OS 60 ANOS DE QUARTO DE DESPEJO: ENTREVISTA EXCLUSIVA – PARTE 1

Por Coletivo Leitor - 10 fev 2021 - 8 min

O livro Quarto de despejo completou seis décadas de existência em 2020. Alvo de muitas pesquisas acadêmicas, a obra tem feito parte da lista de leituras obrigatórias de importantes vestibulares de todo o Brasil.

Carolina Maria de Jesus revelou em seu diário uma história que até hoje reflete as lutas e as dificuldades dos moradores das favelas pela sobrevivência. Em comemoração aos 60 anos da do livro, a SOMOS Educação convidou Fernanda Miranda, pesquisadora de autoras negras brasileiras; Conceição Evaristo, autora e doutora em literatura comparada; e Vera Eunice, professora e filha caçula de Carolina Maria de Jesus, para discutir a obra e o legado deixado pela autora de Quarto de despejo.

Flávia dos Prazeres, apresentadora do programa “Café Filosófico”, mediou a conversa transmitida ao vivo em setembro de 2020. Confira a seguir alguns trechos extraídos desse encontro.

Flávia: Vera, é um prazer tê-la aqui. Você pode falar um pouco sobre a relação com a sua mãe?

Vera: Como tenho dito, existiram duas Carolinas – a Carolina mãe e a Carolina escritora. A Carolina mãe foi uma mulher que passou fome com os filhos, mas que fazia questão que a gente estudasse. A preocupação conosco era imensa – e eu só tenho a agradecer a essa mãe que eu tive. Quanto à escritora, desde muito menina eu já a via escrever. Nós saíamos para catar papel e, por vezes, eu a vi parar e se sentar na calçada. Ela sempre andava com um lápis e, quando vinham as ideias, ela precisava colocá-las no papel. Às vezes saía um provérbio, um poema ou uma parte de um conto que ela estava produzindo. Como eu dormi com a minha mãe a vida inteira, eu via que ela escrevia à noite. Não tinha luz onde a gente morava, então ela escrevia à luz de vela ou de lamparina. Eu me lembro que era a época da caneta tinteiro, então ela colocava a tinta na caneta e fazia aquele barulhinho no caderno. Ela nunca pode comprar cadernos, então escrevia em restos de cadernos que sobravam das nossas aulas [dos filhos]. Hoje, o meu objetivo é colocar a Carolina onde ela tem que estar. É certo que Quarto de despejo foi a obra que projetou Carolina, mas ela escrevia poemas, romances, contos, peças teatrais, letras de música. Nunca mais haverá outra Carolina Maria de Jesus. Ela falava com a gente em versos. Às vezes, ela xingava a gente em versos. Era uma pessoa muito culta, que tinha um português muito bom, clássico, não escrevendo, mas falando. Assim que eu entrei na escola, já me desenvolvi muito na língua portuguesa, e ela queria aprender os encontros vocálicos, as concordâncias nominais, verbais, ela queria escrever certinho. Ela gostava disso e eu sempre a ensinei. Hoje eu sou professora da rede estadual de São Paulo e sempre digo que a minha primeira aluna foi a Carolina Maria de Jesus.

Flávia: Como foi para você ler a obra Quarto de despejo pela primeira vez? O que você sentiu?

Vera: Eu não li o Quarto de despejo na sequência. É um livro que me faz voltar aos sofrimentos dela, à fome que ela passava, ao desespero para alimentar os filhos. Eu leio trechos e vou relembrando, porque, na verdade, eu me lembro de muitas coisas que aconteciam na favela e é muito difícil. Carolina sofreu a vida inteira. Se a gente fizer uma retrospectiva da vida dela, desde o nascimento até a morte, foram poucos os momentos felizes que a minha mãe teve. Um momento muito feliz aconteceu quando ela viu o nome dela escrito na capa do Quarto de despejo. Quando o livro foi lançado e ela viu ali o nome dela, “Carolina Maria de Jesus”, eu vi a felicidade estampada no rosto da minha mãe.

Flávia: Durante a sua trajetória como professora da rede pública de ensino, sua mãe te inspirou de alguma forma?

