Literatura e História

Por Bruna Toni - 10 mar 2021 - 11 min

Texto por Bruna Toni

O professor, com a calma e a paixão que lhe eram peculiares na fala – e que talvez seja característica de todos os grandes mestres –, citava nomes atrás de nomes e eu corria para anotá-los em meu caderno. A cada passagem de Piglia, Vargas Llosa e Borges que ele trazia, múltiplos e novos caminhos surgiam em mim, dominada pela ânsia de que, na companhia deles, todo o mundo pudesse ser compreendido.

Todos os autores citados seriam esperados em um curso de Literatura, mais especificamente literatura latino-americana. Mas o prédio, a sala, o curso e o professor faziam parte do Departamento de História da Universidade de São Paulo. Sabendo disso, o leitor poderia pensar que se tratava, então, de algo como “história da literatura latino-americana”. Engano. A disciplina era “apenas” mais uma entre as obrigatórias do curso de graduação, batizada de “América Independente”. Eu disse “apenas” não para sinalizar que é disciplina menor, ao contrário: faço para tornar claro o que me leva a escrever este artigo.

Trabalhar com um tema tão amplo quanto “América Independente” em pouco tempo – condição invariável tanto no ensino básico quanto na graduação – exige de nós, professores de História, muitas escolhas. Nas aulas dos ensinos Fundamental e/ou Médio, ficamos por vezes presos ao conteúdo factual, às exigências da BNCC, ao calendário de planejamento sempre apertado. Na educação superior, há maior liberdade de recortes temáticos – normalmente relacionados à área de pesquisa do docente -, sem a pretensão ou a pressão de se querer dar conta de todos os aspectos que marcam a história. Porém, essa liberdade não torna a tarefa mais simples, pois o recorte não pode ser desconectado do todo (ou do macro), tampouco a metodologia cumpre papel menos relevante. Sem contar o fato de que as escolhas de um professor sempre podem transformar os alunos.

Os encontros semanais com meu professor de “América Independente” ajudaram a mudar o curso da minha vida. Essencialmente porque ele, por meio da literatura, me fez reviver e ressignificar meu interesse por História – na época, eu cursava Jornalismo e Ciências Sociais. Ao falar de Jorge Luís Borges e de seus contos nas discussões sobre criollos e caudilhos, fui me dando conta do quanto são fascinantes a historiografia, a América e, claro, a ficção produzida pelo escritor argentino. 

É claro que esse despertar veio também por conta de experiências anteriores. O gosto pela leitura nunca faltou em minha casa, incentivado, sobretudo, por minha mãe – professora de História, vejam vocês. Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Mauricio de Sousa, Cecília Meireles; Odisseia, As viagens de Marco Polo, Contos de Grimm, a série de livros do Castelo Rá-Tim-Bum; edições assinadas de revistas para crianças e adolescentes; letras da MPB que eu adorava analisar quando pequena – “Aquarela”, do Toquinho, por exemplo.

O gosto por História, ao contrário do que possa parecer, veio mais tarde. Na verdade, certo seria dizer “o gosto por estudar História”, porque de história eu sempre gostei, mesmo sem ter consciência. Veio depois porque também tive professores ruins na minha trajetória, como todos nós. Isso mudou no ensino médio, e mais uma vez pela dupla infalível: boa professora e incentivo à leitura, que nos trouxe Leo Huberman e Eric Hobsbawm.

Ser uma leitora frequente quando cheguei à graduação, portanto, me fez olhar com mais atenção à aula de História que apresentava ficção. Entretanto, sempre foram duas vias simultâneas: se é importante gostar de ler para gostar das aulas que envolvem literatura, seja ela ficcional ou historiográfica/acadêmica, também é apresentando essa possibilidade em sala de aula que um leitor pode nascer ou renascer.

Foi graças aos que vieram antes, com quem tive a chance de aprender e de saber que era possível, que me tornei uma professora de História, Filosofia e Redação que não abre mão de trabalhar com literatura. Entretanto, mesmo num momento em que a interdisciplinaridade não é mais palavrinha nova no meio educacional e que a transversalidade na área das Humanas já é um debate posto, ainda vejo surpresa e certa resistência diante da adoção de livros paradidáticos em outras disciplinas que não Língua Portuguesa.

