JAIR VITÓRIA: UMA HOMENAGEM PÓSTUMA

Por Coletivo Leitor - 07 abr 2021 - 7 min

Crédito da foto: Larissa Vitória

Jair Vitória nasceu em uma fazenda no município do Prata, Triângulo Mineiro, em 1943. Seu pai era lavrador, amansador de animais xucros, vaqueiro e contador de causos. Foi nesse ambiente que Jair viveu até os 7 anos. Da escola da roça chegou à universidade. Para dedicar-se ao magistério e viver no mundo da literatura, formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo. Tornou-se escritor, com diversas obras publicadas

Dedicou seus últimos anos de vida a escrever livros para adolescentes e adultos, cuidar de galinhas e de árvores frutíferas e plantar milho e mandioca, até como forma de fisioterapia. Faleceu em fevereiro de 2021 e, para homenageá-lo, o Coletivo Leitor traz depoimentos de colegas, amigos e fãs desse grande e querido escritor. Conheça as obras de Jair Vitória

LBotina Velha, o escritor da classe pela primeira vez durante minha adolescência e foi meu primeiro encontro com a Literatura. Encontro esse que, por meio da história narrada, me ajudou a pensar e refletir sobre os desafios que eu enfrentava por ser um menino de periferia com poucas perspectivas de uma vida futura. Mas em contrapartida, a vontade de vencer me fez ter resiliência e, assim como o personagem Juvenal, que encontrou no seu avô o incentivo e a força para nunca desistir dos seus sonhos, eu tive a figura da minha mãe como minha maior incentivadora e apoiadora. O enredo da narrativa e a história do personagem Juvenal se aproximam da história da minha vida escolar e pessoal. Na vida escolar por ter estudado em Escola Pública e no encontro com professoras e professores que me incentivaram a continuar estudando e potencializaram a minha paixão pela escrita. E na vida pessoal, na vontade de estudar, na satisfação em ler e escrever, na certeza da mudança de vida por meio da educação e na relação amorosa com minha avó materna. Externo minha gratidão ao autor Jair Vitória por me ajudar a ter esperança no futuro e buscar meios para me manter resiliente perante a vida.

Valdir Bernardes Junior, autor da obra Batalha!

Educado na leitura dos clássicos, taludos, cheios de nove-horas e falação de descrição e trechos dissertativos, quando me deu uma vontade danada de escrever, há 40 anos e antigamente, peguei um livro para ler, meio que ‘vamos ver o que há aqui dentro’. Era um livro da série Vaga-lume, da Editora Ática. A capa já dizia a que vinha a história. A ilustração era a de um rosto de menino novo e, logo abaixo, uma porquinha preta, que acabara de parir uma penca de filhotes. Já de cara, de chofre, de pá-pum, de botar os olhos nas letras, um impacto. Ação, diálogo já de prima, fazeção de ação, o conflito! Não consegui desgarrar do papel, os olhos, em carreirinha, entrando na história, os dedos virando as páginas, ação, sofrimento, luta do menino para defender Maninha – assim se chamava a porquinha do menino novo, o Zezinho. Pensei com meus botões que o texto, escrito por Jair Vitória, era um texto gostoso de ler, a gente lutando com o Zezinho para que o pai não vendesse a sua porquinha de estimação. Pensei no Saturnino, um patinho manco que eu tinha na infância, tratando ele como lorde, que bicho de estimação a gente até pega a melhor camisa para enrolar o danadinho, que sofria manquitolantes ataques das galinhas no quintal de casa. Foi assim, desse jeito, sem tirar nem pôr, que entendi que escrever um juvenil, um livro para a garotada, tinha uma pegada nada José de Alencar de escrever. E fui matraquear teclas na velha IBM, a Isabela Bela Maravilha, minha máquina de escrever, fiel escudeira, meu saco de pancadas, como diria o Ivan Lins do teclado lá dele, instrumento de fazer músicas. Aí, para abreviar a história, encontrei pelo caminho um maluco editor, um japinha chamado Jiro Takarashi, que acreditou que eu era escritor, gostou da história que escrevi e acabei entrando para o seleto clube de autores da série Vaga-Lume. Vou falar uma coisa para vocês que pacientemente leram até aqui este textão. Tem coisa que nem o cartão Mastercard compra, ah tem! Ter lido o Zezinho, dono da Porquinha Preta, do Jair Vitória, que tô sabendo faleceu ainda agorinha, tem preço não! Lucilene, filha do Jair, quando você tinha um aninho e pouco, seu pai dedicou o livro a você. Hoje você é mulher adulta, dona do seu nariz. Saiba do respeito que milhares de leitores devotam a seu pai. Parabéns, Lucilene! Agora, enquanto você enxuga as lágrimas, deixa eu terminar de falar com seu pai, sim? Jair Vitória, só quero saber uma coisa, que dava mais um livro bão de se ler! Como foi a entrada aí no celeste Templo com a Maninha, a porquinha preta? São Pedro fez salamaleques de boas-vindas, foi? Mandou a anjaiada toda fazer corredor de palmas e palmas, foi? E a gente, aqui do terrestre Templo, também se junta com os anjos em palmas e ora, viva! Tem preço não!

