Paulo Leminski aos 75, um artista cada vez mais jovem

Paulo Leminski aos 75, um artista cada vez mais jovem

Por Coletivo Leitor - 21 ago 2019 - 8 min

“Quando eu tiver setenta anos / vai acabar esta adolescência”, ironizou em um verso dos anos 1980 o poeta curitibano Paulo Leminski, que no próximo dia 24 de agosto completaria 75 anos se não tivesse morrido há três décadas. Ao adiar até a velhice a saída da adolescência, o poeta, que não chegou aos 50, parece afirmar não apenas seu compromisso com certo espírito ou ethos juvenil, marcando também sua desconfiança em face de alguns “valores” associados à dita maturidade, como a conformidade às regras do “sistema” e aos imperativos do trabalho e da competição, às seduções da glória e do sucesso. Claro que tal desconfiança é também alimentada, é claro, pelo clima de época (contracultura, revoltas estudantis, maio de 1968, movimento hippie, etc.) sob o qual sua obra surgiu, mas que ele traduz de modo singularíssimo.

Em relação às responsabilidades do mundo adulto, Leminski sempre defendeu a liberdade de um olhar disponível para a sideração, aberto tanto para o próximo e evidente (“Eu, hoje, acordei mais cedo / e, azul, tive uma ideia clara. / Só existe um segredo. / Tudo está na cara.”) quanto para o mais longínquo e luminoso (“a noite / me pinga uma estrela nos olhos / e passa”). 

Liberdade que se manifesta igualmente em relação ao desejo de se inscrever na tradição, à maneira dos clássicos que ele tanto amava a ponto de traduzi-los (“um dia / a gente ia ser homero / a obra nada menos que uma ilíada // […] por fim / acabamos o pequeno poeta de província / que sempre fomos”), e que o conduz a uma espécie de relaxamento em face da impermanência (“apagar-me / diluir-me / desmanchar-me / até que depois / de mim / de nós / de tudo / não reste mais / que o charme”).

Desobediência e pacifismo

Mas uma das facetas mais interessantes do ethos juvenil em Leminski liga-se ao casamento entre desobediência e pacifismo, à renúncia ao dever de conquista, ou, para usar um título do próprio autor (Distraídos venceremos), à vitória involuntária pelos poderes da distração.

No plano da metalinguagem, o poeta buscou então uma linguagem desobediente, cujos exércitos não fizeram conquistar senão impérios desaparecidos (“Mandei a palavra rimar, / ela não me obedeceu. // […] Mandei a frase sonhar, / e ela se foi num labirinto. / Fazer poesia, eu sinto, apenas isso / Dar ordens a um exército, / Para conquistar um império extinto”).

Jogo e direito ao erro

Outras vezes, na poesia de Leminski, as imagens de guerra cedem lugar às de jogo, repondo novamente o ideal de empate como uma vitória mais alta, em que o prêmio subordina o desejo individual a um propósito de comunhão: “Poema que é bom / acaba zero a zero. Acaba com / Não como eu quero.”. 

Nesse zero a zero em que o ego se esvazia de seus desejos é que pode prosperar a experimentação como direito de errar (“nunca cometo o mesmo erro / duas vezes / já cometo duas três / quatro cinco seis / até esse erro aprender / que só o erro tem vez”), o que mais uma vez nos traz de volta à adolescência prorrogada como moratória para a obrigação de acertar e permanecer, de vencer e dominar.

Guerra dentro da gente

Embora todos esses aspectos já tenham sido objeto de discussão na obra adulta de Leminski, eles também podem ser encontrados, ainda com mais propriedade, em uma de suas raras incursões pela literatura infantojuvenil, o romance Guerra dentro da gente, publicado originalmente pela Editora Scipione em 1988. Na semana de aniversário do autor, o Coletivo Leitor convidou os poetas Fabiano Calixto, Manoel Ricardo de Lima e Tarso de Melo a compartilharem suas impressões sobre esse livro estupendo. Confira a seguir:

Guerra dentro da gente é uma aventura muito tocante escrita por Paulo Leminski. A história de Baita, o menino pobre que encontra Kutala, velho mestre que o inicia nas coisas da vida – por meio de lições muitas vezes duras, como quando o velho o vende como escravo. A vida na sua dureza explícita. Ao longo das peripécias, vamos acompanhando o crescimento físico e intelectual do protagonista, que passa por circo, navio pirata, reino distante, indo de escravo a destemido guerreiro da guarda. O primeiro amor, a primeira dor de amor. No fim de tantas batalhas, Baita descobre que a melhor mediação para a vida é o amor, e não a guerra. Uma história encantadora, abrilhantada pela beleza e maleabilidade brincante da escrita leminskiana.

