Entrevistas com ilustradores

Por Coletivo Leitor - 25 mar 2021 - 16 min

Ilustrações são excelentes ferramentas para despertar o prazer pela leitura nos jovens. Conversamos com alguns ilustradores sobre o papel da ilustração na literatura, como é o processo criativo de cada um deles e muito mais. Confira!

Alex Senna

Ilustrou, entre outros, os livros da coleção Memórias de Vampiro

Como o grafite entrou na sua vida?

Ele entrou na minha vida inconscientemente, quando eu era mais novo e via na rua. Eu só não sabia o que era. Vim do interior, era “moleque de prédio” e não tinha essa base. Já nos anos 2000, quando houve um boom do grafite e o reconhecimento dos Gêmeos no mundo, isso me deu uma empolgada para me inteirar sobre essa arte. Na mesma época, eu trabalhei com o Danilo (Roots) e ele me mostrou um pouco do caminho das pedras. Comecei a pintar com ele na rua, a perder o medo e ao mesmo tempo conheci um pessoal da Zona Norte de São Paulo que era mais grafiteiro. Eles pintavam sem autorização, grafite original. De um lado, o Danilo me ensinou as técnicas de como usar o equipamento e, de outro, eu estava fazendo o rolê com a crew da Zona Norte. Então deu para construir uma base, andando com essas pessoas, e sair do teórico. Em 2004 eu comecei a tentar fazer sozinho e lá para 2009 o grafite se tornou meu estilo de vida. 

Algumas de suas obras são realmente imensas. Como é o processo para grafitar desenhos tão grandes?

Desde quando comecei a pintar, a busca foi por trabalhar em suportes maiores, muros maiores, esse sempre foi o meu objetivo. A primeira oportunidade veio depois de um tempo pintando. Eu não sabia como fazer, mas aceitei em por ver as referências nas ruas, dos Gêmeos, por exemplo, eu tinha muita vontade de que aquilo fosse possível para mim também.  

Suas obras lembram muito quadrinhos em preto e branco. Quais são suas inspirações?

Revendo o meu passado, vejo que nunca gostei de cor, nunca fui de colorir, nunca tive canetinha… Isso alinhou-se ao fato de que sou daltônico, ou seja, tenho dificuldade de fazer e identificar cores. Não que eu não enxergue, mas tenho dificuldade nos entretons, como vinho, marrom e roxo. E eu sou muito fã de quadrinhos antigos como Nássara, Will Einer, J. Carlos e de vários ilustradores que têm o traço marcado no preto e branco.  

De todas as suas obras, há alguma que você goste mais? 

Eu fiz uma obra na Dinamarca que era em um espaço muito legal na lateral de uma casa, e esse muro dava em outra casa, em um formato bem específico, onde eu consegui encaixar um boneco. Esteticamente ficou muito legal, era em um lugar muito agradável com um trabalho bastante profissional. 

Gilmar Machado

Ilustrou O medo de rabo preso.

Muitas de suas obras possuem provocações sobre o mundo e nossa atualidade. Para você, qual é o papel social da ilustração e do ilustrador? 

O cartunista, com seu trabalho crítico, assim como várias outras linguagens artísticas, tem uma função social primordial ao longo da vida. Isso quando o cartunista tem a liberdade de fazer um trabalho realmente crítico e independente como deve ser. Digo isso porque, em grande parte, nesse trabalho não existe uma completa liberdade de expressão, são veiculados de acordo com o interesse político e econômico do meio em que ele é publicado. Agora com as redes sociais e as mídias independentes é possível ser o seu próprio editor e fazer esse trabalho de forma socialmente mais engajada dentro daquilo que você acredita e defende. 

Suas ilustrações possuem elementos bem marcantes como os excessos de branco e cores bem lavadas. Como você cria essas atmosferas das suas narrativas

Esse recurso gráfico tem muito a ver como o tema tratado e a fase do trabalho. É uma narrativa de força emocional no momento da criação. Já fiz muita coisa “coloridinha”, explorando o humor. Hoje, a situação política e social do país está muito pesada e automaticamente transmito isso para o papel. Se fizermos um apanhado de dois anos pra cá, perceberemos esses tons menos festivos e muito mais sombrios e carregados. 

