e a alegria e com a reinvenção da linguagem.

Numa outra parte do “Disparate” falo em diabos e bruxas, o que também foi criticado. Eis o trecho:

 

Morando pelas estradas
perambulava um mendigo
que passava o tempo inteiro
examinando o umbigo.

Seu amigo era um cachorro
que mordia tudo à toa
não sabendo a diferença
de bandido e gente boa.

Ninguém da cidade ia
numa casa abandonada
escondida na floresta
perto de uma encruzilhada.

Diziam que ela era cheia
de vampiro excomungado
de demônio, de diabo
de feitiço e mau-olhado.

 

Caramba! Diabos e bruxas são metáforas! Metáforas são formas de dizer uma coisa para, na verdade, dizer outra coisa. Trata-se talvez do mais relevante recurso da literatura e da poesia!

No caso, bruxas e diabos nada mais são do que metáfora ou representações do Mal. O que é o Mal?

Ele pode ser a exploração do homem pelo homem. Ou a violência contra mulheres e crianças, a escravidão, o preconceito, a mentira, o egoísmo, a corrupção, a injustiça, a crueldade, o abuso, a guerra, a tortura, o roubo do direito e da liberdade do outro, a humilhação de alguém etc. Poderia dar outros exemplos. O Mal infelizmente está em toda parte!

Imagine formar crianças e jovens escondendo e evitando assuntos como esses!

A literatura é uma forma de, por meio da ficção e da poesia, trazer à baila de forma emocionante e criativa, questões humanas complexas de tal maneira que o leitor possa compreendê-las, com elas se identificar e diante delas se posicionar.

Concluo com um texto que escrevi faz tempo:

“O livro é um lugar de papel e dentro dele existe sempre uma paisagem. O leitor abre o livro, vai lendo, lendo e, quando vê, já está mergulhado na paisagem. Pensando bem, ler é como viajar para outro universo sem sair de casa. Caminhando dentro do livro, o leitor vai conhecer personagens e lugares, participar de aventuras, desvendar segredos, ficar encantado, entrar em contato com opiniões diferentes das suas, sentir medo, acreditar em sonhos, chorar, dar gargalhadas, querer fugir e, às vezes, até sentir vontade de dar um beijinho na princesa. Tudo é mentira. Ao mesmo tempo, tudo é verdade, tanto que após a viagem, que alguns chamam leitura, o leitor, se tiver sorte, pode ficar compreendendo um pouco melhor sua própria vida, as outras pessoas e as coisas do mundo.”

Imagine educar e formar pessoas com medo das questões da vida concreta. Com medo de palavras usadas no dia a dia. Medo de sentimentos. Medo de ideias que contradigam a cultura oficial. Medo da liberdade de sentir, pensar e criar!

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Ricardo Azevedo

Autor de vários livros para crianças e jovens, como A casa do meu avô, Aula de Carnaval e outros poemas, Contos de enganar a morte, Dezenove poemas desengoçados, entre outros, o paulista Ricardo Azevedo é também ilustrador, compositor e pesquisador. Dedica-se ainda a palestras e artigos sobre temas como discurso popular, literatura e poesia, problemas do uso da literatura na escola, cultura popular e MPB.

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