ENTREVISTA: A COLEÇÃO VAGA-LUME ATRAVÉS DOS TEMPOS – PARTE II

Por Coletivo Leitor - 16 dez 2020 - 13 min

Leia  a seguir a segunda e última parte das entrevistas com os participantes da live realizada por ocasião do lançamento do mais recente título da coleção Vaga-Lume, da Ática, Ponha-se no seu lugar!, de Ana Pacheco, com a participação de um dos idealizadores da coleção, Jiro Takahashi, e Luiz Puntel, autor de grandes sucessos, como Meninos sem pátria, Açúcar amargo e Tráfico de anjos, todos da Vaga-Lume.

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LUIZ PUNTEL

CL: Nos últimos anos, Meninos sem pátria e Açúcar amargo foram reformuladas, ganhando novo projeto gráfico. Ao revisitar esses livros, 30 anos depois das primeiras publicações, você sentiu necessidade de mudar algo nos textos ou manteve as versões originais?

Sempre que se abre um livro já editado para mudar uma vírgula sequer, a tentação de mexer mais uma vírgula, mais um ponto final, mais uma frase, mais um parágrafo e até mesmo capítulos todos é muito grande. Por isso, houve esta preocupação, a de não querer reformar, reformular, refazer.

CL: Meninos sem pátria é muito representativo no tema dessa entrevista, porque foi lançado em 1987 e é um sucesso de vendas desde então. Em uma entrevista concedida para nós no Coletivo Leitor, você disse que todo livro é como um filho para o autor, e que todas as obras são igualmente queridas. Mas gostaríamos que você contasse um pouco da sua experiência com Meninos sem pátria em especial. Como você vê a recepção desse livro por diferentes gerações nas últimas três décadas?

LP: Quem tem filhos sabe que, embora a educação dada a eles seja a mesma, são personalidades diferentes. E, comparar os livros com os filhos, embora possa ser entendido como clichê, ou seja, algo batido, sempre falado, não deixa de ser uma verdade. Quando colocamos a narrativa no papel, como fazíamos antigamente, ou na tela, como fazemos atualmente, o carinho e o envolvimento com o enredo é o mesmo. O carinho, o envolvimento e as dificuldades para resolver as tramas que vamos criando. No entanto, há filhos que exigem mais de nós, filhos que requerem mais colo, mais proteção, mais participação.

Meninos sem pátria é um desses filhos amados, que sempre me deu muito prazer. Prazer em escrever, em construir a narrativa de Marcão e sua família, em correr aventuras, viver perigos, ir parar em uma terra estranha como a França, as perseguições à sua família, a seu pai, etc.

Quanto à recepção por diferentes gerações, o Meninos sempre foi um livro muito festejado. Viajei boa parte do Brasil falando dele e dos outros também, sempre muito bem recebidos. Mas o Meninos sempre foi um carro-chefe. Tanto é que teve até tradução para o japonês, com o título de Sayonara Burajiru, que é a tradução literal de “adeus, Brasil”. Eu me lembro que ficou este título porque a tradutora sentiu dificuldade em usar a palavra “exílio”, já que não se foge do país por questões políticas. Os japoneses deixaram ou deixam o país por questões de trabalho, não de perseguição política.

E também porque já no título ficava registrada a palavra Burajiru – Brasil – que é sempre chamativa.

JIRO TAKAHASHI

Coletivo Leitor: A Coleção Vaga-Lume, iniciada em 1973, converteu-se com o passar dos anos em uma espécie de paradigma de literatura juvenil. Além dos testes em colégios, do projeto gráfico arrojado, a cargo do Ary Normanha, do preço acessível, a que outros fatores você atribui o êxito do projeto?

Jiro Takahashi: Por sermos muito amadores na época – amadores nos dois sentidos –, fizemos um planejamento muito detalhado, muito cuidadoso, pois éramos marinheiros de primeiras viagens. Precisávamos de um grande engajamento, tanto externo como interno. Engajamento implica a valorização do coletivo. Sem o coletivo, não há engajamento.

Para esse engajamento, tínhamos, entre as ações externas:

1. Participação do meio envolvido com leitura, principalmente professores e estudantes, porque a coleção seria paradidática (na terminologia da época);

2. Grupos de professores e estudantes participavam da aprovação dos livros. Isso implicava testes de apreciação dos livros nas classes. Nesses testes, havia um quesito que, para nós, era um dos mais importantes: o tempo que o estudante levava para ler os livros. Em geral, tempo curto de leitura indicaria sua prioridade entre suas atividades de lazer;

3. Precificação com professores. Professoras e professores recomendavam preços acessíveis. Afinal, eram eles que proporiam a leitura aos estudantes. Como o grande público-alvo estava nas escolas públicas, o preço tinha que ser muito acessível. Na época, usávamos como referência o preço da revista Veja;

4. Concurso para leiaute de capa e de projeto e gráfico do miolo aberto a designers do país inteiro. Tentamos a maior divulgação possível desse concurso. A receptividade foi muito grande e, principalmente, muito variada. Foi escolhido o projeto de Ary Almeida Normanha, com passagem anterior pela icônica revista Bondinho do início dos anos 1970. Como complemento da escolha, ele acabou sendo contratado pela editora para o cargo de diretor de arte;

5. Divulgadores faziam prospecção junto às professoras e aos professores para que fizessem indicações de títulos para a coleção. Em boa parte, houve um resgate de títulos publicados em décadas anteriores que eram procurados por eles.