Não é sempre que vemos um quadrinista que usa aquarela. Você se vê como uma inspiração para futuros ilustradores e chargistas? E quais são as suas referências?

Eu uso uma espécie de aquarela digital, e trabalho isso com meia dúzia de opções no Photoshop, mas todo o processo anterior é no papel. Acho esquisito e artificial, talvez, que algo que se pretende transpirar uma emoção ao produzir seja feito completamente por meio digital. Muita gente produz tudo nessas plataformas digitais pelo dinamismo produtivo, isso é reflexo também de novas gerações de artistas criados nessa era digital. Mas acho fundamental, mesmo para os profissionais digitais, ter esse contato com a tinta e o papel. 

Que tipo de trabalho mas te satisfaz? 

O trabalho autoral, a independência de criação, o fato de não estar pautado, isso me satisfaz. Gosto de fazer compilados da minha produção, ou seja, faço um livro em cada final de ciclo, isso fecha e contempla esses momentos profissionais para mim. Depois de trabalhar com várias editoras, hoje estou experimentando e gostando do formato de edição via financiamento coletivo. É adaptar-se aos novos meios e manter-se vivo profissionalmente.

Para você, qual o papel da arte, principalmente das ilustrações que acompanham livros infantojuvenis, na formação do indivíduo? 

Acho fundamental a ilustração nos livros e digo que não só nos infantojuvenis, mas também nos dos adultos. Isso enriquece muito o material. Existem verdadeiras histórias paralelas contadas com as ilustrações. Existem livros incríveis que não têm uma palavra escrita, mas que dizem muito através das imagens. O fato de o texto estar ilustrado não limita o exercício do imaginário, mesmo porque cada imagem tem as mais variadas interpretações. 

Jean Galvão

Autor e ilustrador de Incrível eu.

Qual o maior desafio em criar obras voltadas para o público infantil?

O maior desafio é encantar a criança. Despertar sua curiosidade pelas ilustrações, pela história contada e transportá-la para um mundo de fantasia ao mesmo tempo em que esse(a) leitor(a) mirim se identifique, se perceba na história através dos diversos personagens.

Como você descreveria o seu processo criativo?

Meu processo nasce na curiosidade sobre algo que eu queira contar. Posso dizer que, pelo menos comigo, uma ideia nunca cai do céu, eu tenho que buscá-la. Esse lugar pode ser uma folha, um caderno ou uma tela em branco. Aí é preciso iniciar, anotar, rabiscar bastante, refazer, aprender e se divertir enquanto se consegue contar algo bacana, algo que tenho certeza que minha versão criança adoraria.

Quais são os movimentos artísticos que mais te inspiram na hora de criar?

Para mim, antes das referências artísticas vem a curiosidade por tudo, pela vida, pelo mundo e pelas pessoas. Eu adoro observar! Depois me debruço sobre imagens de todas as fontes: outros livros, quadrinhos, tv, internet, velhos caderninhos de esboços. Enfim, tudo que possa me ajudar a compor, com meu estilo, cenas com pitadas de fontes que enriqueçam meus desenhos e história.

Algum conselho para quem está começando ou tem dúvidas sobre a carreira de ilustrador?

Eu daria para quem está começando alguns conselhos que dou a mim mesmo, em pensamento. Nunca perder a curiosidade, ler muito, observar tudo ao redor e até dentro de si mesmo. Pois não é possível desenhar bem se você não tiver repertório e gostar muito do que faz. E claro, desenhe todo dia! Mostre às pessoas, peça para comentarem o que acharam da sua arte. Assim, a oportunidade de ter seu lugar no mercado aparecerá, com certeza.

Lelis

Ilustrou Carrossel de um cavalo só.

Você iniciou sua carreira em 1986, no jornal Diário de Montes Claros. Com a inserção da internet em nosso cotidiano, e uma geração de ilustradores hiper conectados, o que você diria que mais mudou no seu trabalho?  

