A gentileza deixou de ser uma qualidade? - Coletivo Leitor

A gentileza deixou de ser uma qualidade?

Por Carolina Michelini - 10 jun 2020 - 5 min

Vocês repararam que, atualmente, quase todas as conversas, seja do que for, se transformaram em debate?  

Mas não um debate de ideias onde os dois (ou mais) tem coisas interessantes para falar e trocar, para entender e se entender melhor para que isso ajude no crescimento de todos.  Debates ultimamente estão mais parecidos com luta de boxe do que com troca de ideais e informações.

Tem que ter um vencedor e um perdedor.

Inclusive os termos para comemorar os “vencedores” do debate são estranhos: “jantou”, “destruiu”, “arrasou”, “silenciou”.

Será tão difícil entender que debate é uma coisa importante e vital?!

O debate estimula a inteligência, a capacidade de análise e compreensão.

Enquanto há debate, há esperança. As pessoas que se propões a debater estão se propondo, na verdade, a reler o que acreditam, a dialogar com o outro, a se expor e ouvir a exposição do outro e tentar entender e ser entendido.

Isso fica ainda mais explicito quando transferimos para o campo privadíssimo. Um casal que discute está vivo como casal. Está tentando se acertar, compreender, ser compreendido, chegar a pontos em comum, na maior afinidade possível e seguir nesse caminho.

Enquanto há debate, há vida. O silencio é a morte.

Mas será que o debate tem que ser uma luta para tentar humilhar, desvalorizar e ridicularizar o outro?

E a gentileza? Deixou de ser uma qualidade? Se transformou em fraqueza? Ser gentil é demostrar fraqueza?

Quem não grita mais alto para intimidar e diminui o outro é fraco, nunca terá razão?

E a delicadeza, a cultura, o respeito, a elegância, aonde ficam? 

Será que é tão difícil entender que a gentileza é um grande aliado para a empatia? E que a agressividade é o oxigênio que alimenta o fogo da polarização?

Quando um debate ganha contornos agressivos, a escuta se fecha e o que seria uma troca se transforma em negação, competição e luta. Tem sentido isso?

Será que a pessoa com a qual você não concorda, não tem nada de interessante para dizer? Deixa de ser outra pessoa para ser unicamente um contrário, um inimigo?

Quando foi que declinamos da gentileza? De um mínimo de elegância?

A gentileza, no ouvir e no falar, a postura gentil em todo o espectro da relação, é o grande caminho para o diálogo, para a relação e até para transcendência da relação.

O contrário coloca o outro como inimigo e do qual temos que nos defender.

Mas esta parece ser a ordem do dia e isso levanta uma outra questão séria: é da natureza humana o respeito e a empatia pelo próximo?

Ou serão conquistas da cultura humana?

De qualquer maneira parece claro que a auto elaboração, o esforço em direção ao conhecimento e compreensão do outro, do mundo e de si mesmo, são essenciais para gerar mais conhecimento, mais compreensão e mais elaboração. E se isso parece tão obvio, por que não fazemos?

Respondo esta pergunta com uma outra pergunta:

É fácil deixar de ser ignorante?

Não, claro que não.

A auto elaboração exige um esforço imenso e muita coragem. E parece que a maioria não tem muita disposição para isso.

É preciso, em primeiro lugar, assumir a própria ignorância e isso fica mais difícil à medida que ganhamos algumas garantias sociais como diplomas valiosos, reconhecimento por um bom trabalho ou alguns sucessos individuais que geram afirmação, admiração e aplausos. Porque para crescermos precisamos de uma boa dose de modéstia. E essa é uma qualidade bem difícil, embora devesse ser a ordem do dia.

Existe ainda uma grande confusão entre conhecimento e sabedoria. Fazer da certeza individual uma verdade absoluta.

Ir em direção ao conhecimento é, antes de mais nada, assumir a própria ignorância. E isso deveria ser feito por todos, uma vez que, por mais conhecimento que alguém tenha adquirido, por mais cultura que tenha, por mais que tenha lido, por grande que seja sua biblioteca, por maior que seja sua experiencia de vida, ainda assim, aquilo que ignora é e sempre será muito maior do que aquilo sabe.

O conhecimento é um lampejo de luz em meio a uma imensa escuridão!

Isso deveria ser excitante, mas, para alguns, é desanimador. Então resolvem cortar caminho, criando ídolos cheios de afirmações que pretendem compreender tudo, abarcar todo o universo em poucas palavras de ordem e que achatam a inteligência e qualquer horizonte intelectual. Essa maldita praga, os ídolos e os idólatras, que parecem ser uma necessidade humana.

É uma tristeza ver multidões arrebatadas por charlatões afirmativos enquanto os sábios cheios de perguntas e dúvidas, ficam completamente ignorados e até esquecidos.

E a gentileza? Ela seria um caminho saudável para, inclusive, absorver a experiencia do outro e crescer nessa troca até economizando sofrimento.

Mas parece que ela não está na moda. Basta analisar cenas de trânsito, dentro de ônibus e metrô, supermercado, política, redes sociais e outros.

Com certeza não é ela a celebridade desta nossa época competitiva, agressiva, cheia de falsos valores e falsos profetas.

Que pena para todos.

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Carolina Michelini

Carolina Michelini nasceu em Joinville (SC), mas hoje divide sua vida entre o Brasil e a Itália.

Formou-se em Psicologia, especializou-se em Psicopedagogia e estudou Filosofia. Além de autora premiada, Carolina é também musicista e toca violoncelo.

É autora de vários livros para crianças, como Pense bem – descobrindo a Filosofia, A carta, O violino, entre outros.

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