Lutar com palavras, por Luciano Vieira Machado | Coletivo Leitor

Lutar com palavras

Por Luciano Vieira Machado - 30 out 2019 - 7 min

O que se pretende aqui é falar do desafio que enfrenta quem escreve ou traduz textos literários destinados a crianças e jovens.

É preciso modular a linguagem de modo que, sem prejuízo da expressão, ela fique ao alcance de um público tão especial.

Um dos primeiros cuidados é o da escolha do vocabulário. O escritor e, por tabela, o tradutor, têm sempre em mente a necessidade de pesar cada palavra, perguntando-se se ela está ou não ao alcance do leitor, e em especial do leitor iniciante.

É uma preocupação legítima, de que depende a comunicabilidade dos textos literários, e não apenas deles.
Entendida de modo muito estrito, porém, pode levar à produção de textos que oferecem ao leitor aquilo que ele já tem, deixando de lhe abrir novos horizontes e possibilidades.

Quem convive com crianças sabe que elas têm uma capacidade linguística muito maior do que a dos adultos. Em sua experiência diária, elas lidam o tempo todo com termos novos, o que as obriga a um constante trabalho de decodificação a partir dos contextos. E nisso elas ficam afiadíssimas.

Ouvida uma palavra uma primeira vez, a criança a decodifica a partir de sua parca experiência e passa a usá-la imediatamente no curso da mesma conversa, sem o menor receio de cometer erros. E vem daí sua surpreendente capacidade de aprender línguas novas.

E eis uma coisa bem banal: há crianças de três ou quatro anos que se comunicam muito bem em chinês, sem nunca terem estudado essa língua. Trata-se, claro, de crianças chinesas. Mas o mesmo pode acontecer a uma criança brasileira cujos pais, por algum motivo, tenham se mudado para a China. Em pouco tempo elas se comunicarão perfeitamente com os chinesinhos.

E isso tem de ser levado em conta por quem escreve, edita ou traduz textos para crianças. Não devemos subestimá-las, pois em matéria de linguagem elas são as mestras.

No caso específico da tradução, é preciso considerar também o risco da excessiva literalidade. A propósito disso, Paulo Rónai observa que quando um poeta europeu escreve “tenho dezembros na alma”, procura transmitir uma experiência que nada tem a ver com os dezembros luminosos dos trópicos. Para os europeus, dezembro é um mês sombrio, portanto nosso poeta está falando de tristeza, de angústia.

No Brasil, a preocupação excessiva com a legibilidade dos livros para crianças faz com que muitos editores empobreçam demais os textos. Alguns fazem restrições ao uso de pronomes oblíquos, o que dificulta a vida de escritores, preparadores, revisores, que têm de se virar para evitar, por exemplo, a repetição de “ele” ou “ela” ou “nós” numa mesma frase.

Para dar um exemplo concreto de simplificação injustificada, agora no nível do vocabulário. Certa vez um tradutor me confidenciou que lhe pediram para substituir, na tradução de uma enciclopedinha para crianças, a palavra locomotiva por vagão, “senão a criança não vai entender”. Não lhe parecia nem um pouco difícil entender que locomotiva é aquela maquinona que fica na parte da frente do trem e que puxa atrás de si todos os vagões. E, segundo ele, a locomotiva da enciclopédia comparecia na página numa bela foto.

Consultei por e-mail a mui conhecida editora Lenice Bueno sobre esse assunto, e ela me respondeu com uma boa notícia. Palavras dela:

“A tendência do mercado é que os livros para crianças se sofistifiquem um pouco. Essa simplificação ocorria quando o livro para crianças era visto como um substituto para a cartilha, e as palavras eram escolhidas a dedo. Mas hoje a função do livro infantil mudou, e as ilustrações passaram a ocupar um espaço muito maior no próprio livro.”