Fabiano Calixto

Fabiano Calixto (Garanhuns/PE, 1973). É poeta, editor e professor. Vive na cidade de São Paulo com Natália Agra. Doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo. Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998), Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000), Música possível (CosacNaify/ 7Letras, 2006), Sanguínea (Editora 34, 2007), A canção do vendedor de pipocas (7Letras, 2013), Equatorial (Tinta-da-China, 2014) e Nominata morfina (Córrego/Corsário-Satã/Pitomba, 2014). Fliperama, seu próximo livro, será publicado pela editora Corsário-Satã no segundo semestre deste ano.

Na folha de rosto do exemplar desse pequeno livro de Leminski que mora em casa está anotado, a lápis, um preço impossível: R$ 1,50. Dessa anotação pode-se entender que toda guerra tem a ver com os avanços civilizatórios do dinheiro. E esse livrinho é isso: uma força do pensamento, da palavra como um gesto de amor, contra uma ideia de “guerra total”, esta que tem a ver também com os avanços de uma “confrontação nuclear”. Daí que Leminski parta da criança e suas esperanças radicais de imaginação: alegria, movimento e força a tudo o que se quer.  O livro é um encanto e vem principalmente das leituras que Leminski fez de questões movidas pela poesia Beat americana, principalmente de Gary Snyder, que propõe como política uma participação efetiva, anarcopacifista, a partir das práticas do zen budismo, quando não há lugar na vida para a apatia ou o desânimo. E isto demarca, de algum modo, um abandono da divisão da vida social e econômica modernas em classes; ou seja, isto levaria a uma espécie de abandono definitivo da luta de classes. Leminski leva isso a cabo com Baita, uma criança que se torna depois um velho mestre zen (baita quer dizer também grande, imenso, intenso, forte), para expandir um jogo: o de que toda a vida pode ser uma aprendizagem para a paz. 

 

Manoel Ricardo de Lima

Manoel Ricardo de Lima (Parnaíba/PI, 1970). É professor de Literatura Brasileira na Unirio. Entre outros títulos, publicou Falas inacabadas – objetos e um poema, com a artista visual Elida Tessler (Tomo Editorial, 2000), Embrulho (7 letras, 2000), Quando todos os acidentes acontecem (7 letras, 2009) e Entre percurso e vanguarda: alguma poesia de P. Leminski (Annablume, 2002).

A obra de Paulo Leminski é uma teia muito bem tramada. Dos famosíssimos poemas à prosa experimental do Catatau, dos livros todos que traduziu (de Petrônio a John Lennon) às biografias que escreveu (Jesus, Bashô, Cruz e Souza e Trótski), dos textos críticos e teóricos às canções de sucesso, tudo em Leminski se articula para dar mais força aos gestos todos de uma vida feita poesia. Cada um de seus trabalhos é uma porta para esse universo em que tudo é poético: há portas de todos os tipos, desde as mais fáceis de abrir às mais herméticas, mas todas dão acesso, à sua maneira, ao coração de Leminski. Guerra dentro da gente é uma das mais belas dessas portas, porque abre o universo-Leminski para o público infantojuvenil, que tem muito a aprender (e com que se divertir) com o poeta curitibano. Ao entrar nesse pequeno livro, o leitor da poesia de Leminski vai ouvir, a cada passo, múltiplos ecos de seus versos: “ali / bem ali naquela pedra / alguém sentou olhando o mar // o mar não parou / pra ser olhado // foi mar / pra tudo quanto é lado”.

Quem ainda não leu a poesia de Leminski, por sua vez, certamente sairá da história de Baita querendo mais e mais dessa poesia que parece abraçar quem dela se aproxima. É sempre assim com Leminski: uma vez que entramos na sua obra, é ele que nos invade com a força e a beleza da poesia. E não sai nunca mais.

 

Tarso de Melo

Tarso de Melo (Santo André/SP, 1976) é poeta, autor, entre outros, de Íntimo desabrigo (2017) e Rastros, antologia que lançará em breve reunindo grande parte dos poemas que publicou desde sua estreia, há vinte anos. É também advogado e professor, com doutorado em Filosofia do Direito pela USP.

Obras de Paulo Leminski no catálogo da SOMOS

Guerra dentro da gente

Após depoimentos tão entusiasmados sobre esse romance juvenil de Leminski, que tal acompanhar de perto as aventuras de Baita em seu percurso iniciático para o aprendizado da paz?

Poesia marginal

O amor, a sensualidade, a poesia, a política, o medo e a vontade de cair fora – tudo isso aparece nos poemas reunidos nesse livro. Todo o clima dos anos 1970 você vai encontrar aqui, nos versos de cinco dos mais representativos autores da poesia marginal: Ana Cristina Cesar, Cacaso, Chacal, Francisco Alvim e Paulo Leminski.

Paulo Leminski

Crédito (imagem de topo): Reprodução/Wikipedia/Wikimedia Commons

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