Sobre insurgências e deslocamentos

Por Josias Marinho Casadecaba - 20 nov 2020 - 6 min

Os registros históricos apontam meados do século XVI como período inicial das primeiras organizações em mocambos no território que hoje reconhecemos como Brasil. Uma resposta coletiva, uma insurgência de nossos antepassados como enfrentamento ao sistema escravocrata. Essa ação causou um deslocamento principalmente na organização administrativa portuguesa, que precisou reconhecê-la como sinônimo de força, transformação e libertação. O olhar hegemônico foi redirecionado, resultando em registros, resistência, cartas, livros e, hoje, em Consciência.

O que estou apresentando como insurgência e deslocamento é resultado de um movimento de pessoas negras. Grupos, coletivos e organizações que, ao longo dos anos, responderam ao pensamento e às ações racistas com estratégias organizadas de resistência, construção e reconstrução dos saberes sócio-político-culturais.

Zumbi foi uma das principais lideranças em Angola Janga (Palmares). O Quilombo, como chamamos hoje, era formado por vários mocambos com suas especificidades e lideranças. Macaco, Subupira, Acotirene, Amaro, Tabocas, Dambraganga, Curiva, Andalaquituche, Osenga e Zumbi são os mocambos mais conhecidos. A capital de Palmares, Cerca Real do Macaco, chegou a reunir 6 mil habitantes, enquanto o Recife (em 1654) tinha cerca de 8 mil moradores (D’SALETE, 2017).

Hoje, o dia 20 de novembro, resultante das conquistas dos movimentos negros, muitas vezes é celebrado em nossas escolas e em outros locais de sociabilidade como única data ou período para refletir sobre a história e a cultura dos negros brasileiros. Simultaneamente, crianças, jovens, homens e mulheres continuam sendo vítimas da violência racista nos estudos, nos trabalhos, nos comércios e no judiciário. Contudo, o ano de 2020 foi marcado por um deslocamento no “calendário” antirracista.

As insurgências em resposta ao assassinato do norte-americano George Floyd deslocaram, por exemplo, as agendas de grandes jornais e redes de televisão, dando visibilidade mundial aos alevantados. Inclusive, é valido destacar a incoerência de alguns programas jornalísticos brasileiros ao tratar deste fato, visto que ignoraram os pesquisadores e ativistas negros brasileiros e, consequentemente, os casos de racismo cotidiano em nosso país. Cabe, ainda, refletirmos sobre o “aproveitamento” paralelo a esse deslocamento. Empresas, digital influencers e outras entidades virtuais se “posicionaram” a favor do movimento para se manterem visíveis.

Nesse cenário, é importante destacarmos a busca e a conquista da educação escolarizada pelos nossos antepassados, como direito e instrumento de poder, ante o desmantelamento da teoria racista, responsável por limitar o acesso do corpo negro ao conhecimento, temendo que, com ele, os negros alcançassem outros locais além dos impostos. Aqui estamos nós! Herdeiros dos alevantados, dos sobreviventes, dos que morreram. Assim, entre tantos deslocamentos, destaco a leitura e a escrita como instrumentos basilares para discutirmos o acesso, a produção e a manutenção da literatura, principalmente a brasileira.

Desta maneira, a leitura e a escrita se tornam mais um instrumento para questionar a subalternidade oferecida pela sociedade racista. Além disso, a produção editorial se torna, também, uma ferramenta para a reconstrução simbólica sobre o negro ao representá-lo nas letras e nas imagens e, mais importante ainda, ao criar e grafar com a tinta sobre o papel, expressando-se sobre seu próprio ser. Nesses encontros vemos a construção epistemológica para designar a arte e a literatura afro-brasileira, onde o sujeito é responsável por amalgamar o objeto, como diz Raul Lody (2005).

Arte e literatura são movimentos importantes através dos quais podemos acompanhar as insurgências que questionam, principalmente, a representação e o papel do negro, as imagens e a autoria. E o livro é um dos pontos de encontro das artes visuais e das letras.

