12 de agosto – Dia Nacional das Artes

Por Margareth Darezzo - 11 ago 2021 - 7 min

Há sempre e tanto o que se refletir e falar sobre a Arte. Artistas, filósofos, educadores, antropólogos, sociólogos, psicólogos e tantos outros profissionais já registraram definições sobre ela. Alguns defendem um princípio, outros partem de uma tendência, outros até mesmo lhe atribuem uma função.

Professora de música e compositora que sou, não pretendo definir a Arte, mas vou revelar aqui a coerência amorosa da música que tem me encantado muito, e que se apresenta nas cantorias com as crianças e nos relatos de pais e educadores que recebo quase que diariamente.

Escolhi um entre tantos relatos para compartilhar. Fui abordada por uma mãe na platéia de um concerto quando esperava o seu início; ela me contou, emocionada, o quanto as minhas canções tinham participado dos cuidados com seus filhos pequenos. Confidenciou que encontrou conforto nas melodias e acolhimento nas letras, que se viu nas emoções e identificou um lugar rico de troca com seus filhos em família. 

Quando componho para a criança, tenho um objetivo, uso um banco de dados dos meus conhecimentos musicais e gerais. A minha história é parte integrante do processo, claro, e a minha inspiração é o que me move. No relato daquela mãe está a maravilha de produzir arte: “Eu estava perdido em mim mesmo, e você veio me dar notícias de mim mesmo”. Essa frase é do escritor André de Breton, citada por Bernard Golse, psiquiatra infantil, no seu livro Bebês, maestros, uma dança das mãos. Essa possibilidade de encontro de subjetividades onde quem produz se expressa e quem contempla se identifica tem alimentado todos os meus dias, práticas e estudos. Fazer arte promove o exercício da expressão livre do entendimento do mundo, que pode ser encontrado pela identidade do outro, e proporcionar uma sintonia prazerosa. 

“O maestro fala a seus músicos sobre eles, falando de si mesmo” (GOLSE,  2020)

E quando pode surgir o envolvimento da criança com a arte?

O neurologista e neuropediatra Dr. Mauro Muszkat diz que bebês são ouvintes competentes desde muito cedo. Colwyn Trevarthen,professor emérito da Universidade de Edimburgo, revela que os bebês já nascem com musicalidade e que, ainda muito pequenos, já observam o ritmo de tudo o que acontece. 

Bernard Golse diz que “o bebê não entra na linguagem diretamente pela significação das palavras, mas pela música da linguagem, e singularmente pela linguagem de sua mãe: seu timbre, sua intensidade, seu ritmo, seus silêncios” (GOLSE, 2020).

A arte está  nas descobertas e no envolvimento entre as pessoas. 

Sandra Trehub, psicóloga e pesquisadora canadense, provou em estudos que a música afeta o comportamento prossocial ou a propensão de bebês de 14 meses em ajudar o outro.

Quando observarmos crianças brincando, vemos artistas de teatro em plena atuação, com jogos lúdicos e experimentos de expressão. A arte promove diálogos e entendimento das emoções.

Muitos já  provaram a necessidade e adequação da Arte na vida da criança. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), por exemplo, tem como pressuposto que a sensibilidade, a intuição, o pensamento e as subjetividades se manifestam como formas de expressão no processo de aprendizagem em arte e que os processos de criação são tão relevantes quanto os eventuais produtos.

Fernando Pessoa escreveu, provavelmente em 1914, que “só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes – tudo isso passa. Só a arte fica. Por isso, só a arte vê-se, porque dura”. Tom Jobim cantou o pensamento de Hipócrates (460 a.C.) na música Querida, lançada em 1994: “Breve é a vida, longa é a Arte…”

Eu sinto a Arte como  uma das maiores manifestações de afeto pela humanidade, uma herança preciosa para os nossos filhos.

Que seja a Arte a forma mais presente de mostrarmos o mundo para as crianças, desde sempre.

Vamos cantar?

Feliz dia Nacional das Artes!

Sobre o tema comemorado, confira a seguir as indicações de leitura do Coletivo Leitor:

Música, de Raquel Coelho

A história da música contada num texto abrangente e informativo, permeado de ilustrações criativas montadas com diversos materiais (papel, tecido, sucata), contando um pouquinho de cada ritmo e das influências que a música brasileira sofreu ao longo da história.

