A internet e a leitura, por Mário Vilela | Coletivo Leitor

A internet e a leitura

Por Mário Vilela - 11 nov 2019 - 14 min

A internet está conosco há 25 anos – um quarto de século. Não é que as crianças estejam só agora crescendo com o mundo do Google, das redes sociais e de tudo mais; o fato é que os pais delas já foram criados no mundo da web. No entanto, a escola e mesmo a mídia ainda parecem, no geral, considerar a internet uma novidade. Não se ajustaram a ela tão depressa nem tão bem quanto as novas gerações.

A escrita e a leitura estão morrendo com o advento do universo digital? Pelo contrário: nunca se leu e nunca se redigiu tanto. Antes da internet, o ato de escrever, mesmo para uma parcela bastante grande das populações mais ricas e mais instruídas, era – ao menos comparativamente – coisa bem eventual ou até rara. Mas, com as redes sociais e os aplicativos de mensagens, as pessoas em ocupações muito humildes se veem, no mundo inteiro, redigindo quase tanto ou até mais que os detentores de curso superior de até duas décadas atrás.

Não é a mesma escrita – não mesmo –, para justificado horror dos puristas. Mas é escrita ainda assim, e seu vigor é evidência de que ela e a leitura não correm risco nenhum de perecer. Isso se aplica inclusive à boa escrita e à boa leitura: apesar dos pesares reais, indiscutíveis, o fato é que também nunca se publicou tanto com tamanho critério e nunca se leu tanto no mesmo espírito. No momento, qualquer avaliação desse fenômeno positivo será apenas impressionística. Um motivo parece bastante claro, contudo: os leitores assíduos de verdade – o contingente majoritariamente silencioso que sempre se mostrou o sustento fosse da mídia impressa, fosse do ramo livreiro – jamais tinham tido acesso tão fácil a acervos tão grandes. Pessoas, entre elas uma minoria de jovens, que antes se orgulhavam de bibliotecas com centenas de exemplares têm hoje acesso fácil a milhares – ou até dezenas de milhares – de e-books e outras publicações eletrônicas, aí incluído um sem-número de obras em domínio público que apenas a internet pôde realmente disponibilizar. (E, é verdade, um sem-número de obras protegidas por direito autoral que a pirataria, entretanto, veio oferecer.)

Sim, não é esse o perfil do leitor comum. Menos ainda é o perfil de crianças e adolescentes – leitores reais ou potenciais – com o mundo ponto.com, sobretudo no ambiente escolar de um país como o Brasil. Nisso, a internet e os materiais digitais, com evidente destaque para os games, vêm deixando perplexos pais, professores, pedagogos e formuladores de políticas públicas para a educação. Alguns estão animados com esses novos desdobramentos; a grande maioria, porém, se inquieta horrores com eles.

Pessimismo

O temor vem mesmo de quem tem formação e atuação na área digital. A paulista Léa Miranda, por exemplo, é tecnóloga em TI. Mas, mãe de dois garotos, assusta-se com o que vê.

“Internet? Para muitas pessoas, ainda é uma grande incógnita, um mistério que dificilmente vão esclarecer antes do fim da vida. Os meus pais, por exemplo: nem a palavra conseguem pronunciar direito. Com o meu pai, internet vira meme: intermete, ele diz na maior inocência. Agora, para a nova geração – a dos meus filhos e sobrinhos –, a web nasceu com o mundo. Volta e meia, pego o meu mais novo, de nove anos, choramingando, nervoso, porque a conexão está ruim e ele não consegue jogar direito. O outro, de 19, em vez de tênis ou roupa nova, pede pacote de dados maior. Concluo com tristeza: estão dependentes disso. Nas horas vagas, não se faz nada senão navegar na net. O que fazíamos quando crianças e jovens, que era brincar e interagir diretamente com os amigos reais, parece ter ficado no passado. As pessoas estão cada vez mais isoladas, mais solitárias, com dificuldades de relacionamento – aqui em casa não é diferente. Ainda assim, não abrem mão de estar sempre on-line. Com tudo isso, o prazer de folhear um livro e viajar nas histórias está, sim, se perdendo. Deixo para os educadores e experts em comportamento nos dizer o que fazer, mas não vejo a tão esperada luz no fim do túnel.”

O pessimismo é corrente, e motivo parece não faltar. Pesquisas internacionais vêm mostrando que, embora crianças e jovens estejam lendo mais num sentido amplo – porque a vida on-line exige –, trata-se de uma leitura mais apressada e mais superficial do que se supõe ter sido nos tempos pré-internet. Em 2016, por exemplo, um estudo da Stanford University, nos EUA, constatou que alunos do sétimo e oitavo ano do ensino básico americano têm muita dificuldade em diferenciar o que são notícias e fatos confiáveis do que é simples publicidade e propaganda. “Já que crianças e jovens exibem tanta fluência no uso das redes sociais, muita gente acha que eles conseguem discernir igualmente bem o que encontram por lá”, comenta o professor Sam Wineburg, principal autor da pesquisa. “Nosso trabalho demonstra o contrário.”