Ainda para esse engajamento, tínhamos as ações internas. Como a editora era didática, corria-se o risco de as séries paradidáticas serem relegadas ao segundo plano, era preciso o engajamento de toda a editora. Para isso, propusemos:

1. Um concurso interno para o nome da coleção. Com isso, tínhamos de explicar os objetivos e as características da coleção para que os funcionários e os colaboradores pudessem sugerir nomes adequados. Ganhou o nome “Vaga-Lume”, sugerido por um divulgador do Rio de Janeiro;

2. O conceito do Suplemento de Trabalho para se diferenciar de uma ficha de leitura que a Ática já tinha criado no lançamento da Série Bom Livro em 1969. O S.T. seria lúdico, com jogos que orientassem leitores a observar aspectos relevantes para desenvolver simultaneamente o gosto e argúcia de leitura;

3. O planejamento do Suplemento de Trabalho em 3 partes: resumo do livro em HQ, atividades lúdicas para a memória da leitura e, separadamente, orientação de uso para professores. Selecionávamos as ilustrações internas que marcavam as funções da narrativa, de acordo com Roland Barthes. Com várias leituras, esperávamos que os estudantes desenvolvessem a noção de que um enredo era uma sequência de funções. Por isso, a sequência das ilustrações compunha uma HQ. Enquanto isso, outros tópicos do Suplemento poderiam levar o estudante a observar os índices, que eram o ambiente, o foco, a linguagem e sua composição;

4. A manutenção do engajamento dos professores (dos que participaram da seleção e outros aleatórios, mas que haviam utilizado alguns livros da Vaga-Lume) através de reuniões para críticas e autocríticas, com sugestões de mudanças;

5. O engajamento dos autores para que não considerassem a publicação na série apenas como mais uma edição dentre seus inúmeros livros. Aquele livro seria uma alavanca para sua carreira ou resgate de suas outras obras. Isso era feito por meio da participação na produção, aprovação das revisões, reuniões com alguns professores e visitas às escolas que adotassem o livro.

CL: Para a primeira década da coleção, vocês recuperaram obras de autores que haviam sido publicadas na década de 1940, como a Maria José Dupré e a Lúcia Machado de Almeida. Qual a razão desse recuo de três décadas para escolher as obras de estreia da coleção?

JT: A razão talvez estivesse, nos primeiros momentos, no peso da prospecção feita pela relação que se estabelecia entre professores e divulgadores. Havia uma tendência de professores indicarem livros que eles já tinham utilizado e que não tinham boa acessibilidade por não terem uma divulgação escolar efetiva e nem preços compatíveis com a adoção em escolas públicas. Eis alguns desses exemplos: A ilha perdida e Éramos seis, de Maria José Dupré; O escaravelho do diabo eO caso da borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida; O cabra das rocas, de Homero Homem; O coração de onça e O gigante de botas, de Ofélia e Narbal Fontes. Mesmo depois, a coleção foi atrás, por exemplo, de Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa.

A literatura tem o dom de viajar no espaço e no tempo. Desde os seus primórdios, é uma característica que faz com que a literatura esteja viva no mundo inteiro e atravesse milênios da história humana. Então, trazer de volta livros que conseguem interagir com novos públicos é também uma função editorial.

CL: Nos anos 1980, a coleção se consolida sobretudo com o trabalho de Marcos Rey e Luiz Puntel. Um livro como O mistério do cinco estrelas chegou a vender perto de um milhão de exemplares na primeira década e meia. O que muda, se é que houve mudança, nessa segunda década da coleção?

JT: No Brasil, muitas vezes, a manutenção de uma boa linha chega a ser mais difícil do que seu lançamento. Este costuma ter todo um aparato de planejamento, de investimento, de novidade, de impacto. A manutenção parece uma palavra com sentido mais próximo de monotonia, de mesmice. Por isso, valorizo muito o trabalho dos editores para os quais deleguei a continuidade, principalmente Fernando Paixão e Carmen Lúcia Campos. Os dois já vinham trabalhando comigo por mais de 10 anos.

