Éramos Seis: o eterno folhetim de Maria José Dupré

Éramos Seis: o eterno folhetim de Maria José Dupré

Por Ramon Nunes Mello - 25 set 2019 - 8 min

Éramos seis. O título da história mais popular da escritora paulista Maria José Dupré (1898-1984) se origina da situação de sua protagonista (Eleonora, mais conhecida como dona Lola), sozinha ao fim da vida num quartinho alugado de uma pensão de freiras, em São Paulo. As memórias da matriarca e de sua família, o marido Júlio Abílio de Lemos e os quatro filhos, Carlos, Alfredo, Juninho e Isabel, recobrem um longo arco histórico, de 1914 a 1942, vivido entre afetos, desafios e provas de solidariedade.

Narrado em primeira pessoa por dona Lola, o romance registra fatos históricos marcantes, como a gripe espanhola de 1918, as revoluções de 1924 e 1932 e as duas grandes guerras mundiais. Desde o seu lançamento, em 1943, o romance cativou diferentes gerações de leitores e se tornou mais popular do que a própria autora, Maria José Fleury Monteiro Dupré, mais conhecida como Maria José Dupré. 

ABRE ALAS, UMA MULHER NA LITERATURA 

Nascida numa tradicional família de fazendeiros, em Botucatu, em 1898, a romancista Maria José Dupré, falecida aos 86 anos, em São Paulo, foi contemporânea das escritoras Dinah Silveira de Queiroz, Gilka Machado, Rachel de Queiroz e Adalgisa Nery, integrando o núcleo de uma geração que abriu espaço para a atuação profissional das mulheres como intelectuais e artistas. 

Dupré estreou em 1939 com o conto Meninas tristes, publicado no jornal O Estado de S. Paulo. Dois anos depois ela lançaria seu primeiro livro, O romance de Teresa Bernard. A ele se seguiriam muitos outros, como os romances Luz e sombra (1944), Gina (1945), Os Rodriguez (1946), Dona Lola (1949), A casa de ódio (1951), Vila Soledade (1953), Angélica (1956), Menina Isabel (1959); a autobiografia Os caminhos (1961), e diversas histórias para o público infantojuvenil, entre elas, Aventuras de Vera e Lúcia, Pingo e Pipoca (1943), A ilha perdida (1944), A montanha encantada (1945), A mina de ouro (1946) e O cachorrinho Samba (1949).

Entretanto, seu maior sucesso literário foi mesmo o romance Erámos seis, publicado em 1943. Em prefácio à primeira edição do romance, Monteiro Lobato declarou: “O que tenho a confessar é apenas isso: numa noite o romance dessa mulher me ensinou mais literatura do que em anos aprendi com os carranças e petrônios, que quase me deixaram beribérico” (LOBATO, Monteiro. Prefácios e entrevistas, 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1950, p. 57).

A obra, que a partir de 1973 passou a integrar a série Vaga-Lume, da Editora Ática, foi traduzida para o sueco, o francês e o espanhol; impressa em Braille pela Fundação Dorina Nowill para cegos; agraciada em 1944 pela Academia Brasileira de Letras com o prêmio Raul Pompeia; além de ganhar  adaptações para o rádio, o cinema e a televisão. 

 MAIS DE SETE DÉCADAS DE ADAPTAÇÕES

A primeira adaptação do romance foi uma radionovela transmitida pela Tupi em 1945. Escrita por Álvaro Augusto, foi dirigida por Olavo de Carvalho e protagonizada pela pioneira das radionovelas, Sônia Barreto. No mesmo ano, a história foi transformada em filme homônimo na Argentina, sob direção do chileno Carlos F. Borcosque, com os atores Sabina Olmos e Roberto Airaldi nos papéis de dona Lola e Júlio.

Na televisão, o livro ganhou cinco versões. A primeira, adaptada e dirigida por Ciro Bassini e protagonizada por Gessy Fonseca e Gilberto Chagas, estreou na Record em 1958. 

Em 1967, na rede Tupi, estreou a segunda adaptação televisiva, a cargo de Pola Civelli, sob a direção de Hélio Souto, com Cleyde Yáconis e Sílvio Rocha nos papéis principais. Dez anos depois, a mesma emissora realizou a terceira adaptação, escrita por Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho, dirigida por Atílio Riccó, tendo Nicette Bruno e Gianfrancesco Guarnieri como protagonistas.

A quarta versão televisiva foi ao ar pelo SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), em 1994, sendo protagonizada por Irene Ravache e Othon Bastos, dirigida por Henrique Martins e Del Rangel, novamente com texto de Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho.  

Essa última “encarnação” da obra nas telinhas, transmitida há 25 anos, dará lugar a uma nova produção, realizada pela Rede Globo, com estreia prevista para a próxima segunda-feira, dia 30 de setembro. Trata-se da quinta adaptação, assinada por Ângela Chaves e dirigida por Carlos Araújo, trazendo Glória Pires e Antonio Calloni nos papéis de Lola e Júlio. 

