Cruzando A Linha Negra

Por Mario Teixeira - 08 jul 2020 - 5 min

Quando A linha negra ganhou os prêmios Jabuti e Fundação Biblioteca Nacional, um jornalista me perguntou o porquê de escrever sobre a Guerra do Paraguai. Respondi que conhecia poucos romances brasileiros sobre guerra e menos ainda sobre a Guerra do Paraguai. E sempre fui apaixonado por histórias de ação. Filmes de guerra e livros sobre o tema estão entre os meus preferidos. Também amo história, gosto de saber as datas e lugares onde aconteceu tudo o que culminou no momento em que vivemos, mas aprendi muito com os escritores de ficção. Alguns escreveram verdadeiros diários do cotidiano, em prosa e verso.

Aqui no Brasil, por exemplo, podemos caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro do século 19 lendo sobre as peripécias de um romântico que vai do Catumbi ao Catete para ver a amada. Seus solavancos a galope são uma verdadeira odisseia, entendemos como pensa aquele rapaz apaixonado, como era difícil atravessar a cidade lamacenta e quanto ele gasta para financiar a jornada (três mil-reis, acho). A gente morre de rir com Álvares de Azevedo e jamais esquece.

Podemos conhecer também a França inteira com Balzac, saber o que comiam os pobres e os ricos, dá pra sentir o gostinho do pão dormido que Rastignac mastiga na pensão de Madame Vauquer antes de experimentar o refinamento dos petit fours nos salões da viscondessa de Beauseant. Damos de cara com Napoleão diante de um rapaz russo estupefato (Guerra e paz, Tolstói) e jamais esquecemos a vivandeira que ajudou Fabrício na batalha de Waterloo (A cartuxa de Parma, Stendhal). Com livros assim aprendemos de forma impagável, somos contemporâneos de Napoleão, de Catarina de Médici – a quem fui apresentado por Alexandre Dumas (Rainha Margot). Que mulher! Uma paciente perfeita para Freud, mas eles tiveram um desencontro de agenda.

Nos romances, somos Fabrice del Dongo, André Bolkonski, podemos asnar e desasnar como o Lúcio de Apuleio. Do lombo desse coitado metamorfoseado, sempre vamos nos lembrar dos moleiros, das alcoviteiras, dos salteadores de estrada da Grécia do século 2. As Cevenas francesas e seus tipos humanos são tão vívidos na minha lembrança quanto o centro da minha São Paulo natal, com a diferença de no estrangeiro fui ciceroneado por Stevenson (Viagem com um burro) e aqui trabalhei como office boy.

Por tudo isso eu quis contar a história de Casimiro e de suas transformações. A jornada do meu atarantado heroi dura o tempo da guerra. Ele vive o cotidiano da época, conhece escravos, ex-escravos, nobres, prostitutas, burocratas, vendeiros, guerreia e convive com o inimigo, com quem ora se identifica, ora mata para não morrer. Ele amadurece no fragor do combate, conhece todo tipo de homem e mulher na caserna, na alcova e no front, atravessa a geografia do tempo.

Escrevi na apresentação do livro que a ficção, mais do que a história, pode abolir as fronteiras do tempo. Mas o que é o relato de um historiador senão a sua versão pessoal da história? Uma história calcada em fatos, mas também em sentimentos que duram mais do que tatuagens, porque vermes não comem lembranças. Isso é o que fica pra sempre. A lembrança, até do que a gente não viveu.

Conheça a seguir os livros de Mário Teixeira no catálogo da SOMOS:

A linha negra

Uma imagem contendo água, ao ar livre, barco, vara

Descrição gerada automaticamente

Em 1865, o brasileiro Casimiro é mandado para lutar na Guerra do Paraguai. O jovem vive terríveis experiências de combate e, nas noites de lua cheia, enfrenta um descontrole que deixa cicatrizes em seu corpo. Como se tudo isso não bastasse, ele se apaixona pela bela Francisca, a favorita do ditador paraguaio. Porém, o rapaz não fica muito tempo junto de sua amada, pois é enviado a uma perigosa trincheira: a linha negra. É então que sua jornada fica mais perigosa e imprevisível.

Em 2015, o livro A linha negra ganhou o prêmio Jabuti na categoria juvenil e o prêmio Glória Pondé de Literatura Juvenil, da Biblioteca Nacional.

Alma de fogo

Desenho de uma pessoa

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Os estudantes boêmios da Faculdade de Direito investigam assassinatos em série na vila de São Paulo, no século XIX. Álvares de Azevedo e sua turma precisam desvendar esse misterioso caso para tirar o amigo Aureliano Lessa da cadeia e impedir novos crimes. Nesta narrativa ágil, o leitor encontra informações sobre alguns dos mais representativos escritores românticos brasileiros, como  Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães e outros.

Salvando a pele

Uma imagem contendo texto

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Matias e Sandino têm uma ONG que defende os animais. Eles descobrem que a esposa de um rico empresário quer criar um creme rejuvenescedor usando animais como cobaias. A dupla precisa desmascarar a megera e impedir seu plano.

Foto de capa: Cópia do original de Vitor Meirelles: a Batalha Naval do Riachuelo. Dim. 2,00m x 1,15m. Autor: Oscar Pereira da Silva (1867-1939). Foto de Halley Pacheco de Oliveira. Creative Commons.

Gilberto Dimenstein

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Mario Teixeira

Mario Teixeira nasceu em São Paulo, é ficcionista e roteirista de televisão. Trabalha na TV Globo como novelista, atualmente escreve a minissérie O anjo de Hamburgo, que conta a história de Aracy de Carvalho, brasileira que salvou a vida de mais de uma centena de pessoas durante o período nazista

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