Pela tela ou pelo fone, nada como uma boa contação de histórias!

Por Juliana Gola - 26 maio 2021 - 6 min

Paulo Freire disse que a educação dialógica parte da compreensão que os alunos têm de suas experiências diárias. E a insistência de Freire em começar a partir da descrição sobre as experiências da vida diária baseia-se na possibilidade de se iniciar a partir do concreto, do senso comum, para chegar a uma compreensão rigorosa da realidade. E o que seria a realidade das crianças hoje? O que está no dia a dia delas que não estava trinta anos atrás? A resposta é fácil: a tecnologia. Ou afunilando ainda mais: a internet, o YouTube.

São muitas as dúvidas que vieram junto com a velocidade da presença do celular na vida das pessoas. Como receber essa quantidade de informações que chega e construir algo em cima dela? O que é a educação midiática e por que devemos nos atentar em trabalhar sobre ela? A educação midiática pode ser entendida como um conjunto de competências passíveis de serem desenvolvidas por crianças e jovens para que sejam capazes de ler informações de forma reflexiva, produzir conteúdo com responsabilidade e, por consequência, participar ativamente da sociedade.

Trazendo para o universo contemporâneo das crianças, ainda mais para a primeira infância, de que forma podemos pensar nos canais de YouTube como ferramentas e não interferências? Todos os trabalhos que se debruçaram sobre o poder da leitura na formação humana concordam em um ponto: a importância da mediação. Ou seja, para que os livros nos encontrem e nos arrebatem, é preciso um elo, um vínculo, alguém que os coloque em nosso caminho. Pode ser a mãe, o pai, os avós, os professores, os primos, os irmãos mais velhos ou as babás. Mas é fundamental que alguém seja ponte nessa formação. Hoje, canais como o da contadora de histórias Juçara Batichoti contam com o facilitador da imagem e as mil possibilidades do audiovisual para atrair mais e mais crianças para a literatura. 

Desde 2013, Juçara escolhe contos muito conhecidos, outros nem tanto, para ler e interpretar no seu canal no YouTube Varal de Histórias, usando tecidos, bonecos, colagens, apetrechos, uma cortina ao fundo, sua voz e entonação que cria personagens e vai de um a outro com uma desenvoltura impressionante. Livros inteiros são lidos à sua maneira, atraindo uma legião de espectadores. São 456 mil inscritos, neste maio de 2021, e mais de 64 milhões de visualizações. O que antes fora malvisto por pais e educadores, pode ser uma boa maneira de fisgar a atenção dos pequenos, na linguagem a que nasceram já habituados, mas com qualidade e uma curadoria preocupada com quem está do outra lado da tela. São muitas as versões dessa mesma ideia, cito algumas: “Fafá conta histórias”, “Carol Levy” e “O baú da Camilinha” numa busca rápida pelos mais assistidos. 

Com a pandemia ficou mais difícil encontrar grupos contadores de histórias em parques e praças no meio da tarde. Também não estão acontecendo as programações cotidianas nas bibliotecas públicas e centros culturais. As alternativas, que servem de apoio a pais e mães exaustos e professores também limitados pelas aulas on-line ou protocolos de segurança contra a covid-19 nas presenciais, são as plataformas digitais. Tanto como suporte, no caso dos livros digitais cada vez mais disponíveis, como quanto formato, que une literatura, música, cinema e tantas outras linguagens possíveis por essa transmissão.

“No ano passado, oferecemos um curso de formação e mediação de leitura virtual, antes da primeira edição on-line da Flipinha. E em 2021, nossa proposta é mergulhar ainda mais nas ferramentas disponíveis, expandindo a ideia do livro, propondo ações educativas a partir deste conteúdo, e dando conta de linguagens diversas em mais de um formato, não só no YouTube, mas como podcast, por exemplo”, diz Luis Filipe Pôrto, coordenador do Educativo Flip, responsável pela Flipinha, FlipZona e Biblioteca Casa Azul da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Está também entre as ações deste ano do Educativo Flip relacionar a formação em mediação com os jovens da FlipZona.

“Como o foco é Educação Midiática, as propostas se misturam e há um diálogo eminente entre as linguagens. O grupo já criou publicações, fez reportagens e faz sentido fazerem o curso de formação de mediadores de leitura também”, completa Luis Filipe.

Falando em podcast, eles estão embarcando também no universo infantil. Desde junho de 2020, Aí Vai Uma História reúne clássicos da literatura contados de maneira lúdica e atrativa, com efeitos sonoros, diversas vozes para cada personagem e trilha sonora como, por exemplo:

Outro sucesso entre a garotada é a dobradinha entre Ruth Rocha e Palavra Cantada. Em “Mil pássaros: sete histórias de Ruth Rocha” estão pequenas versões dos livros da autora, narradas por ela mesma, em, no máximo, sete minutos, e músicas da dupla infantil. 

A participação de um adulto na introdução e manutenção da leitura infantil é a tecla que devemos continuar batendo. O hábito é uma construção que demanda criatividade, inovação e disponibilidade. Tanto de quem vai ler quanto de quem vai ouvir. E já que citamos Ruth Rocha, uma entrevista recente dada por ela para o UOL, ao completar 90 anos, me chamou a atenção para o quanto nos acostumamos à fantasia, à viagem que o livro nos leva. Ela conta que por conta da visão prejudicada pela idade, sua irmã virou sua grande mediadora. Ela relata que tem a vista um pouco fraca e sua irmã Rilda telefona todo dia para ler para ela. Ela lê uma hora por dia, e outro dia fez uma foto com todos os livros que leu, dava umas 4 mil páginas. Elas leram Guerra e pazOs irmãos Karamazov, o Uma terra prometida Barack Obama, entre outros.

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Juliana Gola

Juliana Gola é jornalista e trabalha com cultura, fazendo e divulgando, há 15 anos. Esteve nos principais festivais de literatura pelo Brasil como assessora de imprensa e na gestão de comunicação de editoras. Desde 2013 passou a olhar com mais interesse para as publicações infantis, assim como tudo relacionado à educação, ao se tornar mãe. Tem hoje duas filhas, Valentina (7) e Isadora (4), suas fontes de energia e curiosidade sem fim.

Crédito da foto: Monica Schalka

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