A novíssima adaptação do romance para a TV enfatiza os valores e laços familiares, revelando as dificuldades para se sobreviver na cidade e os desafios da mulher que trabalha para sustentar os filhos.  “A novela conta a trajetória de Lola para manter a união e a harmonia familiar, mesmo tendo muitas dificuldades o tempo todo. É sobre a força dessa mulher e de sua família, que vive com poucos recursos, mas cercada de afeto”, declarou Ângela Chaves, autora do remake livremente inspirado no livro de Maria José Dupré.

No artigo “O realismo doméstico de Maria José Dupré”, a pesquisadora Bianca Ribeiro, numa linha semelhante de raciocínio, faz questão de lembrar que o livro Éramos seis é dedicado “às mulheres que trabalham, empenhado em mostrar o valor do trabalho feminino, menos visível que o masculino por não ser remunerado e se confundir, na ideologia dominante da época, com a própria essência da mulher.” (RIBEIRO, B. O realismo doméstico de Maria José Dupré. In: Literatura e Sociedade, n. 15, 2010, p. 157).

Telenovelas existem desde o início da televisão brasileira, o que nos leva a perguntar sobre o vínculo entre meios de comunicação de massa e literatura no Brasil. Para a professora e ensaísta Heloisa Buarque de Hollanda, uma das primeiras intelectuais a valorizar as telenovelas brasileiras como objeto de estudo, há uma filiação notória da telenovela com o romance folhetim. Heloisa credita o sucesso das telenovelas à “eterna estrutura de folhetim, que mistura questões contemporâneas com os problemas estruturais da sociedade, gerando nitroglicerina pura para o telespectador”, conforme ela explica ao Coletivo Leitor.

O referido folhetim foi criado por Émile de Girardin na década de 1830, na França, publicado em partes nos rodapés de jornal, com narrativas instigantes, capazes de prender o leitor por meio de “ganchos”; pontos de suspensão nos fins de capítulo. O primeiro romance-folhetim publicado no Brasil foi O capitão Paulo, de Alexandre Dumas, em 1838, no Jornal do Commercio, e, entre os autores brasileiros, Monteiro Lobato foi um dos primeiros a praticar o gênero. 

É justamente tomando de empréstimo a estrutura narrativa dos folhetins que a telenovela alcança êxito como forma de entretenimento. 

Sem dúvida, a fórmula do romance televisivo, reciclada do romance folhetinesco, tem o poder de manipular a massa e ditar comportamentos, mas também ajuda a valorizar o livro como fonte de fruição e crescimento pessoal. 

UM EXEMPLO PARA A FORMAÇÃO DE LEITORES

A pesquisadora Josineia Sousa da Silva, autora da dissertação de mestrado “Protocolos de leitura em obras de Maria José Dupré na série Vaga-Lume: livros, leitura e literatura para jovens leitores no século XX” (Universidade Federal do Espírito Santo, 2017), destaca a importância da coleção “na formação de diferentes gerações de leitores e na viabilização de inúmeros processos de ensino-aprendizagem da leitura literária, participando, de maneira substancial, no delineamento da ideia de leitor jovem e de literatura juvenil, nas últimas décadas do século XX, por meio de suas altíssimas tiragens e de sua extensa circulação” (p. 9). 

Mas, afinal, o que tem de tão especial neste livro para continuar despertando o interesse da indústria cultural?  

“Em primeiro lugar, o sucesso desse livro se deve à qualidade da estética literária de Maria José Dupré, que é inegável. E também está relacionado ao fato de o brasileiro ser educado a se identificar com os aspectos mais dramáticos da vida, presentes na realidade de muitos. Os telespectadores, de alguma forma, aproveitam a narrativa não somente de forma midiática, mas também artística. E um livro como Éramos seis nos transforma e nos humaniza”, defende Josineia em depoimento exclusivo para o Coletivo Leitor.

Ao longo de décadas de publicação na série Vaga-Lume, tendo se tornado volume independente em 2012, e de várias adaptações para a televisão, Éramos seis confirma sua força e sua contemporaneidade, gerando novos significados a cada leitura.

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Éramos Seis

Éramos seis, de Maria José Dupré

Ambientado em São Paulo, entre as décadas de 1910 e 1940, o romance retrata o cotidiano de D. Lola, ao lado do marido e de seus quatro filhos. Aos poucos, o leitor se vê envolvido pelas alegrias, dramas e adversidades da família Lemos.

 

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Ramon Nunes Mello

Ramon Nunes Mello (Araruama/RJ, 1984) é poeta, jornalista e ativista dos Direitos Humanos. Mestre em Literatura pela UFRJ, é autor dos livros de poemas Vinis mofados(2009); Poemas tirados de notícias de jornal (2012) e Há um mar no fundo de cada sonho (2016), entre outros títulos.

Foto: Ricardo Fujii

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