Por que ler os clássicos? Uma reflexão feita por Alexandre Azevedo

Por que ler os clássicos?

Por Alexandre Azevedo - 06 mar 2019 - 4 min

Um dos comentários que mais se ouve quando alguém tem em mãos um clássico da literatura, por exemplo, Senhora, do romântico José de Alencar, ou Memórias póstumas de Brás Cubas, do realista Machado de Assis, é: “preciso ler com o dicionário do lado!”.

Isso não é bem assim! Mas o dicionário é uma ferramenta indispensável. Ele deve estar sempre ao alcance de suas mãos. Ninguém sabe o significado de todas as palavras (creio eu que nem mesmo quem o escreveu), e é justamente por isso que ele existe: para ser consultado.

Desvendar o sentido de uma palavra é um grande prazer (lembro-me de Drummond, Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra […]), mas isso não significa que você tem que interromper a leitura todo o momento em que se deparar com uma palavra desconhecida. É possível você conhecê-la durante o processo da leitura; isto é, no contexto da trama. Só não deixe de anotá-la ou grifá-la para depois da leitura verificar no dicionário o seu sentido ou mesmo os seus vários sentidos.

Mas por que devo ler os clássicos também?

Antes de tentar responder a essa pergunta que “não quer calar”, você sabe o que significa “clássico”? Essa é uma das palavras que apresentam vários sentidos. Vamos a eles: clássico advém do Classicismo ou Renascimento. Luís Vaz de Camões, o maior poeta da Língua Portuguesa, pertenceu ao Classicismo português. Aliás, o poeta foi um dos grandes responsáveis por “consertar” e “concertar” a nossa língua mãe. Quem nunca leu, por exemplo, o soneto de Camões que se inicia com o seguinte quarteto?:

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

Clássico pode ser também algo que não sai de moda, que jamais entra em desuso. Um corte de cabelo clássico, uma roupa clássica, etc. Portanto, com o clássico você não tem como errar.

Um clássico do futebol, por exemplo, Flamengo e Fluminense; Corinthians e Palmeiras; Atlético e Cruzeiro, são clássicos porque são times que estão no mesmo patamar de importância. Isto é,com o mesmo “poder de fogo”. Jamais um vencedor será considerado uma “zebra”.

Grande valor literário

Clássico também se tornou aquele livro que passou a ser lido e discutido em sala de aula, ou seja, em classe. Por fim, um clássico é uma obra de grande valor literário, muitas delas de séculos passados, que, por sua linguagem, acabam não agradando muito o leitor de nosso tempo, principalmente os jovens.

Mas por que, então, ler as obras antigas, de outras épocas, tidas como clássicas? Ora, porque elas retratam não só o período a que pertenceram os seus autores, mas, muitas delas, são dotadas de um valor universal. E o que vem a ser isso? Uma obra de valor universal é aquela em que o seu autor trata de assuntos que não saem de moda (lembra disso?). Isto é, são válidas para qualquer época e para qualquer pessoa. Em suma, essas obras tratam de temas inerentes (pertencentes) ao ser humano.

Voltando ao soneto de Luís Vaz de Camões, ele é universal? É claro que sim! Ninguém tratou do sentimento amoroso com tamanha propriedade do que ele. Ao ler um romance ou conto de Machado de Assis ou de Eça de Queirós, você certamente se deparará com os tais temas universais: traição, ambição, ociosidade, exploração, preconceito, vaidade e tantos outros.

Como professor para alunos do Ensino Médio, sempre faço a seguinte pergunta: “Por que estudamos Os lusíadas, de Camões, se é uma epopeia que trata da história de Portugal, desde a sua fundação mitológica até 1498, ano em que Vasco da Gama empreendeu sua viagem às Índias?”.

Quem conhece um pouco da obra camoniana sabe que o Brasil é apenas uma “terra ainda a ser descoberta” vista na famosa “Máquina do Mundo”, portanto, qual o nosso interesse? Ora, porque Camões ultrapassa o limite do nacional, invadindo o campo universal. Ambição, corrupção, vaidade, amor, etc. são tratados de maneira excepcional pelo poeta. É preciso paciência e persistência.

Ler não é uma tarefa fácil, mas não há nada mais prazeroso do que isso! Portanto, vamos aos clássicos!

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Alexandre Azevedo

Alexandre Azevedo é professor de literatura e escritor. Autor de mais de 120 obras. Já publicou, entre outros, Que azar, Godofredo! (Atual), O vendedor de queijos e outra crônicas (Atual), Três casamentos (Atual), Poeminhas fenomenais (Atual), O menino que contava estrelas (Atual), A lua e a bola (Formato) e A última flor de abril (Saraiva).

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