Entrevista: projetos de leitura são capazes de transformar a vida de moradores de comunidades carentes?

Por Coletivo Leitor - 13 maio 2020 - 6 min

Nós, os amantes da literatura, acreditamos que a leitura tem, sim, poder de exercer transformação em situações de vulnerabilidade, por exemplo, em comunidades carentes. Projetos de leitura são provas disso.

Em entrevista ao Coletivo Leitor, a autora Eliana Martins nos relata a experiência dela em um projeto social, dentro de um galpão de reciclagem no Rio de Janeiro, em prol da leitura. Veja a seguir o que ela nos contou.

Coletivo Leitor – De onde veio a inspiração para levar a literatura para dentro de um galpão de reciclagem?

Eliana Martins – Morei alguns anos no Rio de Janeiro. Nesse tempo, ouvi falar que havia um viaduto, no bairro da Gávea, cujos baixos abrigavam um galpão de artes para comunidades carentes. Interessada no assunto, decidi ir até lá para conhecer.

Lá chegando, uma recepcionista me atendeu e foi me explicando como tudo funcionava: o galpão recebia doações de objetos possíveis de serem reciclados; as comunidades carentes dos morros do Rio de Janeiro se inscreviam para aprender a confeccionar outros objetos a partir das sucatas. Depois, esses produtos eram vendidos e a renda era revertida para as próprias comunidades.

Professores voluntários já davam aulas para os jovens que trabalhavam.

Voltei para casa com uma ideia na cabeça: por que não introduzir a leitura naquele projeto?

Havia lido, fazia algum tempo, no livro Uma história da leitura, do escritor argentino Alberto Manguel, sobre os antigos Lectores – pessoas que liam livros, em voz alta, para operários das fábricas de charutos, em Cuba. O trabalho repetitivo desanimava os funcionários. Quando o Lector passou a ler durante o trabalho deles, a produtividade aumentou muito, e as ausências praticamente acabaram.

Decidi, então, preparar um projeto semelhante para apresentar ao Galpão das Artes Urbanas. Voluntariamente, enquanto o pessoal trabalhasse na confecção dos produtos, eu leria histórias. Como os inscritos eram jovens, a leitura seria de livros de aventura, suspense, recheados com romance, é claro!

Para minha alegria, a ideia foi aceita, e assim, em 2012, começamos as leituras.

CL – Como se deu a introdução do projeto na comunidade?

EM – Eu só dispunha, na época, de dois dias na semana para me dedicar ao projeto. Sendo assim, começamos como uma experiência. Se desse certo, a organização do galpão procuraria outras pessoas dispostas a dividir essa tarefa comigo.

Depois de me inteirar da faixa etária, das origens das pessoas e dos principais interesses delas, fiz uma lista de livros que, certamente, despertariam a atenção. E começamos.

Da lista de livros que organizei, eu mesma escolhi um; mas a ideia era que, se tudo desse certo, mais adiante, a mesma lista seria dada aos alunos, para que eles mesmos escolhessem.

Dividi a história em pequenos capítulos, de forma que a contação e as perguntas, que porventura surgissem, durassem o tempo da aula.

Começamos com a obra O mistério do Cinco Estrelas, de Marcos Rey, publicado originalmente pela editora Ática. Escolhi esse livro, pois fala sobre a persistência, sobre a tentativa de vencer obstáculos; coisas que as comunidades carentes mais necessitam e tentam praticar.

Os meus dias no projeto eram às terças e quintas, em dois turnos – manhã e tarde –, mas havia aulas durante toda a semana.

O interesse na história foi imediato. Os jovens ficavam trabalhando e ouvindo com atenção o que eu ia contando. Depois, foram tomando coragem para fazer perguntas sobre cada capítulo, e até mesmo para contar alguma experiência pessoal semelhante.

CL – Quais mudanças foram percebidas após o início do Projeto Lector no Galpão das Artes?

EM – No final do primeiro mês do Projeto Lector, como se chamou, percebemos que alguns alunos das segundas, quartas e sextas começaram a pedir transferência para as terças e quintas, que eram justamente os dias quando aconteciam as leituras. Percebemos também que alguns jovens levavam livros do “Caixotão” para ler em casa. O Caixotão era onde os livros achados no lixo eram guardados e ficavam disponíveis para que os alunos pudessem pegar, ler e devolver. Antes ninguém pegava.

Chegamos à conclusão de que era hora de conseguirmos mais um ou dois voluntários, que se disponibilizassem para fazer as leituras nos dias em que eu não ia. E como sempre há gente disposta a colaborar, em dois meses e meio de projeto, todos os dias da semana havia leituras.

Alguns voluntários não tinham os dois períodos disponíveis, então dividimos as leituras conforme o tempo deles. Mas todos os períodos foram contemplados com as leituras e os bate-papos sobre elas.

O livro de Marcos Rey agradou em cheio aos alunos, tanto que, ao término do primeiro, lemos O enigma na televisão, do mesmo autor.

Os objetos de sucata, que já eram incríveis, tornaram-se mais dinâmicos, e os livros do Caixotão, sempre relegados ao esquecimento, pouco a pouco foram sendo lembrados, emprestados e lidos.

O pessoal da organização do Galpão das Artes, empolgado com o interesse dos jovens pela leitura, fez uma campanha de doação de livros, pedindo aos moradores do bairro da Gávea e também às editoras de livros juvenis. Então, providenciou algumas estantes, formando uma pequena biblioteca dentro do galpão, debaixo do viaduto, e, assim, o Caixotão deixou de existir.

CL – O que o Projeto Lector significa para você?

EM – O Projeto Lector, além de me trazer uma satisfação enorme de poder introduzir a leitura, se não a muitos, pelo menos a uma parte de jovens carentes, acabou por me render uma publicação pela Editora Saraiva: O bonequeiro de sucata (2013).

Por motivos alheios a minha vontade, precisei deixar o projeto, pois voltei a morar em São Paulo. Não sei se o projeto ainda existe, mas sei que ele continuou no galpão da Gávea por muito tempo, depois de eu vir embora.

Com esse depoimento, constatamos como a leitura muda hábitos, transforma vidas, empodera. Assim o fez com Carolina Maria de Jesus, catadora de papel, moradora da favela do Canindé, que sonhava mudar de vida, sair do barraco da favela e morar em uma casa de alvenaria. De tanto gostar de ler, escreveu o seu diário, que se tornou um dos best-sellers do nosso catálogo: Quarto de despejo – Diário de uma favelada.


Eliana Martins é paulistana. Psicóloga de formação, também foi professora de crianças com necessidades especiais. Escritora há trinta anos para crianças e jovens, tem livros publicados por várias editoras, inclusive pela Somos Educação; recebeu alguns prêmios, como o APCA, Altamente Recomendável da FNLIJ e foi finalista do Prêmio Jabuti 2008.

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