As histórias que (não) contamos: assim (não) se forma um leitor

Por Januaria Cristina Alves - 07 out 2020 - 9 min

O projeto do Governo Federal intitulado “Conta pra mim”, estrela do Programa Nacional de Alfabetização (PNA) do Ministério da Educação está cheio de boas intenções. Mas, como diz o velho ditado, “de boas intenções o inferno está cheio” e é aí que mora o perigo. Tal projeto é composto, entre outras coisas, por uma coleção de 40 livros destinados a “todas as famílias brasileiras, tendo prioridade aquelas em condição de vulnerabilidade socieconômica”. Esses livros, que custaram mais de 18 milhões de reais, buscam promover a “literacia familiar”, outro nome para a velha e boa “contação” de histórias em casa, em que os familiares reservam um tempo para contar, ler e ouvir histórias com seus filhos. Não há dúvida de que o objetivo é nobre e fundamental para a formação de leitores, algo que preocupa em se tratando de crianças e jovens brasileiros. Segundo a última pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” (2019), 4,6 milhões de brasileiros deixaram de ler nos últimos quatro anos.

E quais são os 40 livros que chegarão aos lares das famílias brasileiras? É aí que a boa intenção peca e a iniciativa dá um tiro no pé. O governo selecionou histórias de tradição oral, do folclore brasileiro, clássicos da literatura universal, leituras de indiscutível representatividade para a formação leitora de qualquer criança e…. contou essas histórias do jeito que quis. Ou melhor, contou-as de modo a atender a um projeto maior, que “seleciona” apenas o que favorece os interesses, ideias e conceitos que defende, e que mostram um Brasil fictício, do qual os cidadãos não participam e que nem sequer conseguem ver.  Os livros do MEC transformaram personagens icônicos, histórias de alto valor mítico – tão necessárias para propiciar o desenvolvimento do gosto pela literatura e de valores caros à formação ética e moral das crianças, como a empatia e o respeito às diferenças – em aventuras insossas e desprovidas de qualquer encanto, porque distantes não apenas do público a qual estão destinadas, mas especialmente porque não oferecem qualquer conexão com o universo simbólico no qual as crianças estão inseridas.

Nas histórias da coleção “Conta pra mim” o lobo não morre no final, apenas se arrepende do que fez com Chapeuzinho Vermelho e sua avó. Branca de Neve não beija o príncipe, por exemplo. Já o Curupira, famoso personagem do nosso folclore, é reduzido a um “ruivinho” que perdoa o caçador malvado no final da história, escrita de maneira apressada, aos saltos, como quem quer que ela logo termine, porque, afinal de contas, a preservação ambiental é um assunto delicado no Brasil nesse momento. O que essas narrativas, expurgadas de seus elementos mais conflitivos (violência, sexualidade) – que fazem parte da subjetividade das crianças, as quais, por isso mesmo, encontram nessas histórias tradicionais um meio de expressão e elaboração desses elementos – provocarão nos leitores e em seus familiares?

Alguém poderá perguntar: mas é a primeira vez que alguém conta uma história de tradição oral ou reconta um conto de fadas de outra maneira? Não, é claro. Mas o que se observa nessas adaptações da coleção “Conta pra mim” não é algo como Chico Buarque de Holanda fez em seu Chapeuzinho Amarelo, paródia criativa do conto “Chapeuzinho Vermelho”, ou Alexandre Rampazo, em seu lançamento recente, “Este é o Lobo”, mas tão somente o empobrecimento dos textos-fonte, que perdem nuances e camadas de sentido imprescindíveis para a fruição da história.

Nos exemplos de Chico Buarque e Alexandre Rampazo, vemos que a figura do Lobo Mau é retratada sob outro ponto de vista, ou seja, o personagem conta a sua versão da história sem alterar, por exemplo, um de seus elementos essenciais, o valor simbólico do animal, que representa o medo em suas mais variadas formas. Aprender a lidar com o medo, seja do que está fora ou dentro de nós, é algo de fundamental importância para o fortalecimento do psiquismo da criança. Ao ouvir, ler, contar e recontar uma história dessa natureza, a criança vai ganhando forças para lidar com essa emoção, que tanto pode se tornar um estímulo para ela superar os desafios do crescimento, como transformar-se em uma sensação paralisadora, capaz de impedi-la de superar a impotência e o desamparo. Portanto, ao simplificar e desconstruir a história de tradição oral, esvaziando o Lobo de seu significado simbólico, tais narrativas em nada contribuem para a elaboração dos sentimentos conflituosos da criança leitora, que não encontrará nelas nenhuma resposta às suas angústias, nem tampouco consolo para aplacá-las.

