Leitura e escrita: Relato de experiência didática no Colégio Integrado

Leitura e escrita: Relato de experiência didática no Colégio Integrado

Por Rafael Bonifácio - 03 abr 2019 - 6 min

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

Carlos Drummond de Andrade

 

A leitura e a escrita são instrumentos valiosos para a apropriação de conhecimentos sobre o mundo exterior. Elas ampliam e aprimoram o vocabulário e contribuem para o desenvolvimento de um pensamento crítico e reflexivo. Isso porque possibilitam o contato com diferentes ideias e experiências. Dessa forma, é responsabilidade da escola desenvolver o gosto e o prazer pela leitura e pela escrita, fazendo com que os estudantes sejam capazes de compreender diferentes gêneros textuais que circulam na sociedade, contribuindo, assim, com a formação, a inclusão e a interação de leitores e escritores competentes e autônomos.

Práticas cotidianas

É possível observarmos em práticas cotidianas a dificuldade enfrentada pelos professores na manutenção de um processo de leitura e escrita eficiente. Infelizmente, é a leitura de decodificação, em detrimento da percepção das relações entre o texto e o contexto, que tem predominado entre a maioria dos estudantes.

Isso pode ser facilmente notado quando os alunos não conseguem alcançar o significado de simples comandos de atividades habituais em sala de aula. Essa situação acaba refletindo também nas produções de suas respostas às questões sintático-semânticas, já que o ato de escrever está sendo reduzido apenas às atividades de cópia, inclusive nos trabalhos de pesquisa. Isso tem gerado uma verificação de um nível de aprendizagem insatisfatório.

Essa é uma realidade que deve ser combatida urgentemente em favor de uma educação de qualidade que leve, realmente, o educando a construir conhecimentos críticos sobre a realidade apresentada, e não só a absorver informações dadas como verdades absolutas e não passíveis de contestação.

Em outro nível, a leitura não deve estar condicionada à ideia de que seu estímulo está aliado somente à escola. É necessário que o estudante compreenda a leitura como atividade social ligada ao exercício da vida em seu contexto. Nesse sentido, desde 2017, o Colégio Integrado desenvolve, com os alunos do Ensino Fundamental, o Projeto de Leitura e Escrita para ampliar o desenvolvimento do aluno na leitura e na escrita de textos literários e não literários.

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Dinâmica de aulas

As aulas são realizadas em formato de Oficina Colaborativa. Ou seja, todos os envolvidos criam, juntos, o currículo anual com as obras e os gêneros que serão estudados.

De início, o projeto contou com a participação da professora Helissa Soares (doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás e, na época, professora de Análise Literária) e do professor Rafael Souza Bonifácio (mestre em Letras e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, atual professor de Produção Textual da instituição).

Hoje, o projeto segue coordenado, somente, pelo professor Rafael Bonifácio que luta para que o processo de leitura e escrita se materialize da melhor forma possível na educação: pela vertente do estudante protagonista. Ao longo desses anos, o projeto colheu muitos frutos porque desmitifica a sombra que paira sobre o ato de escrever. Demonstrando, assim, que a escrita é um processo interacional e dinâmico.

Já no campo da leitura, destacam-se algumas ações desenvolvidas: execução de  leituras silenciosas e vocalizadas de poemas, bem como a declamação e a dramatização de poemas e de textos de outros gêneros literários curtos, como o conto e a crônica, a fim de levar o aluno à familiarização externalizada com o texto literário. Dessa forma,   é muito gratificante perceber a evolução crítica que o texto promove nos alunos, tornando-os críticos da sociedade que os rodeia.

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Organização das atividades pedagógicas

A cada início de ano letivo é feito um convite para todos os alunos da instituição, a fim de que eles participem da Oficina de Leitura e Escrita. As aulas acontecem no contraturno, com duração de duas horas para cada turma. A turma I compreende os alunos dos sextos e sétimos anos. A turma II é composta por alunos dos oitavos e nonos anos.

Na primeira aula, os alunos escolhem o que será trabalhado no bimestre. Quais leituras serão encaminhadas e o que será apresentado para a comunidade escolar. Essa atividade se repete sempre no início de cada bimestre. Assim, dando a oportunidade para que aquele aluno que ainda não participa do projeto possa ingressar nas aulas.

Depois dos temas selecionados, o professor faz os encaminhamentos dos textos que serão lidos e discutidos, sempre com a participação de todos os alunos. A organização do encontro segue a seguinte rotina: vídeo ou leitura disparadora, socialização, aplicação e apresentação.

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O encontro

Logo no início do encontro, o professor chama a atenção de todos com um vídeo de curta duração ou um texto reflexivo, destacando a importância do tema e da produção. Em seguida, os alunos comentam o texto previamente lido, expondo suas opiniões. A partir daí, o professor coloca uma questão problematizadora sobre a obra ou o tema em estudo. Para finalizar o encontro, os alunos são convidados a realizar uma produção que pode ser escrita ou oral.

Em 2019, iniciamos o primeiro bimestre, com uma das turmas, estudando os heróis, tema elencado nos primeiros encontros. Nos encontros seguintes, conhecemos um pouco dos heróis das histórias em quadrinhos (HQs). Também construímos um comparativo entre o herói da literatura clássica e o da literatura moderna. Nos encontros finais sobre o tema, assistimos ao filme: Estrelas além do tempo (Theodore Melfi, 2h07). Como atividade, construímos um painel, ressaltando a importância histórica e heroica das protagonistas na luta por direitos civis diante de uma sociedade ainda marcada pelo preconceito étnico.

Nos próximos bimestres é certo que temas muito frutíferos surgirão das nossas discussões. Nesse sentido, a atividade de leitura e escrita é vista como um processo essencial para o desenvolvimento humano. Como diria Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”.

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Rafael Bonifácio

É professor, escritor, apaixonado por literatura e ensino de texto. Graduado em Pedagogia e em Letras com habilitações em Português e em Inglês e mestre em Letras e Crítica Literária pela PUC-GO. Também é especialista em Formação de Professores e em Psicopedagogia Institucional e Clínica.

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