Quando comecei, havia grandes limitações. Tanto de técnicas para aplicar no trabalho quanto da qualidade de impressão final. Vale lembrar que eu nasci em uma cidade do interior de Minas Gerais, em uma das regiões mais pobres do estado. Não havia acesso à literatura específica sobre arte e nem sobre ilustração. Me lembro que a única pessoa na cidade que me apresentou a esse tipo de literatura foi Konstantin Christoff, um médico mas também muito famoso artista plástico da cidade. Acho que a partir das visitas que fiz ao seu ateliê e à sua biblioteca é que comecei a entender que a arte não se restringia às ilustrações e charges diárias feitas com bico de pena e nanquim e impressas em um sistema absurdamente rudimentar que era o Linotipo, que ainda era usado na imprensa da cidade (o Offset não havia chegado lá ainda). A internet veio muito depois disso. É como se ela fosse a biblioteca do Konstantin, só que multiplicada por milhões de possibilidades. Mas vejo isso com certa cautela. Nunca fui de ficar horas viajando nas redes saltando de uma imagem para outra. Acho que nos falta hoje a concentração. Falta foco. Um exemplo disso são as plataformas de imagens. Quando digito o nome de um artista que desejo pesquisar, ao mesmo tempo que surge esse artista, surgem dezenas de outros que usam a mesma técnica ou que são da mesma escola artística. Ou mesmo contemporâneos dele. Aí, a nossa tendência é começar a pular de artista a artista e ficar horas vendo imagens que nos são oferecidas. Mas, e aquele artista que foi o motivo inicial da minha pesquisa? Ficou para trás. É porque a internet reflete o que o mundo é hoje: quer sempre o novo. Quer que sempre estejamos em movimento para consumir cada vez mais. Mas eu não quero ir nessa velocidade toda não. Eu quero pesquisar aquele artista. Eu quero ficar algumas horas em frente à sua obra, investigando sua técnica, que pigmentos ele usa e descobrindo em sua composição o que ele me traz de inspiração.  

Você cria universos em seus trabalhos. Como é esse processo e de onde vêm suas inspirações?  

Não há uma referência clara. Quando ilustro para outros autores ou quando ilustro meus próprios livros, faço um exercício de imersão naquele ambiente. É como se eu fosse um personagem. Um personagem coadjuvante. Me enxergo naquele ambiente e vou imaginando todo o cenário. Tudo é criado a partir desse olhar.  

Para você, qual o papel da arte, principalmente das ilustrações que acompanham livros infantojuvenis, na formação do indivíduo? 

A ilustração é uma narrativa. Ela, junto com o texto, conta a mesma história mas de forma diferente. São duas histórias em um mesmo objeto. Essa mistura de palavras com ideias concretas de dois olhares diferentes carrega possibilidades e impulsos cognitivos, ora de complemento, de aproximação; ora de afastamento. Essa é a riqueza, chegar ao terceiro olhar – o do leitor, que aprende a enxergar aquilo que não é tangível, que é apenas sugerido, por palavras ou por imagens.

Mylo Freeman

Autora e ilustradora dos livros da Princesa Arabela

Você se inspirou em alguém para criar a Princesa Arabela?

Sim. Fui inspirada por uma história que uma amiga, professora de teatro para crianças, me contou. Uma vez, ela quis dar o papel de princesa da peça para uma menina negra, que recusou. Ela disse: “não existem princesas negras! Princesas são brancas, loiras e têm olhos azuis! Minha pele é negra e meu cabelo é crespo!”. Essa história mexeu tanto comigo que eu imediatamente decidi escrever um livro sobre uma princesa negra.

Através da Princesa Arabela, você coloca uma personagem negra como protagonista e traz representação para seus leitores. Quando criança, você, sendo negra, sentiu-se representada na literatura?

Não, eu não me sentia representada de modo algum. Não existiam personagens negros na TV e na literatura enquanto eu crescia… E, para a autoestima das crianças negras, é muito importante que haja bons exemplos nos livros, filmes etc.

Princesa Arabela já é um sucesso no Brasil, desde a publicação de Princesa Arabela, mimada que só ela, há mais de dez anos. Que mensagem você gostaria de passar para seus leitores brasileiros?

Livros com personagens negros (ou com outras diversidades) são muito importantes! Não apenas para que as crianças negras se identifiquem, mas também para as crianças brancas. Para mim, essa citação de Sharron McElmeel diz tudo: “Crianças em crescimento precisam de espelhos e de janelas. Muitas crianças negras só enxergam o mundo através de janelas, mas precisam de espelhos. Outras crianças veem apenas os espelhos, e precisam aprender a ver o mundo através de janelas”.