Os efeitos se estendem às salas de aula do mundo todo, ressalta Miguel López da Silveira, que leciona Português e Literatura e é vice-diretor na Escola Estadual de Ensino Médio Professor Júlio Grau, em Porto Alegre. “As redes sociais, que são utilizadas pela maioria dos jovens, mais atrapalham que ajudam os professores. Esses últimos se esfalfam em explicações enquanto a atenção dos alunos é desvirtuada para postagens no Facebook, stories e selfies no Instagram, conversas intermináveis no WhatsApp, disputas em jogos virtuais.” Mestre em Letras pela UniRitter, Miguel lembra que a maioria dos docentes estudou e se formou num tempo em que podiam contar com pouco – ou nenhum ­– auxílio de ferramentas digitais. Para eles, na maior parte das vezes, a internet como um todo se torna agora um estorvo, pois veem a classe utilizar com destreza recursos digitais que os professores desconhecem ou não dominam. É o caso dos resumos de leitura em sites ou aplicativos que dispensam o estudante de ir, ele próprio, aos livros e demais textos pedidos. Também é o caso das câmeras de celular, cada vez melhores, que em segundos captam a imagem do quadro repleto de informações e substituem assim o antigo esforço de leitura e escrita com caderno, lápis, caneta. Num descuido da escola ou do professor, a foto de uma prova ainda por fazer pode até ir parar em grupos de WhatsApp.

“São apenas alguns exemplos, mas mostram que os alunos empregam os recursos digitais – e os empregam em grande escala – com intuito imediatista. Buscam alcançar com o menor esforço o resultado esperado por eles e pelos pais, deixando de lado a reflexão, a concentração, o empenho. Evidentemente tudo tem um preço, e quem se acostuma a obter conteúdos minimizados e conseguir de imediato as respostas acaba sem conhecer nenhuma metodologia de estudo e pesquisa. Vai utilizando a internet e seus recursos para alcançar a nota exigida, não o conhecimento que lhe dê o acesso aos demais conteúdos necessários na vida escolar.” Com muita frequência, a leitura, essa competência tão básica, é a primeira vítima.

Hiato – e alentos

Outro problema é que as escolas brasileiras – ao menos as da rede pública – não estão realmente equipadas para enfrentar os desafios da internet. “Muitas não têm laboratório de informática. Quando têm, estão defasados. Os monitores – profissionais que venham auxiliar professor e aluno – são raríssimos, e, mesmo quando esses obstáculos são superados, o laboratório não tem rede capaz de fornecer o serviço adequado à proposta pedagógica.” Num ambiente assim limitado, muitas das ferramentas mais revolucionárias do mundo virtual não são usadas como deveriam – ou nem são usadas, ponto. Um exemplo é o livro eletrônico, cujo potencial no ensino brasileiro ainda está quase todo por explorar.

“Com o uso inadequado da internet pelos jovens e a imperícia dos professores em trabalhar com ela, um hiato vai se formando entre essas gerações.” A situação geral não agrada a ninguém – pais, mestres, alunos. Cada vez mais, continua Miguel, os alunos da rede pública não veem sentido em grande parte do conteúdo aprendido. “Muitos constatam que o mundo mudou demais com o advento da tecnologia digital, a escola vive alheia a isso, e a desmotivação faz que a evasão na passagem do Ensino Fundamental para o Médio fique na casa dos dois dígitos.”

Entretanto, há motivos para alento, e não são poucos. “Com baixo custo para a família do estudante, a internet amplia em muito as pesquisas, aprofundando os conhecimentos sobre os assuntos debatidos em classe ou mesmo sobre outros que nem chegaram a ser mencionados pelo professor.” Fora do ambiente escolar, as pesquisas à moda antiga – feitas em enciclopédias e dicionários impressos, elementos inacessíveis para grande parte dos estudantes – se viram substituídas pela navegação em sites especializados, em aplicativos ou em documentários que são exibidos gratuitamente.

“Se antes o professor não dava conta de tirar as dúvidas de todos, hoje o aluno, longe da desordem dos colegas, acessa em casa aulas virtuais sobre o conteúdo dado – o que veio substituir o professor particular, que minava o orçamento familiar no fim do segundo semestre, quando o ano letivo já estava comprometido. Basta uma busca no YouTube para ver a popularidade de canais como o Descomplica e o Me Salva! e de professores que mantém páginas com milhões de inscritos.”

Um corolário importante: já em muitos casos, essa democratização do acesso tanto à informação como às ferramentas digitais – as crianças e jovens, em número cada vez maior, dominam hoje a edição de áudios, fotos e vídeos, por exemplo – possibilita que os alunos não apenas consumam conteúdos mas também os produzam.

Para melhor ou pior, a aprendizagem vai sendo influenciada mesmo no caso daqueles – as crianças pequenas – em que a leitura ainda não é a alfabética. É o que conta Patricia Retti, formada em Letras pela USP e em Pedagogia pela Fundação Santo André.

