Mário de Andrade nos palcos e nos quadrinhos - Coletivo Leitor

Mário de Andrade nos palcos e nos quadrinhos

Por Coletivo Leitor - 07 ago 2019 - 4 min

Se a prova da força de um clássico é justamente a capacidade de gerar novas leituras respondendo às indagações do presente, o romance Macunaíma, de Mário de Andrade (1893-1973), publicado originalmente em 1928, está mais vivo do que nunca.

Ele acaba de ganhar uma versão musical com o grupo Barca dos Corações Partidos, direção da carioca Bia Lessa (que já havia adaptado para a cena, com grande sucesso, o Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa) e dramaturgia da escritora gaúcha, radicada em São Paulo, Verônica Stigger. 

Adaptações desde os anos 1960  

A nova encarnação teatral do “herói sem caráter” de Mário de Andrade chama-se Macunaíma, uma rapsódia musical e foi precedida por duas outras adaptações que marcaram época: o filme de Joaquim Pedro de Andrade, de 1969, com Grande Otelo e Paulo José no papel-título, e Jardel Filho no papel do gigante Piaimã; e a versão teatral de Antunes Filho, de 1978, que participou de diversos festivais internacionais, divulgando mundo afora essa obra-prima do modernismo brasileiro.

Floresta de lixo e preguiça de tudo

A versão atual de Bia Lessa enfatiza os aspectos mais sombrios do texto, o que se evidencia desde a concepção cenográfica da mata virgem, toda feita de plástico preto, lembrando sacos de lixo. A imagem vem a calhar nesses tempos em que as nossas florestas se encontram mais do que nunca ameaçadas pelo garimpo, pelo agronegócio, pelas hidrelétricas, em que a natureza é realmente tratada como lixo, obstáculo ao progresso.

Não por acaso, a escritora Veronica Stigger, responsável pela dramaturgia desse projeto, refere-se à preguiça do herói como disposição crítica em tempos de destruição. Segundo ela, a montagem expressa um “Ai, que preguiça! de tudo. Ai, que preguiça do que está acontecendo. Ai, que preguiça do quanto somos grotescos, apesar de nossa grandeza”.

A metalinguagem nos quadrinhos

Mas também no campo dos livros o romance de Mário de Andrade vem sendo retomado por meio de adaptações, como a HQ roteirizada e ilustrada por Rodrigo Rosa, em 2017, dentro da coleção Clássicos em HQ da Editora Ática.

Rodrigo Rosa explora entre outras coisas as brincadeiras metalinguísticas cometidas por Mário de Andrade no romance, como se vê, por exemplo, no capítulo 9, “Carta pras Icamiabas”, em que o protagonista imita os antigos cronistas portugueses, usa frases inteiras de Rui Barbosa e de outras fontes livrescas, adotando um estilo pedante para pedir dinheiro às guerreiras indígenas. Buscando um equivalente imagético dessa paródia textual, Rosa cria um fundo para o texto das cartas reproduzindo elementos de algumas telas da pintora Tarsila do Amaral (1886-1973), conforme explica nas páginas finais da HQ, compartilhando os segredos da adaptação.

Já na adaptação de Amar, verbo intransitivo, roteirizado por Ivan Jaf e ilustrado por Guazelli também para a coleção Clássicos em HQ, as imagens evocam o universo do expressionismo alemão, cuja influência foi decisiva para Mário de Andrade.   

Macunaíma mais de perto

Para quem quiser conferir mais de perto as adaptações aqui mencionadas, seguem as coordenadas para a montagem teatral, em cartaz no SESC Vila Mariana, em São Paulo, até o dia 15 de agosto, e para as adaptações em HQ.

Macunaíma, com Barca dos Corações Partidos

Macunaíma 

Acompanhe a saga do anti-herói Macunaíma da mata virgem à cidade grande, entre seres míticos e máquinas, enfrentando perigos, morrendo e renascendo, sempre em busca de um amuleto perdido, a muiraquitã, presente de sua amada. 

Macunaíma em quadrinhos, de Rodrigo Rosa

 

Da imaginação de Mário de Andrade e dos pincéis de Rodrigo Rosa nasceu o protagonista desta HQ. Nesta adaptação, o tom bem-humorado e fantástico da obra original é mantido, e a narrativa fragmentada e veloz nos leva a viajar em busca de traços da nossa identidade cultural.

Amar, verbo intransitivo em quadrinhos, de Ivan Jaf e Guazzelli

Macunaíma 

Elza é contratada pelo industrial paulista Felisberto para educar os filhos segundo os costumes europeus. Com seu comportamento austero, a governanta alemã revoluciona a rotina na casa dos Sousa Costa. 

Crédito (imagem de topo): Reprodução/Wikipedia/Wikimedia Commons

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