Diante do quadro desanimador de baixíssimo letramento (termo de uso muito mais disseminado entre os estudiosos da área do que o colonizado “literacia”, mal traduzido do inglês), literário dos leitores brasileiros, uma iniciativa dessa envergadura, se bem direcionada, poderia ser um poderoso instrumento não apenas de transformação desse quadro, mas sobretudo uma maneira de diminuir as imensas desigualdades sociais que vemos em nosso país.

Segundo um dos maiores estudiosos brasileiros da literatura, o professor Antonio Candido, a leitura é um direito de todo cidadão, pois por meio dela é possível compreender o mundo em que vivemos e criar condições para transformá-lo. A literatura – e Antonio Candido chama de literatura todas as criações ficcionais ou dramáticas em todos os níveis, desde o folclore, as lendas, os contos de fadas até as formas mais complexas como os romances e ensaios – deve ser o pão nosso de cada dia, tão necessária quanto o alimento para o nosso físico: “Podemos dizer que literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura”, afirma em seu texto que já se tornou um clássico “O direito à literatura” (In: Candido, Antonio. Vários escritos. 5ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2011, p. 177).

Quando lemos ou contamos histórias para as crianças, estamos, sobretudo, revelando a elas como a humanidade lidou e entendeu questões comuns a todos nós: o medo da morte, da perda de quem amamos, a paixão, o ciúme, a inveja, o amor, a amizade. Oferecemos a elas a possibilidade de se perceberem seres humanos e por isso, capazes de compreender o outro e de aceitá-lo em suas particularidades. A literatura e a arte de modo geral permitem que sejamos muitos, que vivamos inúmeras situações de maneira protegida, no nosso espaço seguro. Por meio da literatura experimentamos sensações e emoções que, se vividas “lá fora”, poderiam ser assustadoras ou até insuportáveis. Quando leem para os filhos, os pais podem falar de si, de questões muitas vezes complexas demais para serem ditas na mesa de jantar; podem expressar suas dúvidas e receios, e podem, sobretudo, ensinar e aprender juntos. Mas tudo isso só é possível se houver uma história que favoreça esse diálogo, e o surgimento de questões significativas não só para as crianças, mas para todos nós, da espécie humana.

Os livros da coleção “Conta pra mim” também pecam pelas ilustrações toscas, sem cuidado visual, com imagens estereotipadas, que mal conseguem traduzir ao pé da letra o que está sendo contado na história. Sem projeto gráfico, com letras padrão, sem o menor traço convidativo à leitura e à escrita, é fácil imaginar que livros assim podem afastar as crianças da literatura para sempre. Sabemos que é na fase da alfabetização que se abre uma janela imensa para que a criança se vincule ao universo literário, e que, depois disso, com o passar dos anos, é mais difícil refazer esse vínculo. O que torna as obras do “Conta pra mim” contraindicadas para o que foram concebidas. Uma pena, um desperdício.

Além de conter “historinhas bonitinhas e divertidas”, os livros para crianças são fonte de informações e diferentes visões de mundo. Por meio deles as crianças aprendem a pensar, a perguntar e a buscar diferentes respostas para a mesma questão. Livros são portas que se abrem para que os leitores se compreendam como parte de um universo complexo, multifacetado e caótico. Livros organizam as experiências, sistematizam o pensamento, provocam mudanças no nosso comportamento. Por isso, propor narrativas esvaziadas de sentido significa também perder uma oportunidade preciosa de desconstruir verdades prontas e fechadas, de enriquecer o repertório das crianças de modo a nele incluir os conflitos, os desejos, as angústias, as alegrias e os sonhos humanos.

Essa é a razão pela qual não é qualquer história que “serve para ser contada”. Porque não vivemos de qualquer jeito. Escolhemos de maneira cuidadosa e atenta como nos relacionamos, trabalhamos, nos cuidamos. Por isso, a melhor história é aquela que expressa o que para nós é importante dizer e compartilhar. A diversidade de experiências leitoras é o que vai moldar a formação do leitor literário. Mas é fundamental que essas experiências sejam respaldadas por critérios específicos, e a qualidade – leia-se textos criativos, instigantes, projetos gráficos originais, que convidem a um olhar curioso e investigativo, personagens multifacetados, linguagens diversas e provocativas de novas possibilidades comunicativas etc. – é o principal pilar. Essas leituras devem produzir, além de encantamento, a possibilidade de a criança interagir com elas, ler aquele texto de diferentes maneiras, imaginar outros desfechos, outros personagens, outras possibilidades de se contar a mesma história. Um texto de qualidade sempre dá margem à (re)criação do leitor, e quando isso acontece, ele amadurece e se transforma. É para isso que servem os livros e as histórias.


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Januaria Cristina Alves

Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira. É consultora de projetos de Educação e Comunicação para empresas e instituições educacionais e realiza palestras e oficinas para educadores, crianças e jovens, sobre Educação Literária, Alfabetização Midiática e Informacional e Storytelling.

http://www.entrepalavras.com.br

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