Talvez porque o trabalho com literatura seja limitado, para muitos, à ferramenta-acessório do conteúdo a ser dado ou, o que é pior, a uma obrigação imposta pelo vago senso comum de que devemos ler – cobrança essa feita também por causa dos vestibulares. Qualquer uma dessas visões simplificadoras do processo educativo a partir da literatura pode levar não só a um fracasso do trabalho docente, mas também, para o aluno, a um trauma que distancia o saber escolar da possibilidade de prazer, entre eles o da leitura.

Devemos ler, é verdade. Mas não se forma leitores da noite para o dia. É necessário um trabalho longo e em rede, envolvendo família, escola, amigos. E na parte que cabe à escola, de muito valeria romper com a lógica de que apenas o(a) professor(a) de Língua Portuguesa tem essa responsabilidade. Primeiro porque a leitura é algo que todas as disciplinas exigem e, portanto, a todas elas cabe a função de incentivar a leitura – e até mesmo os vestibulares exigem essa “competência” para além das questões de Língua Portuguesa. Segundo porque a literatura pode gerar caminhos de interesse distintos daqueles que o livro didático de Matemática, Biologia ou História oferece ou mesmo que o discurso explicativo do docente oferece.

Na verdade, um bom livro à mão é como ter um bom professor: o que aprendemos do conteúdo que ele transmite não é nosso objetivo inicial. O que buscamos enquanto alunos, antes de tudo, é aquilo que nos intriga, que nos faz admirar, aquilo de mágico que tem o professor em seu domínio da disciplina e que, claro, queremos ter também, mesmo sem saber o que é. Nesse jogo de inspiração não dito nem planejado, inconsciente, como explica bem o professor e psicanalista Leandro de Lajonquière, acabamos aprendendo o conteúdo e outras tantas coisas mais.

Em História, disciplina sobre a qual posso falar com alguma propriedade, o trabalho com obras literárias pode, facilmente, se limitar ao que disse anteriormente: servir de ferramenta-acessório para entender um conteúdo específico, um momento histórico.

Muitos professores utilizam trechos de obras de ficção como fontes historiográficas. É uma experiência sempre enriquecedora propor aos nossos estudantes que pesquisem e analisem fontes dos mais variados tipos. Antes de tudo porque, numa época de tantas informações (mentirosas), aprender a fazer isso é essencial para mantermos íntegra nossa sociedade.

Ao se deparar com uma crônica de Lima Barreto, de Machado de Assis ou de Conceição Evaristo, as possibilidades de se compreender o Brasil de ontem e de hoje são tantas que os debates tornam-se muito mais interessantes. O mesmo vale para um poema de Bertold Brecht que reflete a Primeira Guerra Mundial; para um romance de Chimamanda Adichie que também discute racismo e feminismos; outro de Leonardo Padura em que o cenário de uma paixão é a Guerra Civil Espanhola.

É verdade que, nesse processo, surge uma outra questão: como conciliar a tarefa da disciplina, que é a busca incessante e interminável pela verdade enquanto ciência, com a ficção literária? A resposta não me parece ser simples e tampouco pode ser dada longe da prática em sala de aula de cada docente. Mas alguns pressupostos são capazes de nos guiar nessa aparente encruzilhada.

O primeiro tem a ver com o fato de que a História não é um mar de verdades imutáveis. Esse, aliás, é o primeiro capítulo de todo material didático dos anos iniciais – 6º ano do Fundamental II e 1º ano Ensino Médio. Nosso papel, enquanto historiadores, é tentar reconstruir fatos passados a partir das fontes que encontramos, comparamos e expomos. Porém, há um bom tempo não temos qualquer ilusão de que seremos capazes de reconstituir a história humana tal qual ela foi, porque aquilo que dela ficou para nós – ou seja, as fontes – já é, inevitavelmente, representação parcial da época em que foi produzido. Isso significa que mesmo o mais inquestionável dos documentos não vai, nunca, nos contar toda a verdade, mas apenas e só talvez parte dela.

