A educação na pandemia

Por Juliana Muscovick - 03 fev 2021 - 6 min

Na segunda semana de janeiro de 2021, foi atingida a marca de 2 milhões de mortos por Covid-19 (coronavírus) ao redor do mundo e quase 100 milhões de infectados, segundo dados da universidade John Hopkins, nos Estados Unidos. O vírus é responsável pelo pior colapso sanitário dos últimos cem anos e tem sido responsável, além das inúmeras mortes, por uma crise econômica mundial sem precedentes, que resulta na perda de milhões de empregos e fechamento de empresas.

A pandemia fez com que as pessoas mudassem o modo como se comportavam no dia a dia. Ainda presente e sem data para ir embora, ela antecipa mudanças, promove aceleração tecnológica e científica, e faz com que a sociedade se adapte obrigatoriamente a uma nova forma de viver.

Esse contexto, todavia, destampou o cenário de desigualdade social no mundo e no Brasil. A disparidade de acesso à educação e à qualidade de vida muda exponencialmente quando visto pelas classes sociais. Na área da educação, escolas foram fechadas por longos períodos e milhões de alunos tiveram que se adaptar ao novo modelo do ensino remoto. Os estudantes mais pobres, contudo, estão sofrendo mais com a pandemia e são reflexo desse contexto desigual, pois carecem de acesso, infraestrutura e capacitação para acompanhar o ensino na pandemia.

Essa desigualdade é apresentada pela pesquisa “Educação em Pausa”, produzida pelo Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas (Unicef) em novembro de 2020, sobre os impactos da Covid-19 na educação. Por meio do estudo, constatou-se que mais de 137 milhões de crianças e adolescentes na América Latina tiveram seus processos educacionais pausados. O relatório também apresenta um panorama da realidade brasileira: 4 milhões de estudantes do Ensino Fundamental (14,4%) estavam sem acesso a nenhuma atividade escolar. O cenário é ainda pior entre os moradores das favelas, conforme estudo apresentado pelo Data Favela, em novembro de 2020, em que 55% dos estudantes brasileiros oriundos desses locais estavam sem estudar durante a pandemia.

O ensino remoto foi a solução ideal para o momento e atendimento dos protocolos de distanciamento social. No entanto, apesar das facilidades que a tecnologia traz, ela não tem sido unanimidade entre os usuários. Essa divergência se dá muitas vezes por questões distintas: dificuldade no acesso à informação; problemas de conexão com a internet; falta de computador ou celular; questões de cunho psicológico, que afetam a concentração e assimilação do conteúdo; ambiente adequado para o estudo, já que muitos estudantes não contam com espaço apropriado.

Papel da família

O papel da família na pandemia foi ampliado e tem se mostrado fundamental para o processo de aprendizagem dos estudantes. O apoio familiar na educação sempre foi um fator positivo, mas no cenário do isolamento tornou-se essencial, principalmente pela questão do estímulo ao estudo e por conta do amparo emocional.

Profissionais no mundo inteiro têm buscado conciliar o trabalho com a presença dos filhos. O Google, por exemplo, justificou, entre uma de suas decisões de estabelecer o home office de seus funcionários até julho de 2021, o acompanhamento pedagógico pelos pais na educação dos filhos. No entanto, nem todas as empresas levam essa questão em consideração.

Nesse sentido, a pandemia não só ampliou o apoio familiar no processo de ensino, mas mudou as relações familiares, devido à convivência e ao compartilhamento do dia a dia.

Professores

A modalidade de ensino remoto fez com que professores de diversas partes do país adaptassem sua metodologia e rotina doméstica à nova forma de trabalho. No entanto, essa mudança trouxe alguns desafios, incluindo o de pensar sobre as novas atribuições e os papéis dos docentes no geral.

Alguns se adaptaram bem, já outros nem tanto. Muitos são os relatos de professores com dificuldade para trabalhar durante o ensino remoto. Esse é o caso dos que têm filhos pequenos em casa, situação que acaba causando a interrupção do trabalho em diversas partes do dia, o que sobrecarrega o profissional tanto no planejamento como na execução das aulas, pois a situação gera um cansaço maior e tempo reduzido.

Ainda, há a questão do excesso de tarefas que os professores acabaram acumulando e também a preocupação com os alunos impossibilitados de acessar os conteúdos digitais.

Apesar de todos os desafios enfrentados pelos professores para gerar conteúdo, algumas vantagens podem ser destacadas, como a possibilidade de aprender novas tecnologias e repensar aulas cujos formatos incluam ferramentas digitais, o que pode aproximar professores e alunos.

Retomada das aulas

A volta do ano letivo no Brasil está acontecendo em formato híbrido, priorizando estudantes de determinadas séries ou a partir de rodízio entre os alunos, de acordo com as recomendações de cada Estado. A defesa pela retorno tem sido incisiva pela maioria dos secretários de Educação, que afirmam que a escola fechada pode aumentar os problemas de saúde mental dos alunos e impactar na sociabilização.

Nos países que retomaram o ensino presencial antes do Brasil, como China e Nova Zelândia, as mudanças foram significativas no dia a dia escolar, variando desde a entrada e saída da escola de forma alternadas, investimento em equipamentos para higienização, medição de temperatura e proibição do compartilhamento de materiais escolares.

Apesar dos entraves e dos grandes desafios, esta pode ser uma oportunidade para repensar e reconstruir o modelo educacional brasileiro, a fim de elevar a qualidade do ensino das escolas. O uso da tecnologia no ambiente escolar é um caminho sem volta no mundo pós-pandemia. Os meios mais utilizados hoje para o ensino remoto são as plataformas on-line desenvolvidas pelas próprias escolas ou por empresas especializadas, aulas ao vivo em redes sociais, entre outras.

No futuro, as ferramentas tecnológicas, como os objetos digitais de aprendizagem (ODAs) e os ambientes virtuais de aprendizagem, podem se manter independentemente da presença da Covid-19. Pode ser por meio desse formato híbrido, com ferramentas inclusivas e acessíveis, que o aluno tenha a oportunidade de ter mais autonomia em sua aprendizagem e um currículo mais personalizado.

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Juliana Muscovick

Juliana Muscovick é editora do Departamento de Literatura Infantojuvenil da SOMOS Educação. Formada em Letras, História e com especialização em jornalismo, trabalha na área editorial desde 2010 e sempre se aventurou pelos caminhos das letras, da cultura, da educação e das artes.

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