Vera: Minha mãe tinha paixão por professoras. Ela tinha ciência de que ela alcançou o patamar de escritora através daquela professora de um ano e meio de estudo escolar que ela teve. Antes de falecer, deixou uma carta com a vizinha, que me entregou um dia após o enterro. Nessa carta, ela fazia inúmeros pedidos. Pedia para que eu não deixasse a memória dela morrer, para que eu cuidasse do meu irmão que já estava muito doente, e pediu também que, se eu pudesse me formar, que fosse professora. Também pediu para que eu colocasse livros em cima do túmulo dela. Eu tenho procurado realizar esses sonhos. O sonho maior é colocar Carolina onde ela deve estar, ao lado de Clarice Lispector, de Jorge Amado e de todos esses autores renomados. Eu vou fazer o possível para colocá-la no lugar mais alto que eu puder, principalmente na literatura.

Assista ao encontro na íntegra

Flávia: Nossa segunda convidada é Conceição Evaristo. Conceição é poeta, contista, romancista e doutora em literatura comparada. Seu trabalho tem como base a afrobrasilidade.

Conceição: O primeiro contato que eu tive com a obra de Carolina foi nos anos 1960, nos movimentos sociais. Por que Quarto de despejo me tocou tão profundamente? Porque a gente lia Carolina naquela época, minha mãe lia Carolina, minha família. Por que a gente se identificava tanto? Porque a situação que Carolina vivia em São Paulo era uma situação muito similar à que minha família vivia em Belo Horizonte. Era como se a gente lesse a nossa vida. Nós éramos personagens, éramos a Carolina naquele momento. Foi tão marcante que nós lemos Carolina ainda nos anos 1960 e, nos finais dos anos 1970, minha mãe resolveu escrever um diário. Não bastavam as coincidências, as poesias que minha mãe fez, os provérbios, a aparência física dos cadernos, que também eram restos dos que a gente usava na escola e repassava pra minha mãe, era neles que ela escrevia.

Carolina cria escola na tradição literária brasileira. Ela cria uma tradição na medida em que outras mulheres, também oriundas de classes populares, passam a escrever sob sua influência, senão sob a influência estética, sob a de conteúdo quando narram suas pobrezas dentro da memória. Carolina cria uma tradição que é a apropriação da leitura pelas classes populares. Criar uma tradição dentro daquilo que é canônico é interessante, é fértil, mas criar uma tradição dentro do que não é canônico é inaugurar um novo lugar na literatura brasileira. Se a gente for pensar em O cortiço, por exemplo, que narra também um tipo de habitação e uma dinâmica popular de vida, tem-se um livro que o escritor fez estando do lado de fora. Carolina inaugura uma escrita a partir de dentro na literatura brasileira. Nós não podemos nos esquecer que Carolina estava escrevendo no mesmo momento em que Jorge Amado, Clarice Lispector e Nélida Piñon escreviam. Carolina surge num lugar de desvantagem, que era o lugar da mulher negra, pobre, favelada, como gostam muito de afirmar. A coragem de Carolina é exemplar […] para se apropriar da escrita que, até então, era destinada ou algo de pertença principalmente de homens brancos. Carolina busca a leitura como direito.

Flávia: Fernanda é estudiosa da escrita de Carolina. Gostaria que você falasse um pouco a respeito da sua tese acadêmica sobre Carolina Maria de Jesus.

Fernanda: Conheci Carolina ainda no Ensino Médio, em uma escola pública da periferia de São Paulo. Quando fui para a universidade de Letras, Carolina foi um universo de possibilidades do qual me aproximei para conseguir me construir enquanto pesquisadora, enquanto intelectual. Em uma universidade extremamente conservadora e canônica, que é a USP, Carolina representava um universo de possibilidades onde eu poderia buscar o pensamento crítico, uma forma de pensar a literatura brasileira e a escrita de mulheres negras. Fiz uma dissertação na qual busquei uma leitura comparada entre as obras dela. Trabalhei Quarto de despejo, Casa de alvenaria, Diário de Bitita e Pedaços da fome. Carolina é uma autora irônica, sarcástica. É uma obra com muitas entradas possíveis. Tenho a alegria de poder aprender sobre Carolina ouvindo as memórias de Vera, ouvindo Conceição e pensando a tradição literária que ela estabelece e os tantos discursos que ela instaura. Eu acredito que a gente ainda tem muito o que pensar sobre essa obra, apesar de ela já ter 60 anos.

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