Infelizmente, segundo Lenice, os livros para jovens continuam a sofrer do mesmo mal de sempre, “principalmente as adaptações simplificadas de clássicos como Alice no País das Maravilhas, Peter Pan e, agora, Monteiro Lobato.”

Ainda sobre o vocabulário. Certa vez perguntaram a Guimarães Rosa se não temia perder leitores por usar “palavras difíceis”. Ele sorriu e perguntou ao perguntante se ele lia francês. Sim, lia. E entendia todas as palavras? Não, mas isso não o impedia de ler os contos de Maupassant, por exemplo. – Pois então…

Quando nós, adultos, lemos livros em nossa língua, também nos deparamos com muitos termos que não conhecemos, o que não nos impede de seguir em frente. Não estamos falando daquele leitor antipático (atenção, esse adjetivo expressa apenas o meu despeito) que só lê armado de um volumoso Houaiss.

Quantas vezes li as palavras “alabastro”, “casuarina”, “ravina”, fazendo apenas uma vaga ideia de que se tratava, pela ordem, talvez de um mineral, com certeza de uma árvore, de algum acidente num terreno. Acho que isso não foi assim tão ruim. Ao contrário, já adulto, fiquei encantado ao ouvir uma jovem mulher, numa praia do litoral fluminense, dizer ao companheiro: “Olha que linda casuarina!” E, de fato, é uma árvore muito bonita. E só então, tendo conhecido pessoalmente aquele belo espécime, fui ver o que o Houaiss diz da árvore. Nome científico, procedência, família, flores hermafroditas, largamente cultivada como ornamental e quebra-vento, especialmente em beira de praia. Pois não é que ele tem razão!

Palavras há que, quando não lhes conhecemos o sentido, irradiam uma inefável aura poética, e imagino que cada um de nós possa fazer sua lista pessoal. A este impudente escrevinhador, que acredita ter razão o artista que afirma ser a literatura “a maneira mais agradável de ignorar a vida”, sempre cativaram os poéticos ciprestes dos cemitérios, os buritis e veredas do grande sertão, o áporo de Drummond, as pevides da maçã de Manuel Bandeira.
Meus amigos, meus inimigos, não temais as palavras!

Cabe antes a veneração que lhes devotava um grande amigo delas, que lhes dedicou um livro intitulado Ave, palavra.

Conheça agora três traduções de Luciano Vieira Machado

Meu nome é Parvana – Outras histórias de uma garota afegã, de Deborah Ellis

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Parvana, a valente garota afegã, recomeça a vida junto com a mãe e os irmãos. Após a queda do Talibã, depois de perder o pai e de ter ido para um campo de refugiados, a família da menina decide construir uma escola feminina. Parvana continua lutando para manter a família unida, ao mesmo tempo em que busca na leitura de romances e livros de poesia um antídoto contra as adversidades.

Veja mais informações sobre a obra

Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (adaptado por James Riordan)

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O aventureiro Gulliver vai parar em Lilliput, reino onde tudo é minúsculo. Depois conhece Brobdingnag, onde tudo é gigantesco. Lançada em 1726, esta obra maravilha leitores de todas as idades.

Veja mais informações sobre a obra

A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson (adaptado por Claire Ubac)

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Uma mulher encontra na praia um exemplar do livro A ilha do tesouro e tem uma grande surpresa: os personagens saem do papel e ganham vida para contar sobre a busca de um tesouro na Inglaterra do século XVIII.

Veja mais informações sobre a obra

 

Foto de capa: Matthew Henry, Burst 

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Luciano Vieira Machado

Luciano Vieira Machado é sergipano, natural de Aracaju, onde nasceu em 1950. Licenciado em Letras pela Universidade de Brasília (UnB), trabalhou no jornal Movimento e na Editora Ática, colaborando com resenhas, artigos assinados e traduções para a revista Escrita, o jornal Folha de S.Paulo e a revista Leia. Recebeu diversos prêmios nacionais por traduções de obras do inglês, alemão, francês e espanhol.

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