PATATIVA DO ASSARÉ, O CAMÕES DO SERTÃO

Por Alexandre Azevedo - 28 jul 2021 - 7 min

Antônio Gonçalves da Silva nasceu no já longínquo ano de 1909, na cidade de Assaré, interior cearense.

Adotando o pseudônimo de Patativa do Assaré, tornou-se um dos mais importantes e admirados poetas cordelistas da literatura brasileira, tendo algumas de suas poesias musicadas e interpretadas pelo rei do baião, Luís Gonzaga (1912-1990), o Gonzagão.

Lavrador humilde, de parco estudo, apenas o suficiente para aprender a ler e a escrever, soube como ninguém cantar a roça e a vida sofrida do homem do campo.

Extremamente preocupado com a região nordestina, procurou, em seus comoventes versos, abordar temas sociais e políticos, tornando-se, dessa forma, um autêntico porta-voz dos fracos e oprimidos, desfazendo-se, assim, a imagem de um jeca ingênuo que um ou outro leitor desavisado poderia supor. A preocupação foi tanta que coube a Patativa do Assaré  a primazia de explorar a questão da reforma agrária de maneira poética. 

Vale aqui ressaltarmos que os poetas populares, como Patativa do Assaré, fizeram da sua arte um meio de informação. Muitos de seus leitores e tantos outros analfabetos (mas ouvintes atentos, daí a literatura oral como nos primórdios da literatura medieval portuguesa) acabavam por se informar das notícias mais importantes, principalmente no que dizia respeito à política, por intermédio dos abecês. Portanto, importante meio de informação e conscientização sócio-política).

Poeta Passarinho, como ficou conhecido, morreu em 2002, cercado de glória, tanto que ele próprio conheceu, em sua cidade natal, o Memorial Patativa do Assaré. Em trecho do seu poema Aos poetas clássicos, da obra Cante lá que eu canto cá, Patativa declara o seu autodidatismo:

Eu nasci aqui no mato, / vivi sempre a trabaiá, / neste meu pobre recato, / eu não pude estudá. / No verdô de minha idade, / só tive a felicidade / de dá um pequeno ensaio / in dois livro do iscritô, / o famoso professo / Felisberto de Carvaio (p.17).

Aqui uma curiosidade: sobre ter ficado cego de um olho ainda na tenra infância, consequência da popular dor-d’olhos, o poeta passarinho comentou sobre a sua semelhança com o maior poeta de língua portuguesa de todos os tempos, Luís Vaz de Camões (1524?-1580), numa entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (19/07/2000), no Caderno Ilustrada: “Você sabe que ele foi meu colega de visão? Perdi meu olho direito na infância. Ele perdeu o dele na guerra de Ceuta”. Portanto, Patativa é o nosso Camões do Sertão. Para homenagear o colega caolho, Patativa escreveu o poema Luís de Camões, também da obra Cante lá que eu canto cá:

Eu sou o poeta selvagem,         (A)

Não recebi instruções,              (B)

É rude a minha linguagem       (A)

E fracas as expressões             (B)

Para render homenagem         (A)

Ao grande poeta Camões,       (B)

Que com o seu pensamento     (C)

Deu à Pátria um monumento. (C)

Daqui, da distante serra / de Camões o que direi? / Quer na paz ou quer na guerra, / que ele foi grande eu bem sei. / Exaltou a sua terra / mais do que o seu próprio rei. / Este poeta imortal / É orgulho de Portugal. / O poeta de alma fraterna, / que alcançou grande vitória, / sua musa doce e eterna / cantou a mais bela história / subiu para a Glória Eterna, / dando ao berço eterna glória / e por isso é sempre novo / no coração de seu povo. / e eu que das coisas terrestres / tenho bem poucas noções, / porque não tive dos mestres / as preciosas lições, / só tenho flores silvestres / pra coroa de Camões. / Vejo a minha pequenez, / ante o bardo português (pp.250-1).

