A DIVA DE CECÉU – EUGÊNIA CÂMARA, A ETERNA NAMORADA DE CASTRO ALVES

Por Alexandre Azevedo - 17 mar 2021 - 7 min

Filha do senhor Joaquim Infante da Câmara e de dona Ludovina Infante da Câmara, Eugênia Infante da Câmara nasceu em 9 de abril de 1837, na cidade de Lisboa. Aos 15 anos de idade já se mostrava propensa às artes cênicas, principalmente no que dizia respeito à declamação. E foi declamando um poema em francês e outro em espanhol que acabou impressionando os homens de teatro da capital lusitana. Não demorou muito para integrar a trupe da Companhia Teatral do Ginásio, passando a representar na cidade do Porto, tida por muitos como o centro cultural de Portugal. Mostrando também aptidão para a poesia, por lá lançou o seu primeiro livro de versos, humildemente intitulado Esboços Poéticos.

     Percebe-se que Eugênia Câmara adveio de uma família fidalga, já que apresentava forte inclinação para a intelectualidade e detinha bom repertório artístico-cultural.

      Com 22 anos de idade desembarcou na cidade do Rio de Janeiro, integrando a Companhia Teatral de Furtado Coelho para a apresentação de um drama de três atos, intitulado Abel e Caim, do português Mendes Leal. O sucesso na corte carioca foi tão grande que outra peça fora programada para o mesmo ano de 1859, agora estrangeira, mas com tradução da própria Eugênia Câmara, Berta de Castigo.

       Na plateia, a nata da intelectualidade fluminense, dentre os quais Machado de Assis que, não raras vezes, atacava também como crítico teatral. Extasiado com o que assistira, não se conteve e, numa das páginas da revista O Espelho, de 6 de novembro do corrente ano, escreveu:

A Sra. Eugênia Câmara tem uma esfera própria, a comédia, a comédia Dejazet. Em sua estreia teve a felicidade de mostrar-se de perfil, com toda a distribuição de luz e de sombras; de maneira que a plateia apanhou-lhe os traços mais vivos e reconhece-lhe as proeminências..

       Começava aí uma carreira de sucesso pelos palcos brasileiros. Não à toa, a Dama Negra, como viria a ficar conhecida a jovem atriz portuguesa em nossos palcos, despertou logo cedo o interesse de Castro Alves, que havia há pouco entrado em sua adolescência. Para ela, o romântico poeta condoreiro escreveu:

Ainda uma vez tu brilhas sobre o palco,

Ainda uma vez eu venho te saudar…

Também o povo vem rolando aplausos

Às tuas plantas mil troféus lançar…

Após a noite, que passou sombria,

A estrela d’alva pelo céu rasgou…

Errante estrela, se lutaste um dia,

Vê como o povo o teu sofrer pagou…

Lutar!… que importa, se afinal venceste?

Chorar!… que importa, se lutaste um dia,

A tempestade se não rompe a estátua

Vê como o povo o teu sofrer pagou…

Lutar!… que importa, se afinal venceste?

Chorar!… que importa, se afinal sorris?

A tempestade se não rompe a estátua

Lava-lhe os pés e a triunfal cerviz.

Ouves o aplauso deste povo imenso,

Lava, que irrompe o pop’lar vulcão?

É o bronze rubro, que ao fundir dos bustos

Referve ardente do porvir na mão.

O povo… o povo… é um juiz severo,

Maldiz as trevas, abençoa a luz…

Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo:

– P’ra ti altares, não do poste a Cruz.

Que queres? Ouve! – são mil palmas férvidas,

Olha! – é o Delírio, que prorrompe audaz.

Pisa! – são flores, que tu tens às plantas,

Toca na fronte – coroada estás.

Descansa, pois, como o condor nos Andes,

Pairando altivo sobre a terra e mar,

Pousa nas nuvens p’ra arrogante em breve

Distante… longe… mais além voar.

