O ATENEU – UM SUPER CLÁSSICO DE NOSSA LITERATURA

Por Alexandre Azevedo - 02 dez 2020 - 5 min

“‘Vais encontrar o mundo’ – disse-me meu pai à porta do Ateneu. ‘Coragem para a luta.’”

Assim dá-se início a um dos mais instigantes romances de nossa literatura, O Ateneu, do realista-naturalista Raul Pompeia (1863-1895). Com um subtítulo irônico – Crônica de saudades –o romance (de formação), publicado originalmente em forma de folhetim, no jornal carioca Gazeta de Notícias, é uma crítica ao ensino da época, tendo como ponto de referência um lugar de nome Ateneu, uma espécie de microcosmo da sociedade da época. De caráter autobiográfico, narrado pelo personagem Sérgio, talvez  o alter  ego de Pompeia, o romance nasceu da triste e malograda experiência do menino Raul nos bancos escolares do Colégio Abílio, internato criado pelo médico baiano Abílio César Borges, famoso educador que inspirou o autor  a criar o egocêntrico Aristarco Argolo Ramos, o “Caranguejola”, diretor do Ateneu.

Aristarco caiu em si. Referia-se ao busto toda a oração encomiástica de Venâncio. Nada para ele das belas apóstrofes! Teve ciúmes. O gozo da metamorfose fora uma alucinação. O aclamado, o endeusado era o busto: ele continuava a ser o pobre Aristarco, mortal, de carne e osso. O próprio Venâncio, o fiel Venâncio, abandonava-o. E por causa daquilo, daquela coisa mesquinha sobre a peanha, aquele pedaço de Aristarco, que nem ao menos era gente! (Pompeia, Raul. O Ateneu, São Paulo: Editora Scipione, 1995, p.123)

Com o intuito de revisitar o passado, Sérgio escreve as suas memórias a fim de resgatar a sua identidade, perdida em algum canto do suntuoso internato. Mas, quem foi Abílio César Borges, figura que tanto perturbou Sérgio/Raul Pompeia? Nascido em Rio de Contas, interior da Bahia, em 1824, Abílio César Borges mudou-se para Salvador, onde iniciou o curso de medicina, concluído na capital do Império. De volta a Salvador, enveredou-se pelas trilhas pedregosas da educação, tornando-se afamado professor. Idealista que era, criou o Ginásio Bahiano, colégio por onde passaram alunos do porte de Castro Alves e Rui Barbosa. Retornando ao Rio de Janeiro, fundou o Colégio Abílio – além de uma filial na cidade mineira de Barbacena –, para implantar, ali, sua pedagogia inovadora, voltada, principalmente, para a leitura. Como Abílio havia deixado de lado os tradicionais e conservadores métodos de alfabetização (os abecedários manuscritos ou “Cartas do ABC”, produzidos pelos próprios professores, ou as cartilhas portuguesas, como a do poeta português João de Deus), trocando-os pela impressão de livros para leitura (I, II e III), nasceu, assim, o famoso “Método de Abílio”, que também abolia os castigos físicos, como a palmatória, que aterrorizavam os alunos displicentes e indisciplinados.

Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de última remessa, o Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios. (Pompeia, Raul. O Ateneu, São Paulo: Editora Scipione, 1995, p.4)

Se para o Visconde de Macaúbas, título concedido ao professor Abílio pelos bons serviços prestados à educação, o seu internato, com sua pedagogia inovadora, causou uma verdadeira revolução no ensino brasileiro da época, para Raul Pompeia, estar no Ateneu  foi a pior coisa que poderia ter acontecido em sua vida de menino rico e superprotegido pela mãe. Segundo o próprio escritor, a sua personalidade foi deturpada por culpa do colégio que frequentara:

onde meter a máquina dos ideais, naquele mundo de brutalidade que me intimidava, com os obscuros detalhes e as perspectivas informes escapando à investigação da inexperiência? Qual o meu destino, naquela sociedade que o Rebelo descrevera horrorizado, com as meias frases de mistério, suscitando temores indefinidos, recomendando energia, como se coleguismo fosse hostilidade? (Pompeia, Raul. O Ateneu, São Paulo: Editora Scipione, 1995, p.22).

De fato, para Sérgio/Pompeia, o educador Abílio/Aristarco não passava de um “pequeno-imperador” e o seu internato, o Ateneu, um “mini-império”, onde estudava o aluno Raul/Sérgio que, no futuro, tornar-se-ia um ardoroso defensor dos ideais republicanos e abolicionistas. Vale registrar que um dos pouquíssimos  amigos do escritor fora Luís Gama, satírico poeta do Romantismo, mas defensor da liberdade (o próprio Gama, filho de português e escrava, fora vendido pelo pai aos dez anos de idade para quitar uma dívida de jogo), tornando-se o maior líder negro do século XIX.

Se, por um lado, Abílio César Borges era enaltecido como um ícone da educação brasileira, por outro, era caricaturizado. Pompeia mostrou-se um excelente caricaturista, desenhando os personagens enquanto escrevia sua obra, pela pena agressiva e revoltada, vibrante e rebuscada, metafórica e magistral, dando vida a um dos maiores romances de todos os tempos: O Ateneu “Vais conhecer o mundo”…

BIBLIOGRAFIA

Pompeia, Raul. O Ateneu, São Paulo: Editora Scipione, 1995.


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Alexandre Azevedo

Alexandre Azevedo é professor de literatura e escritor. Autor de mais de 120 obras. Já publicou, entre outros, Que azar, Godofredo! (Atual), O vendedor de queijos e outra crônicas (Atual), Três casamentos (Atual), Poeminhas fenomenais (Atual), O menino que contava estrelas (Atual), A lua e a bola (Formato) e A última flor de abril (Saraiva).

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