ENTREVISTA: A COLEÇÃO VAGA-LUME ATRAVÉS DOS TEMPOS – PARTE I

Por Coletivo Leitor - 10 dez 2020 - 13 min

Tomando como pretexto o mais recente lançamento da célebre coleção Vaga-Lume, da Ática, Ponha-se no seu lugar!, de Ana Pacheco, a par Literatura convidou a autora para falar sobre o novo livro. A entrevista, concedida ao Coletivo Leitor e transmitida ao vivo em outubro de 2020, também contou com a participação de um dos idealizadores da coleção, Jiro Takahashi, que falou um pouco sobre o histórico do projeto, conjecturando sobre o sentido que ele pode assumir para os leitores de hoje, e com Luiz Puntel, autor de grandes sucessos, como Meninos sem pátria, Açúcar amargo e Tráfico de anjos, todos da Vaga-Lume.

Clique aqui para assistir ao encontro.

Leia a seguir a primeira parte da entrevista.

ANA PACHECO

Coletivo Leitor: Ponha-se no seu lugar! é uma paródia de um clássico da literatura russa oitocentista, O nariz, de Nikolai Gógol. Como surgiu a ideia de recontar essa história para o público adolescente, ambientando-a no Brasil atual? E como você avalia o fato de ela ser publicada na coleção Vaga-Lume?

Ana Pacheco: A ideia de contar uma história a partir da leitura de O nariz veio quando li uma série de reportagens na internet sobre modificações que alguns jovens, meninas e meninos, vinham fazendo em seus corpos — uma espécie de “moda” de extremo mau gosto. Eles queriam ficar parecidos com a Barbie e com o Ken, seu namorado. Uma jovem ucraniana, Valeria Lukyanova, dizia seguir carreira de “mulher boneca”. Era literal: seu rosto tinha ficado impressionantemente artificial, com um nariz ínfimo, olhos repuxados por plásticas, boca aumentada por enxertos. Valeria já tinha inclusive retirado algumas costelas, para diminuir a cintura… Também fiquei muito impressionada com a história do “Ken humano” norte-americano (depois vim a conhecer a história do “Ken humano” brasileiro e de outros). Em 2013 Justin Jedlica já havia feito mais de uma centena de plásticas. Seu próximo objetivo na vida, conforme dizia, era implantar asas nas costas. Asas que não iam voar e cujo sentido era, aliás, o contrário do voo da imaginação. Entre outras coisas, Justin correu o risco de ficar cego ao se submeter a uma cirurgia para remover veias “indesejadas”, por saltarem quando ele sorria. Aos 32 anos tinha gastado mais de 300 mil dólares em cirurgias plásticas para ficar parecido com o personagem Ken.

Talvez a associação sonora, Ken/quem e, claro, o desassossego com o próprio corpo, a produção incessante da “novidade”, logo desgastada e pedindo outra, como é próprio das mercadorias, me levaram a pensar na questão da identidade e na adolescência como uma fase decisiva para a formação do sujeito. Então, juntei tudo isso com O nariz, do Gógol, que eu amo, e inventei essa narrativa que se passa num colégio de elite em São Paulo, onde estuda um menino, Lucas, sobrinho da diretora de nome quatrocentão, que um dia acorda sem nariz e não sabe como fazer para ir à Olimpíada de Matemática. A narradora é uma menina muito esperta, bolsista na escola, que está interessada por Lucas. Quando o irmão dela chega atrasado ao colégio, perde a aula e vai tomar um lanche na cantina, ele encontra o nariz de Lucas no meio do seu pão de queijo. Bom, aí acontecem muitas coisas e depois o Nariz, com cabelo comprido, sobretudo e carrão aparece “causando”. O Nariz rouba todas as atenções da moçada do Ensino Médio. Lucas, desesperado para disfarçar a falta, começa a “bombar” o corpo. Ele faz preenchimentos, aplicações de botox, silicone, planeja uma cirurgia, enfim, não sabe mais o que inventar. Por fim, tudo dá errado e ele vai ficando torto, esquisito, meio monstruoso. Algo muito importante se perdeu, e muita coisa ficou sobrando, sem, no entanto, suprir a falta. Lucas, que é de família muito rica e não tinha vindo ao mundo para perder nada, aprenderá algumas coisas até o Nariz voltar para o seu lugar. A narradora que o acompanha também vai aprender a olhar o mundo e as pessoas de outro jeito.

Quanto à publicação na Vaga-Lume, só posso me sentir muito alegre e honrada! A Vaga-Lume é uma coleção que eu lia quando criança, assim como muitas outras pessoas, da minha geração e de outras, antes e depois de mim. Seu projeto se fez ligado a um sentido forte de educação, que não se confundia (e não deve se confundir) com a ideia neoliberal de que a educação é um negócio. O Jiro Takahashi fala lindamente sobre o modo como a Vaga-Lume surgiu, como as decisões se faziam coletivamente, incluindo não só as pessoas da Editora, mas também professores, pessoas ligadas ao dia a dia da escola e conscientes da difícil realidade material de grande parte dos jovens leitores da rede pública. Como não se alegrar por fazer parte dessa história de algum jeito?