Poeta dos Escravos, Antônio de Castro Alves (1847-1871) ou apenas Cecéu, conheceu a sua Dama Negra em 1863. Portanto, era um jovem poeta de 16 anos de idade, enquanto a atriz já estava com os seus 26. Eugênia Câmara era, por essa época, não só uma experiente atriz, com os seus 14 anos de tablado, mas também uma experiente mulher. Muito diferente das outras mulheres que viveram e conviveram com o poeta, como Teresa e Idalina, tendo a última se relacionado com Castro Alves antes de ele viver maritalmente com a atriz. Eugênia Câmara era mãe de uma menina chamada Emília, provavelmente filha de Furtado Coelho, empresário e ator que vivera com Eugênia como se seu marido fosse. Mas isso não impediu que o jovem ambicioso e convencido – “eu sinto em mim o borbulhar do gênio” – com dotes e ares de D. Juan, sonhasse com aquela linda mulher, de olhos e cabelos negros, que brilhava em cima do palco do Teatro Santa Isabel. E Cecéu, o jovem abusado, não se privou de um poema em homenagem a Furtado Coelho, enaltecendo as suas qualidades de artista:

[…]

Ergueste a voz em Dalila,

Contigo o artista adorei;

Depois em Lúcia choraste,

Contigo Lúcia chorei.

Falaste após, duro e frio,

No Cinismo – um calafrio

Passou-me gelado n’alma.

Eia, pois, Proteu da arte,

Que assim sabes transformar-te

Que a Proteu levas a palma.

[…]

      Para conquistá-la, Castro Alves subia ao palco durante o entreato para declamar em homenagem àquela que não saía, nem por um só instante, do seu pensamento. Enfim, enamoraram-se.

       Alguns anos depois, a grande homenagem do poeta à sua amada: a peça Gonzaga ou a Revolução de Minas. Castro Alves construíra a personagem Marília, a conhecida musa do Dirceu, não com o rosto da Vênus, como pintou Tomás Antônio Gonzaga em certa lira na qual o próprio Cupido (ou Amor) confunde o rosto de Vênus com o de Marília – “Foi fácil, ó Mãe formosa, / Foi fácil o engano meu, / Que o semblante de Marília, / É todo semblante teu!” –, mas com o rosto da própria Eugênia Infante da Câmara.

      E o sucesso foi comprovado na Bahia quando o casal passou a residir em Salvador, terra de Castro Alves. Lá, na antiga capital colonial, a peça fora encenada por quatro vezes, algo incomum na época. Numa pequena casa, cercada por florido jardim, o casal viveu por oito meses, acreditando ser possível viver de amor.

      Por outro lado, ao escrever o drama, Castro Alves parecia adivinhar a impossibilidade de amar, a mesma impossibilidade que permeava a segunda fase da obra Marília de Dirceu, escrita quando Tomás Antônio Gonzaga, o árcade Dirceu, delatado por participar da Inconfidência Mineira, encontrava-se na masmorra da Ilha das Cobras, três anos antes de ser enviado para o exílio em Moçambique.

       Acostumada a uma vida de glamour, era inconcebível para Eugênia Câmara viver longe dos palcos, mesmo estando nos braços do seu grande amor.

       Para a tristeza de Castro Alves e a felicidade do Teatro, Eugênia Câmara voltara para a sua vida de atriz…

Bibliografia

ALVES, Castro. Poesias completas. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

FACIOLI, V.; OLIVIERI, A. C. (orgs.). Antologia Poesia Brasileira: romantismo. 12ª ed. São Paulo: Ática, 2011.

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Alexandre Azevedo

Alexandre Azevedo é professor de literatura e escritor. Autor de mais de 120 obras. Já publicou, entre outros, Que azar, Godofredo! (Atual), O vendedor de queijos e outra crônicas (Atual), Três casamentos (Atual), Poeminhas fenomenais (Atual), O menino que contava estrelas (Atual), A lua e a bola (Formato) e A última flor de abril (Saraiva).

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