Somente a partir das décadas de 1930 e 1940 a arte afro-brasileira começa a deixar a clausura e a ganhar espaço na produção da época. Contudo, seu percurso foi marcado pelo paralelismo com a arte popular, esta também esvaziada em sua expressividade e significação. Nesse contexto, os artistas afro-brasileiros “abandonam o anonimato e alguns deles começam a trabalhar dentro do conceito das chamadas artes ‘popular’ e ‘primitiva’, encorajados pelo movimento modernista e pela busca do nacionalismo” (MUNANGA, 2000, p.105).

Por último, mas não menos importante, gostaria de destacar a importância das editoras que têm como fundação e discurso político a produção intelectual negra. São os Quilombos Editoriais (RODRIGUES; OLIVEIRA, 2017) que tomam como metáfora o nome dado ao conjunto de mocambos para inserir e manter na produção gráfica brasileira temas referentes ao universo afrodescendente, alterando as configurações do imaginário social hegemônico, construindo referências para a leitura e visualidades acerca do negro. São ilustradores, escritores e editores negros contribuindo principalmente no campo editorial e cultural brasileiro. Uma insurgência nas letras e nas imagens impressas que resulta em deslocamentos sócio-político-culturais de maneira geral.

Fortalecer os laços entre o público negro e os escritores, além de se aproveitar, com cautela, dos espaços eventuais oferecidos aos autores negros é um importante passo para garantir a manutenção da autonomia conquistada a duras penas pelo autor afro-brasileiro. Contudo, a criação de uma editora, ou algumas pequenas editoras trabalhando conjuntamente no sentido de garantir esta autonomia autoral do produtor literário afro-brasileiro seria uma forma eficaz para consolidar e dar visibilidade às produções literárias afro-brasileiras. (RODRIGUES; OLIVEIRA, 2017, p. 5001)

Temos, então, a consolidação desses laços entre as editoras, que têm a negritude como discurso político e de fundação, e os escritores e ilustradores negros, em sua maioria. Vínculos que foram responsáveis pela manutenção dessa produção, preenchendo a lacuna na literatura brasileira e questionando, inclusive, os cânones que, ainda hoje celebrados, veem o negro como figura subalterna e desumanizada, sem nome, sobrenome, sem história, sem afeto, sem protagonismo.

Finalmente, hoje podemos ver o interesse de editoras em publicar autores negros fora dessa identidade de Quilombo Editorial, principalmente os já consolidados pelas redes de reconhecimento e premiações literárias. É um ganho! Contudo, a insurgência ainda nasce nas editoras que dão a primeira oportunidade para as palavras daquela escritora, daquele escritor, daquela ilustradora e daquele ilustrador ainda em início de carreira. Esse movimento me trouxe até aqui. E esse movimento (Oxalá, se torne cada vez mais forte) é o que impulsiona os deslocamentos.

Salve, Zumbi!

D’SALETE, Marcelo. Angola Janga: uma história de Palmares. São Paulo: Veneta, 2017.

LODY, Raul. Por uma história da arte afro-descendente. In: FALCAO, Andréa (Org.). Seminário Arte e Etnia Afro-Brasileira (2004, Rio de Janeiro). Rio de Janeiro: IPHAN, CNFCP, 2005.

MUNANGA, Kabenguele. Arte Afro-Brasileira: O que é afinal? In: AGUILAR, Nelson (Org.). Mostra do redescobrimento: arte afro-brasileira. Fundação Bienal de São Paulo. São Paulo: Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais, 2000.

REIS, Andressa Merces Barbosa dos. Zumbi: historiografia e imagens. Franca: UNESP, Faculdade de História, Direito e Serviço Social, 2004.

RODRIGUES, Fabiane Cristine; OLIVEIRA, Luiz Henrique Silva de. Quilombos Editoriais. Disponível em: < https://abralic.org.br/anais/arquivos/2017_1522244789.pdf> Acesso em: jul. 2020.


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Josias Marinho Casadecaba

Josias Marinho Casadecaba (@josiasmarinhocportfolio) é professor de Artes Visuais no CAp/UFRR e autor de Benedito (Caramelo, 2014). Três de suas publicações foram contempladas com a Selection of Brazilian writers, illustrators and publishers da Bologna Children’s Book Fair em 2014, 2012 e 2010: Zumbi dos Palmares em cordel (Madu Costa. Mazza Edições, 2013), O príncipe da beira (Mazza Edições, 2011) e Omo-oba: histórias de princesas (Kiusam de Oliveira. Mazza Edições, 2009), respectivamente.

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