E se Luís Vaz de Camões cantou a sua Pátria em 1.102 oitavas com versos decassílabos, cujo esquema rímico é ABABABCC (notem que Patativa usou do mesmo esquema nas oitavas acima, porém, valendo-se dos versos redondilhos que facilitam a musicalidade, própria da literatura cordelista), no conhecidíssimo Os Lusíadas, Patativa não deixou por menos, cantando a sua Assaré em 24 décimas (a décima é uma das estrofes preferidas dos cordelistas e/ou repentistas em seus desafios martelados ou em suas glosas) em versos redondilhos maiores (versos heptassílabos pertencentes à medida velha), cujo esquema de rimas é ABABCCDEED (rimas alternadas nos quatro primeiros versos, seguida por uma paralela, finalizando com uma interpolada). Desvinculando-se um pouco do já tradicional esquema rímico de uma décima “sertaneja”: ABBAACCDDC. Eis a estrofe inicial de Assaré, de sua obra Inspiração nordenista:

Assaré! Meu Assaré! / Terra do meu coração! /Sempre digo que tu é / o lugá mió do chão. / Me orgúio quando me lembro / que tu também é um membro / do valente Ceará. / P’ra mim, que te adoro tanto, / te jurgo o mió recanto / da terra de juvená (p.43).

Mas se Patativa do Assaré se deu ao luxo de comparar-se a Luís Vaz de Camões, dou-me eu (usando aqui de um pleonasmo camoniano) ao luxo de compará-lo a outro poeta português, tão importante quanto o vate do Quinhentismo: Fernando Pessoa (1888-1935). Na verdade, não é propriamente com Fernando Pessoa que o comparo, mas sim com Alberto Caeiro, um dos seus heterônimos, o mestre para os demais poetas pessoanos. Alberto Caeiro, camponês de vida simples, assim como Patativa do Assaré, contrário a qualquer tipo de filosofia, de olhar anti-metafísico, totalmente avesso aos questionamentos existenciais, amante da natureza com seu cenário colorido e vivo… e viver era o que realmente lhe bastava, como podemos notar nesses versos retirados de Poemas completos de Alberto Caeiro:

O meu olhar é nítido como um girassol. / Tenho o costume de andar pelas estradas / olhando para a direita e para a esquerda, / e de vez em quando olhando para trás… / E o que vejo a cada momento / é aquilo que nunca antes eu tinha visto, / e eu sei dar por isso muito bem… / Sei ter o pasmo essencial / que tem uma criança se, ao nascer, / reparasse que nascera deveras… / Sinto-me nascido a cada momento / para a eterna novidade do Mundo… / Creio no mundo como um malmequer, / porque o vejo. Mas não penso nele / porque pensar é não compreender… / O Mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / mas para olharmos para ele e estarmos de acordo… / Eu não tenho filosofias: tenho sentidos… / Se não falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, / mas porque a amo, e amo-a por isso, / porque quem ama nunca sabe o que ama / nem sabe por que ama, nem o que é amar… / Amar é a eterna inocência / e a única inocência não pensar… (p.35).

Patativa também amou a natureza do seu sertão. Amava-o sem porquês, apenas amava-a. Parafraseando aqui João Guimarães Rosa, para Patativa do Assaré o seu sertão era o mundo!

Bibliografia

Assaré, Patativa. Canta lá que eu canto cá, Petrópolis: Editora Vozes / Fund. Pe. Ibiapina / Inst. Cultural do Cariri, 1986.

______________. Inspiração nordestina, São Paulo: Hedra, 2003.

Pessoa, Fernando. Poemas completos de Alberto Caeiro, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980.


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Alexandre Azevedo

Alexandre Azevedo é professor de literatura e escritor. Autor de mais de 120 obras. Já publicou, entre outros, Que azar, Godofredo! (Atual), O vendedor de queijos e outra crônicas (Atual), Três casamentos (Atual), Poeminhas fenomenais (Atual), O menino que contava estrelas (Atual), A lua e a bola (Formato) e A última flor de abril (Saraiva).

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