Teatro, de Raquel Coelho

Num texto fluente, gostoso, criando um clima de proximidade e cumplicidade com o leitor, Raquel Coelho desfila importantes informações sobre o teatro, fundamentadas com cuidado e seriedade, mostrando cenários, personagens, objetos, fatos relativos a essa manifestação artística. Seu texto, acompanhado de belíssimas ilustrações, também de sua autoria, feitas de retalhos, pequenos objetos, bonecos e sucata, leva o leitor, seja ele criança ou adulto, a percorrer os caminhos do teatro, saboreando cada página com prazer. Um livro que fala de arte feito com arte. Prêmio FNLIJ, na categoria “Informativo” e 2° lugar no Prêmio Jabuti, na categoria “Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil”, em 2000.

Arte dos Quadrinhos, de Raquel Coelho

Em uma perspectiva cronológica, o livro mostra o surgimento e a evolução dos quadrinhos, chegando aos dias de hoje. Com atenção especial para a linguagem característica das histórias em quadrinhos, o texto trata dos primeiros heróis dessas histórias, dos diversos estilos, da importância cultural e econômica dessa arte popular no mundo inteiro. As ilustrações, primorosas, são feitas de sucata, retalhos, bonecos, pequenos objetos e desenhos.

Encontro com Portinari, de Rosane Acedo e Cecilia Aranha

O gosto pela arte e pela educação reuniu as autoras Rosane Acedo e Cecília Aranha neste projeto, que fala da arte brasileira para crianças. Em textos fluentes e essenciais, falam da vida e da obra desses artistas e reproduzem muitas dessas obras, bem como fotos e documentos. Ao longo de cada livro, perguntas curtas e objetivas (cujas respostas aparecem no final do livro) orientam a leitura do texto e das obras de arte, pontuando elementos ou detalhes que ajudam a criança a ver melhor cada uma delas. Neste volume, o pequeno leitor vai descobrir quem foi Candido Portinari; o menino Candinho do interior de São Paulo, o pintor que mostrou o Brasil para o mundo.

Encontro com Tarsila, de Rosane Acedo e Cecilia Aranha

Neste volume, o pequeno leitor entra em contato com a vida e a obra de Tarsila do Amaral, ícone da arte brasileira.

Encontro com Segall, de Rosane Acedo e Cecilia Aranha

Neste volume, o pequeno leitor vai descobrir quem foi Lasar Segall, o pintor nascido na Europa marcada pela guerra, que se encantou com o povo, as cores e as paisagens do Brasil.

Modernismo no Brasil, de Beá Meira l

Os mais de 50 anos do desenvolvimento das propostas modernistas no Brasil são mostrados neste livro. Ele destaca os principais artistas do movimento, tendências e eventos. Tudo isso de maneira contextualizada aos acontecimentos sociais. O livro aborda ainda outras áreas, como a fotografia, o cinema, as artes gráficas e a literatura.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf>. Acesso em: 9 ago. 2021.

AMY, Gilbert; GOLSE, Bernard. Bebês, maestros, uma dança das mãos. Instituto Langage, 2020.

PESSOA, Fernando. Páginas de Estética e de Teoria LiteráriasLisboa: Ática, 1996. Disponível em: <http://arquivopessoa.net/textos/3249>. Acesso em: 9 ago. 2021.

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Margareth Darezzo

Margareth Darezzo é Arteeducadora, Mestre em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos; Especialista em Psicologia Infantil, com Extensão Universitária em Neuropsicologia;possui Aperfeiçoamento em Neurociências, linguagem e aprendizado; Extensão em Neuropsicologia do desenvolvimento e suas interfaces; Especialização em Neuroeducação.

É Compositora dos CDs Canteiro e Canteiro Florescer; Autora e compositora do livro Canteiro – músicas para brincar (Editora Ática, 2011), que recebeu o Selo Altamente Recomendável FNLIJ e foi indicado ao Prêmio Jabuti. Recebeu o Prêmio Funarte de Música Brasileira em 2012. É autora e compositora do livro Quem vem lá? Música e brincadeira para o bebê (Editora Melhoramentos, 2015).Compositora do EP Canteiro Meu jardim (2020).

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