É justamente por isso que, mesmo estando rodeado por muitas fontes, o que é essencial, o resultado do trabalho historiográfico refletirá aquilo que o profissional encontrou a partir da visão de outros e que ele foi construindo ao longo de seu trabalho com base em seus interesses e valores. Chegamos, assim, a representações da realidade passada, a interpretações sobre fatos que podem ser múltiplas tanto quanto sejam seus pesquisadores.

Além disso, é imprescindível saber diferenciar as fontes históricas com as quais trabalhamos e compreender que elas possuem lógicas e dinâmicas próprias que não necessariamente devem alimentar a ânsia pela verdade histórica. Literatura é arte, não é ciência. Sendo assim, ela está acima da verdade. Justamente porque a ela foi conferido o poder de ceder ao leitor a chance de ele construir, legitimamente e a partir de sua experiência única no mundo, quantos significados ele quiser para o que encontrou escrito.

Por outro lado, ao trazer um tema da realidade para a narrativa, o autor da ficção deixa aberta a porta que nos leva à reflexão para além do enredo e dos personagens criados por ele. E é aqui que arte e ciência podem se encontrar. Da Bíblia a Meninos sem pátria, obra de Luiz Puntel que conta a história de um jornalista que é obrigado a fugir do Brasil perseguido pela ditadura militar, muito mais do que termos a certeza de que o que está escrito ocorreu ipsis litteris, nos deparamos com questões históricas e visões de mundo que muito podem nos dizer sobre o passado e sobre as pessoas que nele viveram – a primeira a partir de seus supostos autores, a segunda a partir do narrador e de seus personagens e, numa outra análise mais ampla, de seu autor.

Sou incapaz de enumerar nesse espaço a quantidade de caminhos de criatividade e autoria que podem ser trilhados a partir do momento em que o professor de História e seus alunos adotam a literatura como parte do aprendizado cotidiano. Ainda mais se o docente conseguir quebrar a lógica de usá-la apenas como ferramenta-acessório para que se aprenda algo da disciplina isoladamente. Ela, a literatura, pode nos oferecer muito mais do que isso. Falo de interdisciplinaridade e transversalidade, mas principalmente de algo anterior e primordial: a chance de cada um de nossos alunos construir algo novo no mundo, se vendo não só naquilo que foi, mas em tudo que poderia ter sido. Aquelas aulas de “América Independente” me deram essa chance. Foi inclusive quando o professor Júlio Pimente, responsável por tudo isso, citou Piglia: “Nunca me preocupou que a literatura nos afastasse da experiência. Porque, para mim, as coisas acontecem ao revés: a literatura constrói a experiência”*.

*PIGLIA, Ricardo. Os anos felizes. Tradução de Júlio Pimentel Pinto em História de um Distanciamento: a memória de Piglia nos diários de Renzi.

Bruna Toni é uma contadora de histórias que também ama ouvi-las e/ou lê-las. Pode ser na sala de aula, no teatro, numa roda de samba, nas esquinas do mundo ou com um bom livro debaixo do braço. Paulistana, 32 anos, cria da Zona Norte. Torcedora do Tricolor Paulista que gosta de gastar energia física nadando e dançando. Desde sempre confiando na transformação do mundo e naqueles que lutam por isso. Professora da educação básica, historiadora e jornalista. Tem tentado unir facetas daquilo que ama: comunicar e educar para ontem, pelo hoje e por amanhã.

Crédito da foto: arquivo pessoal 


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Bruna Toni

Bruna Toni é uma contadora de histórias que também ama ouvi-las e/ou lê-las. Pode ser na sala de aula, no teatro, numa roda de samba, nas esquinas do mundo ou com um bom livro debaixo do braço. Paulistana, 32 anos, cria da Zona Norte. Torcedora do Tricolor Paulista que gosta de gastar energia física nadando e dançando. Desde sempre confiando na transformação do mundo e naqueles que lutam por isso. Professora da educação básica, historiadora e jornalista. Tem tentado unir facetas daquilo que ama: comunicar e educar para ontem, pelo hoje e por amanhã.

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