Eu amo ler, por Lúcia Tulchinski | Coletivo Leitor

Eu amo ler

Por Lúcia Tulchinski - 20 nov 2019 - 8 min

Ainda guardo comigo o exemplar de Contos de Perrault, com a dedicatória “Para minha querida Lúcia, seu primeiro livro de verdade. Curitiba, 1971.” Presente do meu padrasto. Um cara especial que sabia que incentivar uma criança a ler começa dentro de casa. E sempre vale a pena.

Pais, mães, tios, avós têm essa missão. Como fazer isso? Levar as crianças para as livrarias, bibliotecas, feiras de livros. Contar histórias. Compartilhar experiências e descobertas literárias. E ler sempre perto delas. Afinal, criança adora imitar adulto.

Na escola, por sua vez, todas as iniciativas de valorização da leitura são sempre bem-vindas. Com criatividade, é possível inserir a leitura de forma agradável no dia a dia dos alunos. Contação de histórias, clube de leituras, encontro com escritores, dinâmicas em grupo. Vale a pena investir numa biblioteca escolar acessível, confortável e, por que não, quase mágica? Contar com a ajuda de mediadores de leitura, por exemplo, pode ser de grande valia.

Livros por todos os lados

Ler faz parte da minha vida desde que eu me conheço por gente. Cresci rodeada por estantes de livros. Meu avô paterno, Jacob Tulchinski, um homem culto e agradável, que morava na cidade de Ponta Grossa (PR), tinha uma biblioteca com poltronas confortáveis, lotada de todos os tipos de exemplares. Alguns com lombadas douradas! Um verdadeiro tesouro para os meus olhos de criança. Além da cozinha, sempre cheirosa, e da horta com mudinhas de morango, era o melhor espaço da casa. O lugar onde todos se reuniam para ouvir histórias da fria Rússia, deixada para trás. As mais picantes eram contadas em ídiche para as crianças não entenderem. Ainda posso ouvir as gargalhadas de meu pai Ari ecoando pelo espaço.

Minha avó materna, Rosa Friedman, cuja casa em Curitiba era meu refúgio favorito, tinha uma estante mais modesta, mas nem por isso menos interessante. Sempre tinha algo digno de bisbilhotar, como os romances de Pearl S. Buck e alguns almanaques ilustrados.

Minha mãe Regina e meu padrasto Pinkus estavam sempre lendo alguma coisa. Pulavam de Harold Robbins para Agatha Christie, de Jorge Amado para José Mauro de Vasconcelos. A troca de títulos com os amigos era constante. Lia-se muito nos anos de 1970 e 1980. Livro grosso, livro fino, de autor conhecido ou desconhecido. Ninguém viajava sem levar um livro. Assim aprendi a fazer: sempre carregar um livro comigo.

Adorados clássicos

Quando criança, tive a sorte de saborear as edições de clássicos, vendidas semanalmente nas bancas de revistas. Título a título, eu e minha irmã Rosi, companheira de aventuras, tínhamos uma coleção assinada por nomes incríveis como Julio Verne, Mark Twain, Lewis Carroll, Louisa May Alcott, Jonathan Swift e muitos outros.

Inesquecível também eram as histórias da Coleção Disquinho para ouvir na vitrola, com trilha sonora caprichada assinada por Braguinha e interpretação esmerada dos personagens. Basta ouvir os primeiros acordes de A formiguinha e a neve no Youtube que volto ao passado imediatamente. Quer me ver chorar? Basta colocar a história O Gigante Egoísta. O Sapo Cururu, da cultura popular, também me emocionava. Não esqueço da figura enigmática do boticário e das músicas orquestradas.

Tudo me instigava a mergulhar no mundo encantado do “Era uma vez”. Ganhar livro de presente no aniversário era gostoso. Fuçar os livros de adultos nas estantes de casa então, nem se fala. Afinal, para mim, livros sempre foram interessantes demais para ficarem fechados.

A garota tímida com aparelho nos dentes não desconfiava de que o amor pelos livros viraria profissão. E que os clássicos lidos na infância como Viagens de Gulliver, Viagem ao centro da terra, O mágico de Oz e as maravilhosas Fábulas de Esopo e La Fontaine seriam adaptados por ela para a Coleção Reencontro Infantil, da Editora Scipione. E, muito menos ainda, que interpretaria as vozes de Dona Benta, Tia Anastácia, Dona Carochinha e Dona Aranha para o audiolivro Reinações de Narizinho, da Livro Falante. Ah, Monteiro Lobato! Como foi mágico o encontro com o criador do Reino das Águas Claras e da boneca falante Emília. Narizinho chamava-se Lúcia para o meu mais puro deleite. Esse livro, com a contracapa rasgada, também ainda tenho comigo. Pretendo ler para os meus futuros netos, caprichando na interpretação. Sinto uma pontada de pena por todos aqueles que deram para enxovalhar a obra e pessoa do escritor, por conta disso ou daquilo. Só consigo pensar: “Dá um tempo, minha gente! O cara era um gênio criativo. Quem me dera escrever como ele…”

Quem gosta de ler?