Luiz Puntel, de pé, as mãos já avermelhadas de tanta palmaiada! 

A morte de Jair Vitória deixa-nos mais pobres, órfãos de sua amizade e de sua literatura. Convivi com o autor em Brasília, um gentleman, com quem tive profícua interlocução. Integrava uma geração de escritores que contribuíram para a projeção da cidade na literatura brasileira. Profundamente ligado às suas raízes mineiras, sua obra, além do apuro da linguagem, percorria temas, dilemas e questões ligadas à condição humana. A partir das tensões e experiências vivenciais tão atávicas ao individual e ao coletivo desde os primórdios dos tempos, Jair Vitória mergulhava em nossos dramas, fantasmas e obsessões. Entre o visível e o imaginário, transitando oniricamente entre a memória e a invenção, realidade e ficção fundiam-se em sua escrita híbrida, ao mesmo tempo pungente, fluida e delicada. Ao flertar com o popular e o erudito, por força de sua formação cultural e intelectual, conferia ao seu texto um diálogo intertextual com outros autores e tradições, daí resulta o caráter de universalidade de sua obra, cujas histórias recuperam uma mitologia e um imaginário cuja centralidade é o homem e suas circunstâncias.

Ronaldo Cagiano, escritor mineiro de Cataguases. Autor, dentre outros, de Dezembro indigesto (Contos – Prêmio Brasília de Literatura 2001), O sol nas feridas (Poesia – Finalista do Prêmio Portugal Telecom 2012) e Eles não moram mais aqui(Contos – Prêmio Jabuti 2016).

O outro apaixonado por Marília de Dirceu foi uma das primeiras obras que editei na Saraiva. O Jair Vitória sempre atencioso e paciente. Depois de fecharmos o livro, me pediu que atualizasse sua biografia na próxima reimpressão da obra. No e-mail, dizia que estava morando em Caldas Novas (GO), pois gostava de água quase igual pato. Achei o motivo de escolha da cidade muito divertido e publiquei tal qual ele escreveu: ‘Moro atualmente em Caldas Novas, Goiás. É que gosto de água quase igual pato’. Ele ficou tão feliz porque fiz esse gesto tão singelo, que até me enviou um livro seu de presente. E assim ficamos amigos. Anos depois, cuidando da reformulação da obra Zezinho, o dono da porquinha preta, perguntei se ele continuava em Caldas Novas, ao que ele respondeu: ‘Daqui não saio mais’. E não saiu mesmo. Acredito então que tenha cumprido sua missão feliz e espero que no Céu tenha bastante água!

Laura Vecchioli do Prado, coordenadora do editorial de literatura da SOMOS Educação.

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