“Como professora, minha experiência da leitura – seja a do livro, seja a do mundo – pode ser facilmente dividida em antes e depois da internet, tanto na facilidade de obter informações e elaborar atividades quanto na atitude dos alunos para com a aprendizagem e o comportamento em sala de aula. Hoje trabalho com educação infantil, lidando com crianças de dois a três anos, e impressiona como elas já dominam o toque na tela e às vezes até conhecem os ícones da tela inicial pelo nome – galeria, WhatsApp, Instagram, Google. Nessa faixa etária, o celular é instrumento importante para registrarmos com fotos o trabalho, mas veja só: é preciso ter cuidado porque os pequenos pegam, desbloqueiam e acessam conteúdos de qualquer aparelho que você, desavisadamente, deixe ao alcance deles.”

O ritmo na sala de aula também mudou. “Há um crescente imediatismo e uma agitação por vezes difícil de contornar, que acaba comprometendo algumas atividades”, reconhece Patricia. “Hoje, com a internet, é comum crianças contarem de trás para a frente, saberem o alfabeto e declamarem as cores em inglês antes mesmo de desenvolverem a habilidade de subir as próprias calças. Sim, estão adiantadas em alguns pontos e não se importam com outros.”

A derradeira geração de leitores competentes?

Tudo considerado, o principal motivo para otimismo – moderado ou não – é que, até agora, nenhuma grande mudança tecnológica fez recuar a inteligência nem a capacitação das pessoas. E, por mais que preocupações e temores com a internet estejam bem embasados na realidade – como estão –, não há aí nada de novo, muito embora possa parecer. Desde antes da metade do século XX, o avanço do audiovisual – de que tanta coisa na web é só a versão mais recente – deixava com a pulga atrás da orelha, ou os cabelos já em pé, os proponentes da leitura e da escrita. Se hoje o temor é à internet, nos anos 1930 era aos quadrinhos, por mudos e modestamente bidimensionais que fossem.

Mais uns 15, 20 anos, chegou a vez da televisão. Não em cores, mas a versão preto e branco ainda, com tela quase sempre pequena. Mesmo assim, a ameaça era considerada grande o suficiente para que até um autor tão presciente e tão aberto à inovação como Isaac Asimov escrevesse o que segue. Aqui, ele fala sobre a geração americana anterior a tudo aquilo – os leitores que, a partir da década de 1900, tinham consumido a literatura dos pulps, nome dado às revistas de papel barato, com histórias de entretenimento, em geral no gênero policial, fantasia e sci-fi:

 Por mais lixo que fosse a ficção publicada nessas revistas, ainda era preciso saber lê-la. A garotada ávida por aquelas histórias cafonas, mal-ajambradas e repletas de lugares-comuns tinha de decodificar palavras e frases para satisfazer tal vontade. Isso fazia que todos os que as consumiam se tornassem leitores competentes, e uma pequena porcentagem deles ficou então habilitada a avançar para coisas melhores.

Agora ponderem o que aconteceu desde aquela época. Na segunda metade da década de 1930, as revistas em quadrinhos começaram a inundar o mercado, e os pulps se enfraqueceram com essa concorrência. A Segunda Guerra Mundial acarretou escassez de papel, e eles perderam ainda mais terreno. Com o advento da televisão, o que restava dos pulps morreu (a única e assombrosa exceção foi a ficção científica).

Em geral, a tendência no último meio século, mais ou menos, tem sido priorizar a imagem em prejuízo da palavra. Os quadrinhos incrementaram o visual e, nisso, fizeram decrescer o padrão de leitura. O televisor vem levando a mesma tendência ao extremo. Até as revistas dos anos 1930 que eram impressas em papel bem superior ao dos pulps e enfatizavam o textual para um público mais elitista acabaram moribundas ante a concorrência, primeiro, das revistas de fotojornalismo da década de 1940 e, em seguida, das revistas de mulher pelada.

Em suma, a era dos pulps foi a última na qual os jovens, para entender aquele material tosco que se publicava, estavam obrigados a saber de fato ler. Tudo isso acabou, e agora os olhares vidrados da garotada vivem colados às telinhas. O resultado é óbvio. A leitura verdadeiramente competente vai virando uma arte hermética, esotérica, e o país emburrece em ritmo firme e constante.

Isso me parte o coração, e relembro os tempos dos pulps com um suspiro, não só de saudades pelo que vivi, mas também de pesar por aquilo em que a sociedade se transformou.

Os pulps, não custa recordar, tinham sido, eles próprios, motivo de escândalo e preocupação para pais e educadores no início do século XX. O bom juízo era que tais publicações embruteciam o gosto e a sensibilidade e, claro, mostravam-se nocivas ao aprendizado correto. De sua parte, Asimov escreveu o trecho acima já na primeira metade dos anos 1990. O meio século precedente que ele tanto lamenta testemunhou justamente os maiores avanços na instrução americana, com uma produção acadêmica e literária que não foi inferior à de nenhuma época anterior na história do país. Se o escritor e aqueles seus predecessores se equivocaram tanto, deve haver esperança para os jovens desta década e além.

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Mário Vilela

Mineiro há muito não praticante, Mário Vilela se formou em Letras pela USP e em Jornalismo pela Metodista. No ramo editorial há mais de 35 anos, é redator, tradutor e copidesque.

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