Biblioteca e aprendizado

Por Coletivo Leitor - 11 dez 2019 - 5 min

Em 23 de agosto último, durante o seminário Retratos de Leitura no Brasil – Bibliotecas Escolares, realizado pelo Instituto Pró-Livro no Instituto Cultural Itaú, em São Paulo, foram apresentados os resultados de uma pesquisa feita pelo Insper acerca do impacto das bibliotecas escolares sobre o aprendizado dos alunos.

Vale lembrar que a divulgação dos dados dessa pesquisa se dá no contexto de ampliação do prazo para universalização das bibliotecas escolares, conforme disposto pela lei 12.244, de 2010, que estipulava 2020 como data-limite para que todas as instituições de ensino do Brasil, públicas e privadas, contassem com uma biblioteca cujo acervo tivesse no mínimo um título para cada aluno matriculado. No ano passado, porém, o projeto de lei 9.484, que amplia em quatro anos o prazo para cumprimento integral da meta, foi aprovado em novembro do ano passado pela Câmara dos Deputados e se encontra atualmente em tramitação no Senado.

Conforme o Censo Escolar de 2016, realizado pelo Ministério da Educação, apenas 21% das 217 mil escolas públicas do país tinham biblioteca, enquanto entre as 61 mil escolas da rede privada o índice era de 38%. No ano seguinte, 61% das escolas públicas continuavam sem dispor de biblioteca nem de salas de leitura (que, por seu turno, foram criadas como alternativa à falta de investimento, sem contar com material catalogado nem profissionais capazes de estimular os alunos), o que sinaliza a magnitude do desafio a enfrentar.

No que se refere à pesquisa, contudo, ela procedeu por amostragem, examinando, em 500 escolas de 17 estados, alunos do 5º ano do Ensino Fundamental que obtiveram a melhor nota em Português na Prova Brasil. Buscou-se identificar em que medida o aprendizado desses alunos está associado à presença de bibliotecas escolares, e qual atributo da biblioteca desempenha o papel mais decisivo para o bom desempenho escolar. Os atributos considerados foram: espaço físico, recursos eletrônicos, acervo, serviços/atividades regulares e o atendimento pessoal.

Os resultados da pesquisa demonstraram que, dentre os atributos avaliados, os que mais contaram para o aprendizado foram a atuação do responsável pela biblioteca (professor ou bibliotecário), a regularidade no funcionamento e os recursos eletrônicos, sendo a qualidade do acervo menos decisiva que o trabalho de mediação da leitura. Além disso, constatou-se que a influência favorável da biblioteca sobre o aprendizado também é perceptível nas notas em Matemática, e que o benefício propiciado pela biblioteca é maior, como é de esperar, em escolas que lidam com populações socialmente vulneráveis, as quais têm menos oportunidades de acesso aos livros. Nessas escolas, a presença da biblioteca levou a uma melhoria no desempenho em Português da ordem de 30 a 60% e a um aumento de até 16 pontos na escala Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), número quatro vezes maior do que a média alcançada pela totalidade das escolas da amostra, o que confirma o papel da leitura como meio de redução da desigualdade social.

Cumpre lembrar também que o chamado “efeito escola” sobre o aprendizado divide influência com o efeito socioeconômico (que no Brasil afeta 50% do resultado), sendo que o alto Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) alcançado por algumas escolas muitas vezes é antes reflexo do “capital cultural” que a criança já traz de casa.

Dentre as falas ocorridas durante o seminário, destacamos a da professora Marília Paiva, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que relativizou os resultados da pesquisa no que se refere à importância menos decisiva do acervo sobre o desempenho das crianças, enfatizando que isso não atesta a secundariedade desse atributo, decorrendo, na verdade, da falta de investimentos na aquisição ou atualização dos acervos e na seleção de títulos adequados às demandas do alunado. O risco é justamente usar a pesquisa para subestimar o papel desempenhado pelo acervo, fazendo com que os investimentos, que já são insuficientes, fiquem ainda menores.

Outros participantes, como Simone Monteiro, gerente de Mídia-Educação da Secretaria de Educação da Cidade do Rio de Janeiro, destacou a importância de integrar a biblioteca escolar ao currículo, de modo a garantir que a oferta nesse espaço constitua realmente uma ampliação daquilo que o aluno vê em sala de aula. Para tanto é fundamental tanto que o professor realize atividades na biblioteca quanto que o bibliotecário saia da biblioteca e entre na sala de aula, que não seja apenas um catalogador e controlador de empréstimos. Além disso, é preciso que  os projetos de trabalho em bibliotecas sejam mais do que meras listas de tarefas; que o espaço entre as estantes promova acolhimento e identificação; que o acervo seja variado e acessível, de modo a promover contrato com distintos gêneros e estruturas textuais; que a mediação de leitura seja feita por leitores solidamente constituídos, engajados em um trabalho de natureza cooperativa.

Por fim, destacamos também a participação da professora Maria das Graças Monteiro, professora do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás (UFG), que questionou a correlação muito direta entre desempenho escolar e o papel da biblioteca, criticando também a falta de lugar para os bibliotecários, no plano de carreira da Educação. Segundo ela, falta promover uma articulação mais adequada entre o técnico e o pedagógico: o atendimento técnico deveria ser condicionado pelas necessidades dos Projetos Pedagógicos de Curso (PPC).

Como se vê, então há muitas dimensões a considerar para que as bibliotecas escolares consigam cumprir o seu papel de modo efetivo e completo, superando hiato entre leitura e educação de modo a que a casa dos livros seja não apenas um apêndice da sala de aula, mas o seu pulmão.

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