Identidade, sombra, gênero

Por Fabio Weintraub - 04 dez 2019 - 5 min

O motivo da sombra que desaparece misteriosamente ou se alforria, adquire vida própria, comete crimes e chega até a atrapalhar a vida amorosa de seu dono já foi abordado de distintas maneiras, na obra escritores como Hans Christian Andersen, Adelbert von Chamisso e E. T. A. Hoffmann, para ficarmos apenas nas evocações mais conhecidas. O psicanalista austríaco Otto Rank, no célebre ensaio “O duplo”, publicado originalmente em 1914, examinou detidamente esse motivo, apresentando a sombra, o reflexo, o retrato e o sósia como figurações desses processos de cisão ou multiplicação do eu, que o romantismo soube tão bem explorar, indo do cômico ao sinistro. Rank vincula esse desdobramento egoico a certo tipo de defesa, de caráter narcisista, mobilizado contra o medo da morte.

De outra perspectiva, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica, empregou o termo “sombra” para designar justamente aspectos da personalidade que permanecem à margem da consciência, sem se integrar à identidade do sujeito, à imagem que ele faz de si e graças à qual se reconhece.

Evoco essas reflexões sobre a sombra a propósito do livro A história de Júlia e sua sombra de menino, de Christian Bruel e Anne Galand, com ilustrações de Anne Bozellec. Trata-se de uma obra publicada originalmente em 1976, na França, e que aborda de modo pioneiro transtornos identitários ligados a estereótipos de gênero.

Júlia frustra as expectativas de seus pais, que tentam enquadrá-la a todo custo no comportamento-padrão previsto para as meninas: vaidade, autocontrole e uma boa dose de submissão. No entanto, a “rebeldia” de Júlia é feita de quase nada: ela não gosta de se pentear, usa roupas rasgadas, demora a servir a mesa, deita-se na cama com patins, diz “grosserias”. Talvez para os padrões franceses de etiqueta tais hábitos não pareçam assim tão inofensivos, mesmo após maio de 1968, em plena década de 1970, com o fortalecimento do Mouvement de libération des femmes (embora a própria tematização dessas questões em uma obra infantojuvenil revele, ao contrário, a nova sensibilidade resultante do avanço do feminismo). Fato é que as atitudes da pequena Júlia provocam constantes recriminações dos pais, que não se cansam de censurá-la por ser diferente das outras crianças e por “parecer um menino”. Tal censura contamina o afeto que devotam à filha, provocando nela uma fratura narcísica, uma crise no amor-próprio.

É justamente nesse ponto que a história de Júlia entronca na tradição do duplo mencionada logo de início, pois, em função das críticas parentais, o pobre ego da menina sucumbe à cisão. Para fazer jus ao amor dos pais, fortemente atrelado às convenções de gênero, a menina precisa alienar uma parte do seu jeito de ser, parte dos seus desejos e aspirações, aprisionando-os em sua sombra. Não é mais ela quem “parece menino”, mas apenas a mancha escura que a segue incansavelmente.

O problema, porém, não desaparece, já que a sombra continua a envergonhar Júlia, que passa a fugir da luz, a querer adoecer e, por fim, a flertar com a morte, cavando um buraco na terra onde se enfia como um rato sem sombra. Vemos aqui como a alienação de aspectos importantes da personalidade precipita a protagonista em um processo de angústia e desvitalização generalizada.

Por sorte, nesse buraco de rato em que Júlia se mete há alguém como ela: um menino discriminado por chorar como as meninas. Partilhando o mesmo drama, ambos se solidarizam na luta contra rótulos redutores, reivindicando o direito de serem várias coisas ao mesmo tempo (garotos e meninas, “garomeninas”), ou seja, de serem eles mesmos, alvo de uma afeição menos dependente da obediência às expectativas sociais.

A conscientização desse “direito à diferença” acaba por curar a pequena Júlia, que, ao fim da história, readquire vitalidade e brilho, pela reincorporação de aspectos agressivos (Júlia-fúria, Júlia-fagulha) aos quais ela havia renunciado.

Claro que nesse livro o questionamento dos estereótipos de gênero não se dá nos termos atualmente empregados para tratar desse problema (diferenciação entre identidade e expressão de gênero, relativização do binarismo, da genitalidade, da heterocisnormatividade etc.). Hoje a ideia “existencialista beauvoiriana” da feminilidade (fruto não de uma origem, mas de um “tornar-se”) certamente avançou em muitas direções, alterando as práticas de socialização de crianças e jovens, bem como a sensibilidade para as complexas relações entre corpo, desejo e sociedade.

De todo modo, não é à toa que A história de Júlia tornou-se há mais de 40 anos um marco na literatura infantojuvenil sobre esse assunto por causa da maneira singela, criativa e poética com que nos apresenta o drama dessa menina que, feito outras crianças, sofre ao ser medida por uma régua arbitrária, que tolhe sua singularidade.

Cabe então festejar a volta desse livro – publicado no Brasil pela primeira vez, pela Scipione, em 2010 – ao catálogo da editora, onde certamente ele continuará dando o que pensar.

 

Conheça mais sobre a obra

A história de Júlia e sua sombra de menino

Texto: Christian Bruel e Anne Galland

Ilustrações: Anne Bozellec

De tanto os pais de Júlia repetirem que ela parecia um menino, um dia a garota notou que até sua sombra se tornara igual à de um menino. Júlia tentou se livrar dela de todas as maneiras e acabou duvidando da própria identidade.

(lançamento próximo)

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Fabio Weintraub

Fabio Weintraub é doutor em Letras pela USP, editor, poeta. Publicou, entre outros títulos, Quadro de força (2019), Falso trajeto (2016), Treme ainda (2015) e Novo endereço (2002).

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