Thales Molina

Ilustrou Alice no País das Maravilhas.

Quase um quarto de século depois da primeira versão lançada pela Ática de Alice no País das Maravilhas, o livro retorna e você é o responsável pelas ilustrações da obra. Como foi esse processo para você? 

Foi muito prazeroso poder me envolver em um imaginário já presente na minha cabeça e na de tantos leitores. Criar e modificar a partir de algo que, de certa forma, já é presente imageticamente na vida de tantas pessoas foi um desafio prazeroso de resolver. Partindo do ponto em que tive que reinventar roupas, expressões e cenários de personagens tão vívidos e complexos, onde desenhar diversos envolvidos da história já foi papel até mesmo de nomes como Tim Burton, o processo contou com uma ideia de criar narrativas visuais que pudessem expandir a imaginação do leitor conforme houvesse o decorrer da leitura, assim, cenários e ações possuem espaços em aberto para a imaginação seguir na cabeça de cada um, com uma deixa de expressões principais dos personagens em cada ilustração que eles aparecem.

Para a criação das ilustrações de Alice no País das Maravilhas, você disse na sua página do Behance que contou com fotografias para apoiar algumas ilustrações. Você pode falar mais sobre esse processo? 

Fotos auxiliam na inspiração em diversos momentos: perspectivas, visões, composição e, nesse caso, muito em expressões corporais. Tanto textualmente quanto em live actions e animações, a expressão de Alice e dos personagens secundários é bem vívida e forte. Lewis Carroll foca em trejeitos de espanto em cada diálogo que é, à primeira vista, sem sentido – e nesse ponto pude contar com o auxílio da amiga e modelo Marina Minarelli para traduzir em linhas, poses e expressões de espanto e gestos mais naturais. O traço não é realista, mas a fotografia ajuda a gente a desenhar o comportamento de tecidos, mãos, pés apoiados e reações faciais aos mais diversas diálogos da história. 

Você ilustrou para veículos como a Folha de São Paulo, Superinteressante e Galileu. O que difere esses projetos de ilustrar toda uma obra literária levando em consideração a editoração/diagramação? Como você conversa esses dois universos? 

Falando precisamente de veículos de comunicação, o ponto em comum é o encontro da linguagem verbal com a linguagem visual, então em todos os casos a ilustração precisa conversar com o texto. Recursos como figuras de linguagem podem e devem ser usados em todos os casos, a não ser quando falamos de infográficos e linguagem literal especificamente – o que não foi necessário no caso de Alice. A grande diferença de trabalhar no livro foi a chance que tivemos, a todo o momento, de desenhar nosso próprio ponto de vista do que acontece no livro, quando em matérias jornalísticas o objetivo principal é esclarecer ao leitor. Outro diferencial foi a escolha do que ilustrar, dentro do espaço reservado editorialmente para as imagens, e equilibrar as narrativas para embalar o avanço da leitura. 

Alguns de seus trabalhos se diferem bastante entre si, sendo alguns mais minimalistas e outros mais carregados de detalhes. Como é gerenciar esses dois lados artísticos?

Eu tenho um ou mais traços com os quais me identifico e sinto um caráter autoral mais claro, mas a necessidade de explorar diversas técnicas sempre direcionou meu trabalho por beber de muitas referências, absorver soluções diferentes e facilitar uma saída visual diferenciada. A gerência disso vai de acordo com a necessidade, partindo de pressupostos como prazos, contextos e energia dedicada a cada peça. Para Alice, por exemplo, a escolha do pincel digital que simula lápis foi de acordo com o tema e aconteceu com o objetivo de fazer o traço mais fluido, solto, despretensioso. Da mesma forma, a limitação da paleta cromática dá unidade entre cada cena, mesmo se vistas em separado. Tudo isso também leva em consideração o suporte que temos: pensar para impressos é diferente de pensar para ambientes digitais onde, por exemplo, técnicas vetoriais são muito mais escaláveis em termos de produção e adaptação dos elementos que compõem a imagem.  

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