A literatura informativa e a literatura de ficção - Coletivo Leitor

A literatura informativa e a literatura de ficção

Por Anna Flora - 27 mar 2019 - 5 min

Quando recebi a proposta de escrever sobre a linguagem informativa e a linguagem de ficção nos livros para crianças, eu pensei: “Puxa… este assunto dá pano pra manga! Por onde eu começo?”.

Então, eu me lembrei do rei da história de Alice no País das Maravilhas, que disse: “Comece pelo começo, siga até o fim, então, pare”.

Pois bem, senhores, começarei do começo: 

  • informar: “[…] 1. Dar informe, parecer sobre; 2. instruir, ensinar […]” (AMORA, 2014)
  • ficção: “[…] 2. coisa imaginária; 3. o resultado do processo de imaginação (livro de ficção).” (AMORA, 2014)

Só que definir esses dois termos não esgota a questão. Isso porque onde a porca, ou melhor, o “texto torce o rabo” é a maneira como podemos estabelecer um elo entre a linguagem informativa e a linguagem de ficção nos livros para crianças sem resvalar no didatismo chato. Uma coisa é livro didático, outra coisa é livro de ficção.

O físico e a literatura

O físico David Bohm nos mostra algumas relações entre Ciência e Arte em um livro maravilhoso que se chama Sobre a criatividade.

Você deve estar se perguntando: o que a obra de um físico tem a ver com livros infantis? As ideias de Bohm têm tudo a ver com a criação da literatura para crianças, muito além do que pensa a nossa vã pedagogia.

Ele elenca a importância da observação, da imaginação e da memória como elementos fundamentais tanto no trabalho do artista quanto no do cientista. Sem a ligação entre o que observamos, imaginamos e sem os conceitos que memorizamos não existiria Arte e nem Ciência.

É evidente que os objetivos dessas duas áreas são diferentes e a linguagem de cada uma delas também: a Ciência prova, a Arte não precisa provar nada.

Isso não significa que o artista, principalmente o escritor, não tenha que ter pés na realidade. Ele pode criar a ficção mais fantasiosa, mas se ela não tiver um elo com o real, a verossimilhança “vai para o brejo”.

Já os cientistas são movidos pela razão, mas também pela paixão em desvendar a natureza. Além disso, em seus experimentos, muitas vezes também precisam imaginar aquilo que nunca foi cogitado antes deles.

David Bohm também ressalta que tanto o cientista quanto o artista têm algo parecido com as crianças no que diz respeito à ação desinteressada: quando criam ou pesquisam, eles se envolvem completamente naquilo que fazem, de uma maneira parecida com o ato de brincar: o fazer, o pensar e o sentir se tornam um só.

Todas essas características apontadas nos auxiliam a abordar o texto informativo em um livro de ficção para crianças de modo que um não prejudique o outro e, assim, fazem com que ambos ajudem o enredo a fluir.

Construindo pontes com a literatura informativa

Mas não é qualquer história que permite estabelecer pontes com o texto informativo. Depende do assunto, depende do que você quer contar, pois alguns temas científicos “dão samba” na literatura, outros não.

Certa vez li uma reportagem incrível em uma revista de Ciência a respeito de um biólogo que escrevia sua tese sobre a cantoria dos sapos e das pererecas. Ele era capaz de identificar a família de cada um desses anfíbios só ouvindo seu canto. Isso não é maravilhoso?

Agora imagine só: e se o sapo-cururu da cantiga de roda, aquele que mora na beira do rio e que quando canta é porque tem frio… e se ele se encontrasse com o biólogo e os dois começassem a conversar? E se o sapo-cururu fizesse suas pesquisas científicas e constatasse que os biólogos também cantam quando sentem frio? Então, os dois organizariam um coral no brejo e cantariam nas noites de inverno… e por aí vai…

Mas, antes que eu comece a escrever uma história e me esqueça que isso é um artigo, deixe-me voltar para as ideias do físico David Bohm. Na sua visão, o cientista considera o universo e a teoria tão belos como uma obra de arte. Ou seja, a beleza que é coerente e verdadeira em si.

Já o artista capta o mundo com a emoção balizada pelo intelecto, sem se esquecer de que a fantasia também retrata o real. Ele convence pela maravilha, não pelo experimento. Justamente por isso, a linguagem informativa e a de ficção podem estabelecer pontes, pois o cerne da questão é a verdade e a beleza compartilhadas.

Dito isso, e levando em conta que as pessoas não têm tempo para ler artigos longos, faço que nem o rei da história Alice no país das maravilhas, que citei lá no início: chego ao fim e paro.

 

Referências:

AMORA, Antônio Soares. Minidicionário Soares Amora da língua portuguesa. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2014.

BOHM, David. Sobre a criatividade. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

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Anna Flora

Anna Flora é historiadora pela PUC-SP, mestre em teatro pela USP, autora de livros para crianças e jovens, com mais de 50 livros publicados, entre eles a coleção Macaco disse. Com a autora Ruth Rocha, já ganhou três vezes o Prêmio Jabuti de Melhor Coleção Didática, em 1997, 2000 e 2010.

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