Algumas palavras sobre livros sem palavras

Por Carolina Michelini - 27 jan 2021 - 4 min

Livro sem palavras, livro mudo e livro de imagens. Esses são alguns nomes dados a esse gênero de livro, que tem uma linguagem própria e única. Nesse artigo, vou adotar o nome “livro sem palavras”.

Diferentemente de livros ilustrados, onde a história escrita e a ilustração conversam e se complementam, no livro sem palavras a história, sem texto algum, é “lida” através das imagens. Toda a ilustração do livro é feita numa sequência narrativa que pode ser interpretada livremente. E é justamente por isso que considero esses livros tão ricos e importantes.

Por sua essência absolutamente livre e projetiva, o gênero se presta à experimentação e à inovação, tanto em relação ao conteúdo quanto aos aspectos emocionais e criativos. Além disso, a narrativa sequer precisa ser contada de forma linear. É precisamente isso que faz com que o leitor queira provar novamente, ficar na dúvida, com curiosidade para saber mais e tentar resolver de diferentes formas as questões ali propostas.

Esses livros, evidentemente, contemplam crianças ainda não alfabetizadas ou com alguma dificuldade com os códigos linguísticos. Mas não é só isso. O espectro de atuação do livro sem palavras é enorme e abrangente. Ele permite diferentes níveis de compreensão e fluidez, variando de acordo com a maturidade do leitor.

Todos os meus livros sem palavras têm em seu âmago mensagens direcionadas aos adultos mediadores, que apresentarão ou acompanharão a leitura das crianças.

Portanto, embora este gênero pareça o mais simples dentro da literatura infantil, na verdade é o único que abarca dois códigos simultâneos, implicando audiências distintas e produzindo tensões estéticas, visuais, sensoriais, emocionais e projetivas valiosíssimas!

À medida que o leitor explora o livro, ele também refina seu olhar e, consequentemente, amplia sua experiência como um todo. Ou seja, é possível dizer que existe também uma alfabetização do olhar, aprende-se a ler não somente o livro, mas também a si mesmo, a ler o outro e tudo o que existe em volta. A ler o mundo interno e externo.  

As imagens sem palavras, para ganharem significado, exigem uma imensa capacidade de síntese e isso permite uma forte projeção para o leitor. A projeção, como sabemos, é um espelho que fala muito sobre nós mesmos. Através do mecanismo projetivo das crianças para com as ilustrações, o leitor pode entrar em contato com um conteúdo profundo de si mesmo e até com emoções ainda não elaboradas ou racionalizadas, que emergem através do simbolismo das imagens.

Tudo isso pode ser detectado e interpretado apenas através da narrativa criada pelo leitor para as imagens propostas. Portanto, trata-se de um exercício literário que exige concentração, desenvolvimento de novas formas de leitura (inclusive a leitura do olhar), atenção aos detalhes, contemplação, reflexão e criatividade, que vai na contramão dos estímulos atualmente oferecidos às crianças e jovens, nos quais a voracidade, a pressa e a ansiedade são a ordem do dia.

A leitura não é apenas um exercício intelectual, ela nos ajuda a ler o mundo, a compreender dentro e fora da gente. Nos faz perceber realidades e culturas diferentes, possibilitando novas formas de pensar e solucionar problemas. Nos traz empatia e abre um mundo de possibilidades.

Por último, cito outro ponto que considero essencial nos livros sem palavras: a questão autoral do leitor.

Ao prescindir das palavras, estamos atribuindo ao leitor a coautoria da obra, que tem leitura livre e todo espaço para criar uma história própria adaptada a sua realidade física e emocional, favorecendo, inclusive, diferentes leituras do mesmo livro, que variam de acordo com cada momento emocional específico.

Mas a questão autoral do leitor vai para além disso.

Para desenvolver qualquer trabalho criativo, é preciso, primeiro, aprender a pensar, e pensar com propriedade, ou seja, ter ideias próprias e encontrar um caminho para expressá-las, desenvolvendo uma linguagem própria.

Nesse sentido, quando estimulamos o desenvolvimento autoral e criativo, preparamos a criança para muito além da literatura. Porque, obviamente, a escolha da literatura como profissão é pessoal, mas estamos dando a ela a possibilidade de se tornar autora da própria vida e da própria história, de ser protagonista e não apenas espectadora.

E isso significa estar preparado para assumir as próprias escolhas, sonhos, caminhos e decisões. Obrigada por ler meu artigo!


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Carolina Michelini

Carolina Michelini nasceu em Joinville (SC), mas hoje divide sua vida entre o Brasil e a Itália.

Formou-se em Psicologia, especializou-se em Psicopedagogia e estudou Filosofia. Além de autora premiada, Carolina é também musicista e toca violoncelo.

É autora de vários livros para crianças, como Pense bem – descobrindo a Filosofia, A carta, O violino, entre outros.

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