CL: Como em Gógol, seu livro também tira partido de elementos de nonsense de maneira humorada. Qual o potencial crítico desse humor nonsense?

AP: Penso que o nonsense há muito tempo, e cada vez mais, faz parte da nossa realidade. Há tempos nosso cotidiano na sociedade capitalista tornou-se mais e mais impenetrável, e elementos a princípio inimagináveis, absurdos, passaram a fazer parte do cotidiano. Mas, de várias maneiras, num mundo onde imperam as mercadorias, tudo acaba se “rotinizando”. Pouco a pouco as sociedades foram perdendo inclusive a capacidade de se chocar — ou há choque e, no minuto seguinte, está tudo “em ordem”, parecendo normal —, com situações que só num mundo muito violento poderiam ser rotinizadas (por exemplo, a rotinização do fato de, num tempo em que há alimento de sobra, pessoas viverem na miséria e passarem fome). Isso não significa que, individualmente, não possamos ficar indignados, nos revoltar, tentar transformar esses absurdos, mas no âmbito da experiência vivida coletivamente ainda não há transformação social à vista no horizonte próximo, e seguimos com a correnteza. Walter Benjamin, falando do Surrealismo, resume assim a tarefa fundamental que essa vanguarda estava realizando no final dos anos 1920: “Cada um deles [os surrealistas] troca a mera gesticulação pelo quadrante de um despertador, que soa durante sessenta segundos, a cada minuto.”

Uma das coisas interessantes do humor é sua capacidade de revirar as coisas e nos fazer pensar enquanto rimos. Sem humor não existe dialética, alguém disse (acho que foi o Brecht). O nonsense ligado ao riso é uma espécie de contraveneno da violência normalizada, quando consegue desestabilizar o que parece “dado”, imutável, e apontar para a possibilidade de transformarmos o estabelecido.

CL: Outra questão que seu livro trabalha é o do conflito entre alunos regulares e bolsistas em um colégio de elite. Num ano em que, por causa da pandemia, o confinamento dos alunos magnificou o impacto da desigualdade econômica no acesso à educação, como lidar ficcionalmente com o ideal de uma educação democrática e inclusiva?

AP: A educação democrática e inclusiva deve ser uma exigência sempre. Sem ela, fica difícil imaginar um futuro melhor, o que, no momento da pandemia, ficou claro que significa nada menos do que construir um mundo no qual a vida possa existir. Sei que há gente que pensa que as doenças são catástrofes naturais, no entanto, a questão se torna complexa quando, por exemplo, lembramos que os investimentos do capital na indústria farmacêutica nas últimas décadas se concentraram em antidepressivos e viagra, deixando à míngua pesquisas sobre medicamentos antivirais.

CL: Na universidade, nos últimos anos, você tem estudado e orientado pesquisas que investigam a relação entre cinema e literatura. A composição de cenas na sua obra juvenil beneficia-se de algum modo do seu percurso entre a página e a tela?

Não sei se estou certa, mas diria que a narrativa de Gógol é tão viva, tão cheia de detalhes, tão gestual e concreta que ela já é um tipo de cinema silencioso impresso na página. Até seu narrador parece pôr em cena uma espécie de gesticulação verbal. Mesmo sendo impessoal, ele é cheio de caráter, o que é um paradoxo interessante. Nesse sentido, como me inspirei no Gógol, o detalhamento visual das cenas veio sem eu pensar muito sobre o assunto. Entretanto, tudo que a gente faz com amor — e eu estudo as relações entre cinema e literatura com muito amor — entra de um jeito ou de outro naquilo que a gente cria.

LUIZ PUNTEL

Coletivo Leitor: Puntel, com mais de 30 anos de carreira e mais de 10 livros publicados, hoje você é um autor consagrado. Mas como tudo começou, ou seja, como você entrou no mercado editorial com seu primeiro livro?

Luiz Puntel: Eu não tinha contato nenhum com ninguém do mercado editorial. No entanto, há tempos escrevia crônicas, regularmente, para um jornal diário da minha cidade, Ribeirão Preto. Já havia participado aqui e ali de uma publicação em antologias, mas nada que me permitisse afirmar que, um dia, quem sabe, eu poderia publicar um trabalho para chamar de meu.

Naquela época – na década de 1970 –, não havia, como todos sabemos, redes sociais, a TV era ainda em branco e preto e, para telefonar para São Paulo era exigida toda uma logística complicada. Mas, havia Correios, pois não? E os Correios, como também todos sabemos, levam e trazem correspondências.