Conto tudo isso na palestra Eu amo ler, que ministro em escolas e bibliotecas desde 2015. Sei que ao compartilhar minha história de leitora e escritora posso incentivar crianças e jovens para a importância, para mim sagrada, da leitura. Sempre começo com a mesma pergunta: Quem aqui gosta de ler? A maioria das mãozinhas se levanta rapidamente para a minha alegria. Uma vez, numa biblioteca municipal, um garotinho que assistiu à palestra saiu em disparada para emprestar um livro. Que presente!

Gosto de falar especialmente sobre o prazer de ir em bibliotecas. Ao frequentá-las fiz muitas descobertas ao longo da vida. Emily Dickinson, por exemplo, com suas poesias alquímicas. “Brincamos com pedra falsa, puxando-a ao ponto de pérola. Depois soltamos a massa. E vemos quão tolos fomos. E, no entanto, as formas eram análogas, e a mão que ainda tateia aprendeu tática de gemas praticando com areia”. O encontro com os livros de Clarice Lispector, que fizeram o meu coração bater mais forte. “Então, existe alguém que escreve assim?”, pensava eu. A prosa mística do alemão Hermann Hesse, com seu inesquecível Lobo da Estepe. A delicadeza dos poemas de Cecília Meireles, que me convidavam a enxergar o mundo com mais doçura e uma pontadinha de tristeza. Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta, capaz de falar de forma fácil sobre as difíceis coisas do mundo.

Revelo também que descobri certos autores fuçando horas a fio em sebos. Nada como um livro seminovo, com alma, para enriquecer a existência. O poeta da floresta, Thiago de Mello foi um deles. A divina Adélia Prado outra. “A vida é tão bonita, basta um beijo e a delicada engrenagem movimenta-se. Uma necessidade cósmica nos protege”.  O libanês Khalil Gibran também esperava por mim numa estante. “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma…”

Ler semeou o caminho para a jornalista, escritora e pessoa que eu seria um dia, conto. Abrimos portas interiores entendendo que as identificações com autores e ideias são pistas sobre nós mesmos e sobre o mundo em que vivemos.

Em cada lugar que eu vou, saio preenchida por uma sensação boa de contribuir para tornar o mundo um lugar melhor. Não importa o endereço.  Não me importo de ir falar nos lugares mais distantes. Luxo é ter uma plateia atenta, com garotinhos e garotinhas que fazem perguntas inteligentes para a escritora. Uma escritora de carne e osso que acredita em fadas, ama passarinhos e tardes quentes de verão. E, até hoje, se permite entrar em bibliotecas para fazer descobertas.  Afinal, ela ama ler.

Conheça alguns livros adaptados ou originalmente escritos pela autora

As viagens de Gulliver, Jonathan Swift adaptado por Lúcia Tulchinski

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Gulliver é um médico aventureiro que abandona a família na Inglaterra para desbravar novas terras. Por causa de um naufrágio, esse personagem vai viver aventuras fantásticas. Um clássico da sátira moral, esse clássico permite discutir a importância do respeito às diferenças.

 

Viagem ao centro da Terra, Júlio Verne adaptado por Lúcia Tulchinski

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O cientista alemão Lidenbrock acha uma mensagem criptografada em um livro antigo. Ao decifrá-la, descobre que um alquimista do século XVI viajou ao centro da Terra. Agora, ele quer repetir a façanha.

 

O porta-lápis encantado, de Lúcia Tulchinski

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O gnomo Téo se perde na floresta e encontra uma casinha de madeira. Ali vive Samuel, um senhor barbudo que escreve histórias para crianças, mas está sem inspiração. Sobre uma escrivaninha, Téo acha um porta-lápis cheio de objetos falantes e decide aprender a língua dos humanos.

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Lúcia Tulchinski

Lúcia Tulchinski é jornalista e escritora. Vive em São Paulo desde 1989. Pela Editora Scipione publicou Vupt, a fadinha, O porta-lápis encantado, Fábulas de Esopo, Fábulas de Jean La Fontaine, Viagens de Gulliver, Viagem ao centro da Terra e O mágico de Oz. Faz palestras de incentivo à leitura em escolas e bibliotecas.

Foto: Rogério de Souza

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