O professor e as rosas

Por Alexandre Azevedo - 14 out 2020 - 5 min

O nosso professor, uma figura. Ensinava-nos literatura. Gostava da brasileira, assumidamente. Achava-a a mais rica e a mais bela de todas. Falava-nos de Machado de Assis como se fosse um velho amigo seu. Explicava-nos as Memórias póstumas como se as tivesse escrito. Parecia também ter escrito A Moreninha do Macedo – Macedinho, era assim que o tratava –, Senhora do Zé – José de Alencar, diga-se de passagem –, O cortiço do Aluísio, esse, amigo de infância.

A verdade é que nunca havia escrito nada, nem um poeminha sequer, mas recitava-nos O navio negreiro como se fosse o próprio Castro Alves em praça pública, lutando pela liberdade do homem. Certa vez, trouxe uma caveira só para recitar versos de Álvares de Azevedo. Tinha uma queda pelo refinamento parnasiano, pela trindade, uma joia!, exclamava o nosso professor com o dedo em riste, uma figura.

Era íntimo das mulheres, como um amante. Tratava Cecília Meireles como Ceci; Cora Coralina era apenas Cora. Clarice, Rachel e Lygia. Deixava escapar algumas lágrimas, quando nos contava histórias trágicas sobre Cruz e Sousa, sobre Augusto dos Anjos, sobre Lima Barreto, sobre Raul Pompeia… Sentia pena, um dó profundo deles, como se fossem parentes, gente da sua família, mas também não seriam quem são hoje não fosse a tragicidade, explicava tentando confortar mais a si próprio do que a nós. Por isso, chamava a própria literatura de egoísta, pois dependia do sofrimento de certos autores para existir.

Também tinha o nosso professor o poder de arrancar da turma, mesmo daqueles que não eram fãs de suas aulas, gargalhadas homéricas quando recitava as poesias satíricas do Boca do Inferno – algumas de arrepiar os poucos cabelos do diretor do colégio.

Mas o que mais nos intrigava era a sua capacidade natural e espontânea de deixar de lado os truncados sermões do padre Antônio Vieira, pérolas da literatura, segundo ele, para se dedicar às rosas… Não às rosas de Ricardo Reis – a poesia portuguesa era a sua segunda paixão –, mas as rosas de seu jardim. Morava, nosso professor, em cidade pequena, próxima à que morávamos, trinta quilômetros, não mais do que isso. Sua casa, mais um sítio ou uma chácara, nunca a conhecemos de verdade, a não ser em nossa imaginação. Seu jardim devia ser o mais belo do mundo, segundo a descrição, rica em detalhes, do nosso professor. Solteiro, morava sozinho, suas rosas eram sua família, as meninas, como costumava chamá-las. Uma figura.

Ora falava da Lua nos poemas de Alphonsus de Guimaraens; ora da fase propícia para plantar suas meninas. Falava com tamanha emoção que podíamos sentir, de nossa sala de aula, o cheiro que dos seus rosais exalava. Às vezes o víamos chegar melancólico, coração apertado, riso amarelo – tudo por não aceitar a efemeridade das rosas –, sentava-se à sua mesa, indicava a página do livro didático e os exercícios que poucos de nós resolvíamos, três ou quatro, se muito; a maioria jogava conversa fora, um avião de papel passava rasante diante do nariz do velho professor que não via a hora de o sinal soar. Na hora do intervalo raramente ia para a sala dos professores, sentava-se num banco do pátio, desses de praça, tirava do bolso do surrado guarda-pó um sanduíche de queijo e mortadela, embrulhado em papel de pão, e saboreava-o, vagarosamente. Uma figura. Ninguém se atrevia a perturbá-lo nesse momento, que para ele parecia ser sagrado, mas sentíamos tristeza ao vê-lo ali, sentado, as pernas cruzadas, o papel de pão aberto e farelos sobre o colo.

Mastigava despretensiosamente o seu sanduíche, depois acendia um cigarro – nessa época ainda não era proibido – e o seu rosto parecia sumir por entre a fumaça. Tentávamos adivinhar-lhe o pensamento, talvez além das rosas de seu belo jardim. Sonhava, quem sabe, com outra vida. Não a de um professor de literatura brasileira, num colégio público de um bairro distante da cidade, para adolescentes que pouco estavam se importando se o tísico Bandeira ou o tímido Drummond diziam verdades incontestáveis em seus versos. Ou se o seco Graciliano ou o inventivo Rosa diziam essas mesmas verdades em prosa. Sonhava, talvez, o pobre professor de literatura com uma família, mulher e filhos, netos correndo pelos jardins da casa…

Certo é que não sabíamos no que pensava, talvez pensasse somente em suas rosas, mas saberíamos mais tarde, anos depois, eu e mais três ou quatro amigos, que na vida era também preciso cuidar das rosas…

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Alexandre Azevedo

Alexandre Azevedo é professor de literatura e escritor. Autor de mais de 120 obras. Já publicou, entre outros, Que azar, Godofredo! (Atual), O vendedor de queijos e outra crônicas (Atual), Três casamentos (Atual), Poeminhas fenomenais (Atual), O menino que contava estrelas (Atual), A lua e a bola (Formato) e A última flor de abril (Saraiva).

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