Acredito que a série se manteve no topo das séries porque acompanhou as tendências da literatura, dos costumes, dos valores, enfim, de tudo o que influencia o comportamento humano. Por isso, houve uma tendência maior para a contemporaneidade do que para resgates de obras, tudo isso com flexibilidade. Foram surgindo também temas um pouco mais críticos, mais sociais, sem deixar de lado o entretenimento.

CL: Uma das novidades relativas da literatura infantojuvenil do período foi ter se apropriado criativamente de gêneros da literatura dita adulta, como a narrativa policial. Fale um pouco sobre isso.

JT: Dois livros da primeiríssima fase da Vaga-Lume, O caso da borboleta Atíria e O escaravelho do diabo, ambos de Lúcia Machado de Almeida — uma grande leitora de Conan Doyle, como ela nos dizia — tinham essa temática policial. Com o sucesso desses livros, os estudantes pediam cada vez mais livros com o suspense de investigação policial.

Com a chegada de Marcos Rey à coleção, essa temática ganhou mais um mestre. Em sua literatura e em seus roteiros cinematográficos, ele fazia muito uso desse tipo de suspense. Com o sucesso de seus livros, o tema acabou sendo um dos mais utilizados pela coleção.

CL: E quanto ao momento presente? Que aspectos do mundo contemporâneo você julga que estão ausentes ou são insuficientemente explorados na literatura para jovens produzida agora?

JT:Eu não opinaria muito sobre temas e conteúdos dos livros que poderiam ser prospectados porque vejo que a literatura para jovens tem sido cada vez mais rica e variada. Hoje a oferta de títulos é muito grande. Cresceu muito o número de boas obras. Fico tranquilo quanto à criação das obras. Eu me preocuparia em conhecer mais os hábitos contemporâneos das crianças, dos jovens, que criarão e desenvolverão o gosto pela leitura em tempos atuais. Em meio a games, como Fortnite, Clash Royale, Minecraft, seriados e outras atrações midiáticas, como inserir a literatura dentro disso? Eu me lembro que, quando lutei muito para que o Suplemento de Trabalho fosse sempre lúdico (e não avaliativo – coisa que muitos professores cobravam, considerando os exercícios muito fáceis, às vezes dizendo que “só de ler, o aluno resolve essas questões”). Isso me veio muitas vezes quando, como professor de Primeiro Grau (hoje Fundamental 2), eu não conseguia a atenção dos alunos para o conteúdo que trabalhava na sala de aula. Então, eu flagrava alguns alunos fazendo escondidos as atividades de caça-palavras, palavras cruzadas, charadas. Se aquilo era prazeroso para eles, era isso que precisava ter no Suplemento de Trabalho. Mas, ao lado disso, gostaríamos que o leitor desenvolvesse suas habilidades de leitura também, não a brincadeira por brincadeira.

Hoje, penso muito em cada livro ou cada autor integrando um conjunto multimídia ou multiplataforma. A partir de uma série de livros de um ou mais autores, poderiam ser criados muitos games vinculados aos temas dos livros, tanto na forma como no conteúdo. Os livros de Beatrix Potter apontaram um pouco esse caminho. Os livros de Lobato também. Com tantos experts jovens na área digital, seria estimulante a criação de produtos vinculados à leitura, à literatura juvenil, em parceria com os novos recursos lúdicos do mundo digital.

Chego até a imaginar um mundo do futuro, não muito distante, em que muitas mães e muitos pais até se queixem com os terapeutas que as filhas e os filhos estão lendo demais, que não param de ler (risos). Para o estímulo e a difusão da leitura (para os escritores e os editores também, risos), seria a glória.

Foto: Sergio Caddah para Revista Cândido, julho de 2018

Jiro Takahashi é editor e professor há cinquenta anos. Atuou na direção editorial da Ática, Nova Fronteira, Editora do Brasil, Ediouro, Grupo Rocco e Nova Aguilar. Atualmente é consultor da área didática da Zapt Editora. Fundou a Editora Estação Liberdade, que dirigiu de 1990 a 1996. Mestre em Linguística/Semiótica Literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é professor universitário, lecionando atualmente nos cursos de letras e pedagogia do Centro Universitário das Américas. É coordenador do Programa de Aprimoramento em Tradução Literária da Casa Guilherme de Almeida.

Foto: acervo pessoal

Luiz Puntel é autor de diversos livros da Editora Ática e dirige a Oficina Literária Puntel, escola de cursos de redação para vestibulandos, estudantes universitários e profissionais liberais. Além disso, ministra, há 35 anos, cursos de oratória, orientando pessoas a falarem em público. Sempre escreve aos domingos no jornal ACidadeOn, além de ser muito ativo nas redes sociais (Instagram: @luizpuntel, @oficinaliterariapuntel; Facebook: luizpuntel).


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