Numa dessas idas e vindas, fiquei sabendo que a revista Escrita, coordenada pelo Wladyr Nader, publicara uma lista de editoras que aceitavam originais. Se não tentasse, já tinha um redondo “não”. Se mandasse, poderia abiscoitar um “não” menos redondo, quem sabe! Selecionei um monte de textos, meti em várias pastas e, como os latinos, mandei ver: alea jacta est!, ou seja, “a sorte está lançada”.

Lembram-se da metáfora da garrafa lançada ao mar? Era mais ou menos isso! Se algum dia alguém, em alguma parte desta redondo planeta, lesse meus escritos, poderia desconfiar que morava em mim um postulante de redator de textos. Eu nem me atrevia a usar a palavra escritor, coisa reservada aos consagrados “escrivinhadores”. Quem era eu para ousar ser chamado assim?

O tempo rolou, esqueci da empreitada, estou lá matraqueando teclas numa Remington antiga no Banco do Brasil, mexendo com débitos e créditos, quando o telefone toca – lembram que era complexo falar em São Paulo? – e uma voz feminina do outro lado, numa ligação entrecortada, som ruim, dizia ser da Editora Ática, que o quê, vão é, publicar, alô, alô, moça, num é trote não? Não era!

Foi assim! Numa tarde bancária, eu, rodeado de débitos e créditos, fiquei sabendo que um maluco chamado Jiro Takahashi, editor de uma das maiores editoras brasileiras, ia publicar meus rascunhos. Mas, assim, do nada?

Parecia até conto de fadas: os amigos não entendendo como é que um dos mais assediados editores tinha ido com a minha cara, quer dizer, com a cara dos meus escritos; eu, que não tinha nem indicação de um dê-uma-olhada-no-que-este-um-escreve, muito menos padrinho literário.

O livro, mais de crônicas que de contos, chamado Não aguento mais esse regime, não encalhou – e eu lá ia jogar minha garrafinha n´água para ficar encalhada em um cais de porto? –, teve uma boa repercussão e o Jiro Takahashi – eu já falei que ele não bate muito bem? – me assediou com propostas de indecentes literatices: “num tem mais nada não aí no forno?”

Tinha!

E aí desandei a achar que um dia ia viver de escrever. Aí vieram os livros da Vaga-Lume, todos eles bem gerados, crianças fortes, sadias, com direito a edições fornidas.

CL: Atualmente você tem 5 livros publicados na série Vaga-Lume, todos dedicados à análise de problemas sociais. Por quê?

LP: Sempre me incomodaram os problemas sociais. E por quê? Simplesmente porque eles afetam a todos nós. Ao saber que há mais de 20 milhões de banguelas em um país cuja odontologia é uma das mais desenvolvidas no mundo, há algo no mínimo equivocado. Quando se sabe que, em 20 anos – de 2000 a 2020 – nossa população carcerária triplicou e, hoje, somos uma das maiores potências de presidiários, com um plantel de quase 800 mil presos, sendo a segunda ou a terceira nação em presos, há algo no mínimo equivocado. E por aí vão os péssimos índices. Se falarmos na educação, vixi! É só ver as reprovações nas estatísticas do PISA, o Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes, para termos calafrios!

Daí as temáticas com as quais trabalho em vários livros da Vaga-Lume: tráfico de crianças, o desprezo que o homem do campo recebe das autoridades competentes, o exílio provocado pela ditadura militar, entre outros temas.

Foto: acervo pessoal

Ana Pacheco é escritora e professora universitária. Nasceu em São Paulo, em 1972. Em 1982, pediu emprestada a máquina de escrever do vizinho e escreveu sua primeira história de ficção para crianças. Depois, estudou muito para ser professora, ministrar aulas e aprender com os alunos. Ana é autora de Lugar do mito: narrativa e processo social nas Primeiras estórias de Guimarães Rosa (Nankin Editorial, 2006) e do volume de contos A casa deles (Nankin Editorial, 2009). Em 2013, com o conto “Cabeluda” (uma releitura de “Rapunzel”), participou da coletânea Irmãos Grimm: releituras contemporâneas (Edições SM) e voltou a ter muita vontade de escrever para o público mais jovem. O convívio com sua filha, Sofia, e com os afilhados, Júlia, Miguel, Ligia e Helena (e com a Luiza), também pôs gasolina nesse desejo.

Foto: acervo pessoal

Luiz Puntel é autor de diversos livros da Editora Ática e dirige a Oficina Literária Puntel, escola de cursos de redação para vestibulandos, estudantes universitários e profissionais liberais. Além disso, ministra, há 35 anos, cursos de oratória, orientando pessoas a falarem em público. Sempre escreve aos domingos no jornal ACidadeOn, além de ser muito ativo nas redes sociais (Instagram: @luizpuntel, @oficinaliterariapuntel; Facebook: luizpuntel).

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