Por que livros são incanceláveis

Por Januaria Cristina Alves - 27 ago 2020 - 5 min

No artigo publicado na semana passada, CANCELAR OU NÃO: SERÁ ESSA A QUESTÃO?, tratei de um tema polêmico e dos mais “quentes” do momento: a tal da “cultura do cancelamento”. E, como tem acontecido toda vez que alguém toca nesse assunto…. “senta que lá vem história”! Ou seja, é absolutamente contraditório que o cancelamento suscite tanto debate! Esta é a matéria-prima do livre pensar, da expressão aberta dos indivíduos em uma sociedade: se há ideias, elas podem – e devem – ser diferentes, distintas, desiguais, incongruentes. Elas não precisam nem devem ser iguais e lineares. E é justamente por isso que volto ao assunto nesse segundo artigo.

Talvez pelo fato de o texto estar circulando no blog de uma editora, as questões de “cancelamento” de alguns autores e obras vieram à baila. Escritores podem ser cancelados? Obras literárias podem ser “esquecidas” ou ignoradas? Em nome de que ou de quem? Eis a questão.

Só para ficar em um exemplo que agitou as redes sociais, cito o cancelamento da escritora J.K. Rowling, a autora da saga de Harry Potter, um dos maiores sucessos editoriais de todos os tempos. Em resposta, ela, e mais um grupo de 150 jornalistas, intelectuais, cientistas e artistas, considerados progressistas, resolveu publicar, na Harper’s Magazine, um texto intitulado “Uma carta sobre Justiça e Debate Aberto”. Nomes do quilate do linguista Noam Chomsky, do escritor Andrew Solomon, entre outros, assinaram a carta que afirma que “a livre troca de informações e ideias, força vital de uma sociedade liberal, tem diariamente se tornado mais restrita”. Ou seja, parece que a linha fina entre a censura e a liberdade de expressão a cada dia tem se tornado mais esgarçada, fazendo com que as pessoas confundam os limites de uma e de outra.

O cancelamento de autores, a princípio, parece ter mais a ver com as ideias que eles expressam em outros suportes que não seus livros, como as redes sociais, por exemplo, que é onde as ações de cancelamento ocorreram. Porém, no fundo, escondem algo que é mais perverso: um julgamento, uma intolerância ao oposto, ao contraditório, uma tendência infantil ao ostracismo e à livre circulação de pensamentos e opiniões.

Não à toa, vários escritores foram alvos dessa ação, além dos já citados: o linguista Steve Pinker, de Harvard, autor de livros como Os anjos bons de nossa natureza, que revela sua profunda crença na melhora gradativa do ser humano, também não escapou da “supervisão” dos “canceladores” de plantão. E como ele, aqui no Brasil assistimos à antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz – cujo texto publicado na Folha de S.Paulo foi acusado de racista – ser cancelada na praça pública das redes sociais. Ela, apesar de ser declaradamente antirracista, no final resolveu pedir perdão a quem possa ter se sentido ofendido. Como afirmaram os escritores em sua carta à Associação Americana de Linguistas (LSA): “…editores são demitidos por publicar artigos controversos; jornalistas são impedidos de escrever sobre certos temas; professores são investigados por citar obras de literatura em sala de aula”. Eis o cenário.

Será que um escritor branco jamais poderá escrever sobre as agruras de um negro em uma sociedade burguesa e racista? Será que o “lugar de fala”, tão ferrenhamente defendido, tem de ditar a regra das criações literárias? E a empatia que só um texto de ficção pode provocar em um leitor, levando-o a viver outras vidas, a enfrentar diferentes angústias daquelas que lhe assaltam o ser, onde fica? Por que um escritor não pode ser outro ou outros, tantos quantos sua imaginação (e suas escolhas, sua visão de mundo) pode criar? Será que esse olhar que parte de um outro ponto e alcança uma outra perspectiva não agrega valor à causa, à ética das relações saudáveis? Será que esse “cinturão” (termo que lembra censura), esse condicionamento que não dá espaço à criatividade, à experimentação e até ao erro, não vai ser a ruína da criação artística?

Reproduzo aqui as questões que o Fabio Weintraub, gerente editorial de Literatura da Somos Educação, colocou tão bem, ao comentar o meu texto da semana passada:

“Então Guimarães Rosa, que era médico e diplomata, não deveria escrever sobre jagunços? Mário de Andrade, que era mulato e paulista, não poderia se apropriar de narrativas indígenas? Clarice Lispector, que era culta, não poderia encarnar numa Macabéa? Mas uma das maiores belezas de A hora da estrela é justamente criar um narrador esquisito, ambíguo, que não falseia a distância de classe em relação à protagonista, modulando sua linguagem e adotando recursos expressivos que explicitam essa distância”.

Enclausurar as complexas relações entre a ficção e a realidade, entre o lugar de fala e o lugar da experiência estética, em padrões que levam mais em conta uma estrutura de poder que pretende perpetuar ideias pré-existentes, preconceitos, e que anula até a possibilidade de rever posições e mudar de ideia, tão naturais no ser humano, é querer cancelar o incancelável.

Que bom que ainda há autores capazes de questionar e desconstruir padrões, que há editores que publicam clássicos que nos desacomodam e nos fazem querer entender o contexto em que foram produzidos, que há articulistas e resenhadores que colocam em xeque esse tipo de condicionamento. Que maravilha que podemos continuar afirmando que os livros são incanceláveis

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Januaria Cristina Alves

Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira. É consultora de projetos de Educação e Comunicação para empresas e instituições educacionais e realiza palestras e oficinas para educadores, crianças e jovens, sobre Educação Literária, Alfabetização Midiática e Informacional e Storytelling.

http://www.entrepalavras.com.br

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